Propriedade

À primeira vista


      «Mal fecharam as urnas, a televisão pública italiana RAI e a imprensa em geral avançaram com projecções, que se foram confirmando ao longo da tarde e segundo as quais a direita manteria os seus feudos do Norte — caso da Lombardia e do Veneto, aparentemente ganha pelo candidato da Liga Norte, Luca Zaia — e teria conquistado à esquerda quatro regiões. Duas no Sul: a Campânia e a Calábria» («Silvio Berlusconi ‘rouba’ quatro regiões à esquerda», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 30.3.2010, p. 24).
      Tenho dúvidas sobre a propriedade do advérbio «aparentemente». Nada, contudo, que se compare com este absurdo, tantas vezes lido e ouvido: «Afirma que acha a minha religião “positivamente bizarra” e está espantado por eu parecer aparentemente tão bem equilibrado com todos estes disparates na minha bagagem» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 42).

[Post 3293]

«Imprensa escrita»

E é mesmo


      Quando um leitor me exprobrou por eu ter usado num comentário a locução imprensa escrita, esqueceu-se de dar uma olhadela aos dicionários (ou a alguns) e de reflectir. Vejamos. Se a acepção mais corrente de imprensa é conjunto dos jornais e publicações afins, não nos podemos esquecemos de outra acepção, registada em alguns dicionários: os meios de comunicação social. «2009 foi um mau ano para a imprensa escrita» (Alexandre Elias, Diário de Notícias, 19.3.2010, p. 58).

[Post 3292]

Simpatizantes e partidários

Como é?


      «O violador de Telheiras, Henrique Sotero, vai hoje falar com o seu advogado sobre a alegada agressão de que foi vítima na cadeia da PJ e se o suposto agressor foi mesmo o simpatizante neonazi Mário Machado» («Advogado de nazi não acredita na agressão», Rute Coelho, 24 Horas, 22.3.2010, p. 13).
      No título, «nazi», no corpo da notícia, «simpatizante neonazi». Incongruências à parte, fará sentido escrever «simpatizante neonazi»? Vejamos: neonazi (ou neonazista, verbete para que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora remete) é o partidário do neonazismo. Simpatizante, por sua vez, é o apoiante de um partido, de um clube desportivo, etc. Mário Machado é neonazi ou simpatizante do neonazismo?

[Post 3291]

Elemento de composição «recém» (V)

De mal a pior


      «Um dos pontos altos da noite de sábado do Portugal Fashion foi o desfile de Ricardo Trêpa para a Dielmar. A sua recém-mulher, Cláudia Jacques, esteve na plateia e assistiu entusiasmada ao desfile do marido» («Trêpa casado e feliz», Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 47).
      Já o escrevi aqui por duas vezes: recém é um elemento de composição, forma apocopada do adjectivo «recente», que só se usa, por mais informal que seja a linguagem, com adjectivo: recém-casado, recém-nascido, recém-licenciado, recém-nomeado, etc. Com um substantivo, jamais. Se voltassem ao ensino primário, eram chumbados.

[Post 3290]

Sobre «okupa»

Vem de Espanha


      «Os okupas não tardaram em descobrir o novo refúgio, começando a pernoitar nos imóveis — propriedade privada — e nem o facto de a autarquia ter recentemente mandado emparedar os pisos térreos os impediu de treparem a parede de tijolo para aceder ao interior dos blocos» («‘Okupas’ transformam bairro de sonho em pesadelo», Roberto Dores, Diário de Notícias, 24.3.2010, p. 24).
      O movimento e a palavra, que tiveram o seu auge na década de 1980, quando ainda nem sequer existia uma norma legal que proibisse a ocupação de imóveis e terrenos vagos, vieram de Espanha. Deriva da palavra espanhola ocupación. A letra k servirá para marcar a diferença. Tem equivalente no inglês squat. Os squatters são os ocupantes de casas, os okupas.

[Post 3289]

Léxico: «corta-vento» II

Está aqui


      De vez em quando, é conveniente revisitar textos antigos e descortinar qualquer evolução. Em relação a corta-vento, por exemplo, alguma coisa mudou: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passou entretanto a registá-lo: «blusão fabricado com tecido ou material resistente à chuva e ao vento, usado sobretudo em desportos de montanha». Claro que me lêem. E agora só falta o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registá-lo. «Chumbaram uns calções por terem cordões na cintura e na bainha; duas blusas e uma camisola com fitas no pescoço, um corta-vento com cordão deslizante no capuz e um biquíni com várias fitas para atar» («Um em oito conjuntos para criança não cumpre regras», Céu Neves, Diário de Notícias, 24.3.2010, p. 17).

[Post 3288]

Verbo «dar»

«O verbo deiamos não foi encontrado.»


      Um leitor acaba de me escrever: «No programa Um Certo Olhar, da Antena 2, de hoje, comentava-se a eleição do novo presidente do PSD quando o professor, escritor, dramaturgo, crítico literário, comentador e não sei que mais Miguel Real disse: “Pronto, deiamos oportunidade.”»
      Na Beira Interior é que se conjuga comummente desta forma o verbo dar. Mas Luís Martins, pseudónimo de Miguel Real, é lisboeta, segundo umas fontes, ou sintrense, segundo outras. Pode ser as duas coisas, exactamente: natural de Lisboa e residente em Sintra. Mas quanto ao verbo: Dê/dês/dê/dêmos/deis/dêem.

[Post 3287]

«Replicar», anglicismo

Replico, refuto, contesto


      «A nova ferramenta deverá estar a funcionar na região de Lisboa e Vale do Tejo até ao final do ano, mas poderá estender-se ao resto do País. Segundo a mesma fonte, houve médicos de saúde pública de várias regiões que já demonstraram vontade de replicar o projecto e deverão fazer as propostas às respectivas Administrações Regionais de Saúde» («Intoxicações alimentares vão ser registadas nos hospitais», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 17).
      Poucos dicionários acolhem a acepção do verbo replicar usada no artigo. E a explicação é simples: nesta acepção é anglicismo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não a regista. Dos que a registam, prefiro a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Repetir ou repetir-se por reprodução ou multiplicação. = REPRODUZIR.» Para concluir: a jornalista não devia ter usado o vocábulo.

[Post 3286]

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