Terras altas da meteorologia

Na Escócia ou aqui


      «Após uma breve trégua, o mau tempo volta a assolar Portugal Continental e a Madeira. O Instituto de Meteorologia (IM) emitiu avisos laranja, o segundo mais grave numa escala de quatro, para chuva e vento fortes no arquipélago, prevendo que ontem à noite e até ao final da manhã de hoje a velocidade do vento possa atingir 70 quilómetros/hora, com rajadas de 110 nas Terras Altas» («Chuva e vento forte chegam ao Continente», Isabel Ramos, Correio da Manhã, 5.3.2010, p. 17).
      Os jornalistas escrevem muitos disparates, é verdade, mas palpita-me que está aqui a mão de um revisor. Devem pensar que terras altas é um topónimo, coitados. As Highlands portuguesas.

[Post 3301]

«Compasso», uma acepção

Sr. engenheiro


      Por estes dias, ouve-se falar muito do compasso pascal, que é o regionalismo com que se designa a visita do pároco às casas da freguesia, quando vai receber o folar. Ainda hoje de manhã se falava disto na Praça da Alegria. Contudo, ainda ontem me falaram de outro compasso, e este não está nos dicionários. Dizia-me ontem um tio por afinidade que ia mandar plantar um pomar com as fruteiras (ele fala assim, como os engenheiros agrícolas) num compasso de 5 por 6. Hã?
      Como dizia Pedro Castro numa das emissões do concurso Falaescreveacertaganha, «há uma coisa que se chama tirar pelo sentido». Eu só conhecia, de mais semelhante, a locução a compasso, que significa «com intervalos iguais». Isto tinha de ter que ver com distância, pensei. E tem: compasso é o nome que, neste contexto, se dá à distância entre árvores.

[Post 3300]

Higienista oral

Dúvidas


      «Nicole Minetti é um dos rostos da vitória do centro-direita nas eleições regionais italianas. A jovem higienista, que tratou de Silvio Berlusconi quando este foi agredido em Milão, foi eleita para o conselho regional da Lombardia» («Higienista de Berlusconi eleita pela Lombardia», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 26).
      Não seria melhor escrever higienista oral, como escreveu Helena Tecedeiro numa notícia publicada no dia 21 de Fevereiro? Eu sei que os jornais italianos a dizem igienista dentale, mas o higienista oral não é o profissional de saúde cuja função primordial é a prevenção das doenças orais e a promoção da saúde oral, como leio no sítio do Instituto Superior de Saúde do Alto Ave? Que se pode prevenir depois de nos partirem os dentes? Novos maus encontros, talvez.

[Post 3299]

Correio de droga e mula

Curioso


      «Os 15,2 quilos de coca apreendidos dariam para 76 mil doses diárias» («Judiciária prende 23 ‘correios de droga’ em apenas um mês», S. S., Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 21).
      Regozijo-me que o Diário de Notícias grafe o vocábulo, redução, coca sem aspas. Não posso, contudo, deixar de achar que é tontice dizer que daria «para 76 mil doses diárias». Para quantas dariam depende, não? O Correio da Manhã portou-se melhor, pelo menos desta vez: «No espaço do último mês, a Judiciária apanhou, só no Aeroporto da Portela, Lisboa, 18 correios de droga oriundos da América do Sul com cocaína no organismo, num total de 15,2 kg — 76 mil doses individuais» («PJ caça 18 ‘mulas’ com 15,2 kg de ‘coca’ no organismo», 31.3.2010). Quando anteontem uma pessoa me leu esta notícia do CM numa aldeola na falda da serra da Estrela, só me lembrei de anotar mentalmente o uso do brasileirismo «mula». Sim, as aspas... Quase a propósito: só recentemente vi o vocábulo falda ser usado num contexto que nada tinha que ver com montanhas. «Após cerca de uma hora cheguei à falda de uma aldeia» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 249) Salvo melhor opinião, o Dicionário Houaiss não regista esta acepção de falda: orla; beira. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

[Post 3298]

Como se escreve nos jornais

Deixa-me rir


      «Cavaco Silva caiu nas más-graças do PSD de Passos Coelho» («Apoiantes de Passos abrem guerra a Cavaco por causa do PEC», Hugo Filipe Coelho, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 10).
      Que é isto? A expressão idiomática é cair nas boas graças de. As expressões idiomáticas têm antónimos? Por assim dizer: antepõe-se-lhes o advérbio de negação não: «Cavaco Silva não caiu nas boas graças do PSD de Passos Coelho.» Não sei como se inventa tanto e tão mal. E o hífen é a coroa de glória.

