Pronúncia: «penhora»

Penhoras e GNR


      Nas notícias das 8 da manhã na Antena 1, Fausto Coutinho, editor de economia, falou das penhoras feitas este fim-de-semana pela Segurança Social, e pronunciou a palavra com o fechado: /penhôra/. Ora, os dicionários são unânimes na indicação daquele o como aberto. Não estará o jornalista a confundir o vocábulo com outro semelhante, penhor, esse sim com o o fechado, /penhôr/?
      Quase a propósito: não é raro a palavra composta comando-geral, quase sempre referida à GNR, ser incorrectamente grafada na imprensa. Mas nem sempre: «E tudo porque o comando-geral, para uniformizar critérios no regime de remunerações, atrasou o pagamento a estes militares para dois meses — como já acontece com os restantes 20 mil elementos da GNR» («Cinco mil GNR sem subsídio», Miguel Curado, Correio da Manhã, 5.3.2010, p. 13). Se o cargo máximo nesta força militarizada é um comandante-geral, comando-geral se há-de escrever.

[Post 3309]

AEP e não PSA


Falemos da próstata

          Se nos preocupamos, quem se preocupa, com siglas — já ninguém diz ou escreve AIDS —, porque continuamos a escrever PSA? Não deveríamos optar por escrever AEP? PSA é a sigla de prostata specific antigen, que se traduz por antigénio específico da próstata. A nossa sigla só pode ser AEP.

[Post 3308]

A martelo/mardeliano

Origens


      Há alguma semelhança entre o vinho a martelo e os telhados mardelianos? Há: na origem, está, em ambos os casos, um antropónimo. Quanto aos telhados mardelianos, de clara inspiração centro-europeia, devem-se ao arquitecto e engenheiro militar húngaro Martell Károly (1695–1763), que aportuguesou o nome para Carlos Mardel. Foi um dos principais arquitectos, sob a alçada de Eugénio dos Santos, da reconstrução capital depois do terramoto de 1755.
      Quanto ao vinho a martelo, foi Vasco d’Avillez que lembrou a origem da expressão na Notícias Magazine: «Ora quando a filoxera atacou as vinhas deixou de haver vinho, e o pouco que havia não era destilado. Mais tarde veio para a região um senhor francês, de nome Martell, para ajudar localmente ao recobro das vinhas. Tão bem se houve que por volta de 1910 já havia novamente vinho para beber e para destilar. Passou a haver vinho em abundância ou, como se dizia localmente, à la Martell. Daqui terá vindo uma expressão que felizmente hoje não precisa de ser usada, que é a do “vinho a martelo”» («Onde entra Martell...», Vasco d’Avillez, Notícias Magazine, 31.1.2010, p. 62). De uma maneira geral, os dicionários ignoram estas questões.

[Post 3307]

«Genital» substantivo?

Transexualidade e erro


      «A [revista] ‘Domingo’ entrou nas casas destas “transexuais não operadas” e ouviu as histórias que têm para contar sobre o negócio lucrativo da prostituição, as suas vidas antes e depois do início da alteração de sexo e sobre o que as fez manter o genital biológico quando tudo o resto é feminino» («Novo fenómeno da prostituição», Marta Martins Silva, Correio da Manhã, 27.3.2010, p. 23).
      Genital, como substantivo, só no plural (pluralia tantum), genitais: órgãos sexuais externos. Tanto femininos como masculinos.

[Post 3306]

Léxico: «píxide»

País de católicos


      «Em Fátima, os 300 padres que vão distribuir a comunhão segurarão as píxides (cada uma com cerca de 300 partículas) no momento da consagração, dando depois a comunhão aos fiéis. Em Lisboa e no Porto, as píxides, 250 em cada missa, serão colocadas em pequenos altares, onde os ministros da comunhão as irão buscar no momento próprio» («Papa vai consagrar 250 mil hóstias», Isabel Jordão e Secundino Cunha, Correio da Manhã, 27.3.2010, p. 20).
      Não é palavra que apareça na imprensa. E, num país de católicos, duvido que o falante comum saiba que é o nome que se dá ao vaso em que se guardam as hóstias ou partículas consagradas. Aliás, também duvido que o falante comum saiba do que se fala quando se usa a locução partícula consagrada.

[Post 3305]

Aparte/à parte

E o revisor?


      «“Os à partes foram premeditados. Sem ironia e sem ‘fair-play’ não se é um grande político.” Quem o diz é Fernando Costa, presidente da Câmara das Caldas da Rainha e o homem que incendiou o Congresso do PSD do último fim-de-semana, com duras críticas à direcção do partido» («“PSD tem tiques autoritários”», Janete Frazão, Correio da Manhã, 16.3.2010, p. 29).
      Confundir a locução adverbial, à parte, com o substantivo, aparte, se este estiver no singular, vá que não vá, mas, estando o último no plural, é inépcia chocante num jornalista. E o revisor, onde estava?

[Post 3304]

Léxico: «descoincidente»

Muito a melhorar


      «Da deliberação parlamentar, não vinculativa, não se segue qualquer efeito jurídico e, muito menos, qualquer efeito positivo especial no estrangeiro. As agências internacionais de rating, aliás com posições descoincidentes quanto à notação atribuída ao nosso país, não se comovem com estas fitas partidárias em São Bento» («Interesse nacional???», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 58).
      Fiquei surpreendido por ver que o Dicionário Houaiss não regista o vocábulo descoincidente. Como antónimo de coincidente,incoincidente. Aliás, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não o regista, mas, em compensação, regista descoincidência, o mesmo sucedendo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Os dicionários ainda têm muito a melhorar.

[Post 3303]

Viúvas-negras/viúvas negras

Ah, infelizes


      «As duas viúvas-negras que na segunda-feira se fizeram explodir na linha vermelha do metro de Moscovo, capital da Rússia, poderão fazer parte de um comando de 30 bombistas suicidas, da Chechénia e da Inguchétia, que foram recrutados por um dos líderes da guerrilha islâmica caucasiana recentemente morto pelos serviços secretos russos, Said Bouriatski, avançou ontem o jornal Kommersant» («28 suicidas do Cáucaso andarão à solta», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 30). E assim três vezes: viúvas-negras.
      As viúvas-alegres são aves, as viúvas-negras são aranhas. As viúvas alegres, viúvas que não demonstram luto pela morte do marido, são desconhecidas do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Viúvas negras era o que Patrícia Viegas queria escrever, nome por que são conhecidas as mulheres que eram casadas (ou da família) com homens mortos em operações das tropas russas.

[Post 3302]

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