Indicação das horas

Um nome trocado


      «Eu», escreveu Ferreira Fernandes na edição do dia 22 do Diário de Notícias, «se fosse o secretário de Estado, teria dito: “Senhor presidente, não me chamo João Trocado mas João Torcato da Mata. E, já agora, não sou secretário de Estado, sou ex-secretário de Estado porque não quero comprometer o Governo no que lhe vou dizer: não admito que me fale assim.”» («Há tons que só pedem isto: não!», p. 56).
      Bem, por vezes os jornalistas têm acesso a informação a que o comum cidadão não chega. Não me parece ser este o caso. Em que dados se baseia Ferreira Fernandes para dizer que o secretário de Estado não se chama João Trocado mas João Torcato da Mata? Escrevi aqui no dia 23 sobre a questão. Fui agora ver de novo: é mesmo Trocado e não Torcato.
      Já agora, a propósito de tons: um leitor, talvez jornalista ressabiado, deixou-me um comentário ao texto «Pelo menos a esta hora» (sobre a dicionarização de rifte): «“10.17” é modo de escrever as horas?» Se se for jornalista do Público, não é, pois até o Livro de Estilo desse jornal recomenda: «Há uma norma para escrever as horas. Ex.:12h30 (e não 12.30h, nem 12.30, nem 12h30m, nem 12H30m).» Se se for jornalista do Diário de Notícias, já é. Três exemplos:

  1. «Na primeira vez, perto da 01.30 da madrugada, a PSP foi chamada ao bairro por moradores que reclamavam de desordens nas ruas e intenso ruído provocado por um grupo de perto de 30 jovens, alguns de bairros vizinhos» («Bombeiros querem protecção policial para ir a bairros de Loures», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 19).

  2. «Os incidentes aconteceram a partir das 16.15, quando chegou a claque portista, com adeptos no tejadilho dos autocarros» («A violência antecedeu o futebol», Carlos Nogueira, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 36).

  3. «É precisamente a banda sonora da saga Guerra das Estrelas, realizada por George Lucas, que virá hoje e amanhã ao Pavilhão Atlântico, em Lisboa, às 21.00, com a digressão Star Wars: in concert, pela mão da Royal Philarmonic [Concert] Orchestra (RPCO)» («A ‘Guerra das Estrelas’ em Lisboa», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 48).
[Post 3277]

Frase interrogativa

Discutam no fórum


      Ned dá as boas-vindas ao rei Robert Baratheon, senhor dos Sete Reinos: «— Confio que tenhais apreciado a viagem, Vossa Graça?» (A Guerra dos Tronos, George R. R. Martin. Tradução de Jorge Candeias e revisão de Idalina Morgado. Parede: Saída de Emergência, 3.ª ed., 2009, p. 43).
      Só me pergunto é porque é que aquela frase é interrogativa. Se o tradutor e a revisora também se interrogaram, não chegaram à conclusão a que eu cheguei. Não é a primeira vez que aqui denuncio este erro. Não é raro uma frase interrogativa em língua inglesa não poder ser do mesmo tipo (há quatro tipos: declarativa, interrogativa, imperativa e exclamativa) em português. Nem sequer interrogativa indirecta.

[Post 3276]

Léxico: «rifte»

Pelo menos a esta hora


      «A Grande Fenda Africana é um complexo de falhas tectónicas criado há cerca de 35 milhões de anos com a separação das placas tectónicas africana e arábica. Esta estrutura estende-se no sentido norte-sul por cerca de 5000 km, desde o norte da Síria até ao centro de Moçambique, com uma largura que varia entre 30 e 100 km. É o melhor exemplo de um rifte emerso» («Vai nascer um oceano em África», Mário Gil, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 25).
      Caro Fernando Venâncio: são 10.17 da manhã e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista este vocábulo, aportuguesamento do inglês rift.