[Post 3297]

Plural de «pão-de-ló»

Tunos e pães-de-ló


      Na emissão de hoje da Praça da Alegria, Carlos Dias, magíster da Hinoportuna, tuna do Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC), disse que iriam pela cidade pedir «pãos-de-ló». Nota-se bem que preenche na perfeição o requisito de qualquer veterano: ter sido reprovado. Podia haver dúvidas por se tratar de um substantivo com uma preposição a ligar os componentes, mas, caramba, ninguém costuma errar no plural de pão.

[Post 3296]

Tera electrão-volt ou teraelectrão-volt?

Mais uma boa pergunta


      Ainda não temos motivos para celebrar com champanhe e com aplausos, como os físicos do CERN. Vejamos: «Todas as atenções convergem hoje para o CERN, o centro europeu de física nuclear, perto de Genebra, na fronteira franco-suíça, onde pela primeira vez vão ser feitas colisões de partículas a uma velocidade nunca antes atingida: 7 Tev (tera electrões-volt)» («CERN recria hoje o Big Bang», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.3.2010, p. 30). Isto foi anteontem. Ontem, a mesmíssima Filomena Naves já escreveu: «Foi com champanhe e aplausos que físicos e engenheiros saudaram ontem no CERN, centro europeu de investigação nuclear, em Genebra, as primeiras colisões entre protões lançados em direcções contrárias no acelerador LHC a uma velocidade próxima da luz. Passava pouco das 12.00 (em Portugal) quando isso aconteceu, depois de duas tentativas falhadas durante a manhã. Mas com essas primeiras colisões a uma energia de 7 TeV (teraelectrão-volt) nunca antes alcançada “fez-se história” e deu-se “início de uma nova era na física”, como disseram os entusiasmados físicos no CERN» («CERN recria Big Bang e abre nova era na física», Filomena Naves, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 32).
      Sem confundir os planos, porque quando estou doente também não vou ao veterinário, fui pesquisar como escrevem num blogue de cientistas, o De Rerum Natura. Um convidado, João Carvalho, do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP), publicou lá um texto em que grafou tera electrões-volt. Na imprensa, vê-se das duas formas — por vezes, como sucedeu com o Diário de Notícias, na mesma publicação. Parece-me que a grafia preponderante é, porém, esta última. Só uma pergunta: tera- não é um prefixo? Ora, nunca vi um prefixo a levitar por aí, solto de amarras. Um exemplo com um elemento de formação: «Nos testes efectuados pela TMN, incluindo transmissão de vídeo em alta definição ou acesso ao videoclube Meo, os débitos rondaram os 100 MBps (megabits por segundo)» («Está a chegar a quarta geração dos telemóveis», Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 31.3.2010, p. 54). Salvo melhor opinião, só pode grafar-se teraelectrão-volt.

[Post 3295]

Como se escreve nos jornais

Na era da comunicação


      «Aguiar da Beira, Macedo de Cavaleiros e Ourique tinham sido escolhidos para receber os “helis” mas o INEM garante que “os locais não estão ainda fechados”» («Faltam equipas para ‘heli’ do INEM», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 30.3.2010, p. 17). «A par do apoio diário aos helis (meteorologia, controlo do tráfego aéreo), também a investigação a acidentes com helis do Exército deverá ser feita pela Força Aérea, admitiram fontes do ramo ao DN» («Helicópteros para o Exército ‘impõem’ acordo com a Força Aérea», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 30.3.2010, p. 11).
       Heli e “heli” na mesma edição do jornal — têm de se entender, não acham? Já aqui vimos outras grafias.

[Post 3294]

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