Como se escreve nos jornais

Diga 3333


      Numa notícia («Um país unido parou para rezar e chorar os seus mortos», assinada pela jornalista Maria João Guimarães) publicada hoje no jornal Público, a propósito da morte do presidente polaco, lê-se: «Varsóvia transformou-se numa gigantesca igreja, com flores e velas, num sofrimento consensual por uma figura controversa». Sofrimento consensual — como se a dor moral fosse algo de voluntário a respeito da qual pudéssemos fazer pactos e negociar. Vá lá, agora vamos todos ter pena. Os jornalistas relêem o que escrevem? Os revisores relêem o que revêem?

[Post 3333]

Crase

À pedrada


      Não me esqueci da sua pergunta, caro Paulo Araujo. A propósito de um título, «Atacam polícia à pedrada antes de bater em agente», em que se usa a crase (e crase é vocábulo que poucos falantes portugueses conhecem), este leitor pergunta: «Supondo-se substituir pedrada por pontapé ou chute, não seria necessário imaginar ao pontapé ou ao chute; por isso, não vejo motivo para a crase. Desculpe a insistência.» Os Portugueses não somente quase desconhecem o vocábulo — raramente se debatem com a dificuldade que aos Brasileiros parece inerente ao conceito. Mas voltando atrás: crase é o nome que se dá à contracção da preposição a com o artigo a (ou no plural, as), grafada à, às, e, por extensão de sentido, ao acento grave que marca na escrita essa contracção.
      Ontem, na redacção, um jornalista pensou em voz alta: «Volta a Turquia ou Volta à Turquia?» Lembrou-se, decerto, de Volta a França e Volta a Espanha, e hesitou. Tirando este caso, só me estou a lembrar da hesitação, mais do mundo académico, em torno de ensino a distância/ensino à distância. Há, não nego, algumas subtilezas no uso da crase, mas parece-me que, de uma maneira geral, não escapam ao comum falante português. Não é que o diagnóstico seja útil, mas creio que é algo idiossincrático, muito próprio dos falantes brasileiros. Razão insuficiente para dizermos que estamos perante outra língua, pois claro.

[Post 3332]

Ortografia: «juiz-conselheiro»

Colendos juízes-conselheiros


      «O juiz-conselheiro falava durante o lançamento do livro ‘Justiça 2009’, escrito por si, pelo ministro da Justiça, Alberto Costa, pelo bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, e pelo procurador-geral da República, Pinto Monteiro» («Crise pode voltar a entupir tribunais», Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 2.09.2009, p. 18). «De acordo com o presidente do TC, Rui Moura Ramos, dos treze juízes conselheiros, dois votaram contra. José Borges Soeiro e Benjamim Rodrigues foram os únicos a considerar que o casamento homossexual viola a Constituição» («Casamento gay recebe luz verde», Ana Patrícia Dias, Correio da Manhã, 9.4.2010, p. 24).
      Eles são assim, um pouco inconstantes, hesitantes, abjurantes.

[Post 3331]

Quirguistão, Quirguizistão, Quirguízia

Esqueceram-se, mudaram de opinião?...


      «A oposição da Quirguízia anunciou ontem ter tomado o poder após uma sangrenta rebelião que pode ter feito mais de cem mortos. Foi decretado o estado de emergência e o presidente Kurmanbek Bakiyev abandonou a capital, Bishkek, palco de violentos confrontos entre apoiantes da oposição e militares» («Revolta sangrenta», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 8.4.2010, p. 33). «A tomada do poder pela oposição no Quirguistão dividiu os presidentes americano e russo» («Acordo histórico selado em Praga», Sabrina Hassanali, Correio da Manhã, 9.4.2010, p. 33).
      Eu sei que se pode dizer Quirguistão, Quirguizistão ou Quirguízia, mas não se fala de vez em quando nos –stãos de que a Rússia se começou a apropriar no século XIX? A melhor variante, para mim, é a primeira, pela razão apontada e por ser mais curta do que a segunda. Contudo, não é a minha preferência que está em causa, mas a inconstância de uma jornalista e de um jornal. Da noite para o dia, abandonam a forma como se referem a um país. Há toda a vantagem em mantermo-nos fiéis a uma forma de dizer referir as coisas.

[Post 3330]

Como se escreve nos jornais

Chega


      Se o mundo fosse perfeito e houvesse regularidade na entrega das páginas para revisão, cada revisor teria cerca de 30 minutos para cada uma — o ideal, ou quase. Antigamente, em jornais como o Diário de Notícias, além de revisores, havia passadores, revisores de revisores, digamos. Em certos casos, bastava o jornalista ter despendido cinco minutos para que o texto ficasse legível. O revisor, se a publicação o tem, pode não ter tempo ou, no meio de tantos erros, deixar passar um erro ou uma maneira de dizer deselegante. Assim, um escreve sistematicamente, referindo-se a circunstâncias de tempo, «de lá para cá»; outro põe um jogador a dizer que quando for treinador não vai «relegar as origens»; este repete verbos na mesma construção, escrevendo, por exemplo, «e não deixou de lhes deixar outras recomendações»; aquele escreve que «o avançado não tem sido aposta firme mas tem sido chamado muitas vezes»; aqueloutro atrapalha-se com a dupla negativa e escreve que o «Fenómeno nega, também, que nunca fez pressão para marcar presença na lista final de Dunga»; este confunde «em contraste com» com «em contraponto a»; aqueloutro usa desnecessariamente um artigo definido, escrevendo que «as partes vão tentar chegar a um acordo quanto ao pagamento das obras do centro de estágio»; este diz que Ronaldo está «cansado sobre os comentários ao seu peso», etc. Basta, último dia.

[Post 3329]

O defunto verbo «pôr»

Jornalistas gozam connosco


      «Um vídeo colocado ontem no YouTube, em que alegadamente se relata uma situação ocorrida numa escola do Porto, mostra duas jovens a gozarem com uma professora enquanto aquela as coloca na rua» («Estudantes gozam com professora», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 6.4.2010, p. 52).
      O ridículo não acaba. Até já imagino a jornalista, furiosa, numa discussão: «Coloque-se já no olho da rua, seu desavergonhado! Não possui um pingo de vergonha!»

[Post 3328]

Ter e possuir

Proprietário de arranhões


      Passa pela cabeça de alguém substituir em todos os contextos o verbo ter pelo verbo possuir? Sim, pela cabeça de um jornalista: «Segundo fonte policial, saiu ao início da manhã, uma vez que apenas possuía “alguns arranhões na cara”» («Atacam polícia à pedrada antes de bater em agente», H. A., Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 14). Os revisores deixam estar, pois supõem que é indiferente.

[Post 3327]

«Terras de Sua Majestade»

Na jugular, é certeiro


      E outro jornalista escreveu que não sei quem se sentia «nervosa mas confiante, é assim que a espanhola se sente em terras de Sua Majestade». Mas este é mais um prosónimo, pelo que se grafará Terras de Sua Majestade. Podia, vamos lá ver, ter sido pior: podia ter escrito, como leio tantas vezes, *magestade. Ou tudo em minúsculas, como Fernanda Câncio se liberta da escrita disciplinada do Diário de Notícias. O sangue da jugular é a língua a esvair-se.

[Post 3326]

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