[Post 3275]

Pronúncia: «Gibraltar»

Disparates aos pares


      A Antena 1 tem agora um programa chamado Portugueses no Mundo, de Ricardo Alexandre. Todos os dias é entrevistado, por telefone, um português que esteja a viajar ou a viver em qualquer parte do mundo. Na quinta-feira, tratava-se de um português, um construtor civil, a viver em Gibraltar. O jornalista pronunciou sempre a palavra como paroxítona; o construtor civil, sempre como oxítona. E oxítona ela é, como, por exemplo, Trafalgar. Seria mais natural o inverso: o construtor civil a demolir a ortoépia e o jornalista, homem da palavra, a erigi-la.
      Esperem! Ricardo Alexandre não disse «ilha» referindo-se a Gibraltar? Deve ter aprendido geografia nos comunicados da Lusa. Quase, quase... Quase-ilha: Gibraltar é uma península. Do latim paeninsula, que provém de paene, «quase», e insula, «ilha».

[Post 3274]

Ortografia: «afro-descendente»

Analogia


      «Os habitantes são de várias raças: os manabitas, vindos da província de Manabi, os afrodescendentes, os mestiços e os oriundos da serra», alguém escreveu. Faz lembrar a infeliz grafia *lusodescendente usada no Diário de Notícias. Rebelo Gonçalves, no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, recomendou o uso de hífen nos «compostos em que entram, morfologicamente individualizados e formando uma aderência de sentidos, um ou mais elementos de natureza adjectiva terminados em o e uma forma adjectiva». Exemplos? Físico-químico, póstero-palatal, trágico-marítimo, ântero-inferior; latino-cristão, grego-latino, afro-negro.

[Post 3273]

«Torção/torsão»

Torcer


      «Aproveito, já agora, para lhe pedir a opinião sobre o seguinte. É correcto grafar “torsão” ou terá de ser, sob pena de erro ortográfico, “torção”? Ou pode ser escrito das duas maneiras?»
      No âmbito da Matemática, basta pesquisar no Google para o comprovar, usa-se muito mais a grafia torsão do que torção. Todavia, só esta se encontra dicionarizada. Os dicionários dão como étimo de torção o vocábulo latino tortĭo,ōnis, pelo que nunca poderia ser grafado com s. Se supusermos que o étimo de torsão é o inglês torsion, então já estará correcto, pois este vem do latim tardio torsio, alteração de tortĭo,ōnis.

[Post 3272]

Superior/superiora

O mundo é dos homens?


      «Pouco depois desta descida pelo rio Cayapas e primeiro contacto com esta etnia negra do Equador, as minhas superiores enviaram-me para Muisne, uma ilha no oceano Pacífico», escreveu a missionária. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, superiora é a religiosa que dirige um convento; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, é a religiosa que governa uma comunidade ou instituto de mulheres; prioresa; abadessa. Para o Dicionário Houaiss, é a religiosa que dirige um convento ou mosteiro; abadessa; priora. (Sim, priora ou prioresa é o mesmo.) Julgo que a melhor definição é a do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e, por isso, creio que a missionária deveria ter escrito «as minhas superioras».

[Post 3271]

Léxico: «miau-miau»

Agora com fertilizante


      «É que esta droga, conhecida como “miau-miau”, entre outros nomes, é um fertilizante de plantas, pelo que não é uma substância ilegal e pode ser adquirida com grande facilidade através da Internet. Esta facilidade de comprar e o preço (uma grama ronda os onze euros) são algumas das principais preocupações» («Autoridades em alerta com nova droga», Elisabete Silva, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 14).
      Talvez 605 Forte fosse mais eficaz... e ainda estaríamos na mesma área: fertilizantes, pesticidas. O artigo menciona os outros nomes por que é conhecida esta nova droga: M-Cat, MC, 4MMC.
      E é claro que grama, na acepção usada, é do género masculino. A jornalista lembrou-se da erva rasteira, rizomatosa, prejudicial às culturas, pertencente à família das Gramíneas, espontânea em Portugal, e também conhecida por gramão, porque o miau-miau é um fertilizante...

[Post 3270]

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