«Executar», uma acepção

De evitar


      «Ainda para mais, tem chovido na região, o que facilita o desaparecimento de quaisquer vestígios deixados pelos dois criminosos de rosto coberto que executaram o agricultor de Ponte de Sor com dois tiros quando este entrou em casa acompanhado da namorada, Ana Maria Brito, 22 anos, que nada sofreu» («Perícias atrasam investigação», Domingos Grilo Serrinha, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 15).
      Nem todos os dicionários registam esta acepção informal (tirar a vida a alguém; matar; assassinar) do verbo executar, motivo mais do que suficiente para o jornalista não o ter usado. Só por curiosidade, consultei o Grande Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nada. Executar é somente, na acepção mais próxima, aplicar a pena de morte.

[Post 3261]

De torque a Trocado

Correio da Manhã trocado


      «O debate sobre o Estatuto do aluno ficou ainda marcado pela intervenção do secretário de Estado da Educação, João Torcato da Mata, que se dirigiu à Assembleia sem usar a fórmula regimental» («Lello censura fotos no Parlamento», Teresa Oliveira, Correio da Manhã, 20.3.2010, p. 31).
      Uma humilhação. Com um nome assim mais invulgar, convinha perder cinco minutos e verificá-lo. Bastava ir ao portal do Governo. está: o secretário de Estado da Educação chama-se João José Trocado da Mata. Neste caso pelo menos, está tudo ligado: Torquato, Torcato e Trocado. Torquato ou torcato era o nome que os Romanos davam ao soldado que, pelos seus feitos bélicos assinaláveis, tinha sido agraciado com o torque. (E agora vejo: nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que vergonha, registam o vocábulo.) O torque é um bracelete, corrente ou colar de metal usado pelos antigos Gregos, Romanos, Gauleses, Persas, Bretões, entre outros povos. Trocado, finalmente, deriva, por via popular, daqueles. Lembro-me de uma vez ter lido numa obra (qual?) de Álvaro Carmo Vaz que, num piquenique em Coimbra com ex-condiscípulos e respectivas famílias, a mulher de um deles chamou o marido assim: «Tor-qu-a-to!»

[Post 3260]

Ortografia: «parassónia»

Não percebo


      «Carlos, nome fictício, agrediu a mulher enquanto dormia. Estava a sonhar que alguém a atacava e ele era o salvador. Um outro homem caiu de um quinto andar porque abriu a janela quando estava a dormir. A parassónia é um distúrbio do sono» («Quando o sonho se torna realidade», Ana Maia, 24 Horas, 20.3.2010, p. 58).
      Os dicionários gerais não registam o vocábulo. Só o Dicionário de Termos Médicos, de Manuel Freitas e Costa, da Porto Editora, regista o termo — mas com a grafia parassómnia. Contudo, nas faculdades de Medicina e nos jornais usa-se a grafia parassónia, que reputo mais correcta. Ora, se escrevemos insónia e não insómnia, porque havemos de escrever parassómnia em vez de parassónia?

[Post 3259]

Léxico: «estrangeirinha»

Ficam algumas

      «Não é só no reino animal que a fronteira entre a vida e a morte pode ser assim tão lenta e porosa. No final do séc. XVI, no triste e breve reinado de D. Sebastião, o Império Português já estava morto, mas os seus inimigos ainda não tinham reparado e receavam-no ao ponto de lhe terem oferecido Larache (a praça que ele queria conquistar quando foi travado em Alcácer Quibir). O palerma não quis, achou que oferecida não tinha piada nenhum, e armou a estrangeirinha que se conhece» («O PSD e o caso da galinha decapitada», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 18.3.2010, p. 7).
      Paula Moura Pinheiro diria que é refrescante. Também o digo: é refrescante, nestes tempos de discurso vigiado, ler vocábulos como este, estrangeirinha, expressão de toda a difidência pelo que é estranho, estrangeiro. É isso mesmo, arguto leitor: os vocábulos estranho e estrangeiro têm o mesmo étimo latino: extranĕus,a,um, «que é de fora». Não, calma!, que acolha na minha alma qualquer sentimento xenófobo (mas não contem que vos revele a minha vida), mas porque não devemos descartar vocábulos só por causa dessas remotas associações. Ah, sim: estrangeirinha é a artimanha para enganar alguém, a falcatrua, mesmo a velhacaria. Eu nunca aqui referi alguns dos substantivos ligados ao engano? Devia tê-lo feito, mencionando termos como aldrabice, alicantina, ardil, artimanha, baldoméria, cambalacho, cambão, cilada, codilho, combine (que li pela primeira vez em 1983 numa obra de Jorge de Sena), comedela, conchavo, conluio, embuste, engrimança, escatima, falcatrua, galazia, garatusa, guilha, magicatura, marosca, moscambilha (que li pela primeira vez numa crónica de Miguel Esteves Cardoso), rusto (um brasileirismo para homenagear os meus leitores brasileiros), sofisma, tramóia, trica e muitas, muitas outras. Mas não tive tempo, nem o tenho agora.

[Post 3258]

Léxico: «nomofobia»

Venha de lá


      Não digo que o seja já, mas dentro de pouco o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa será o equivalente do Aulete Digital: o maior repositório lexical da língua portuguesa. Hoje, por mero acaso, vi que a palavra do dia deste dicionário é nomofobia. A palavra já corre por aí, em blogues, jornais e revistas. Em Janeiro, um artigo do Diário de Notícias debruçava-se sobre esta (com sua licença, caro Franco e Silva) quase-fobia. Nomofobia: Medo causado pela possibilidade de ficar sem contacto através do telemóvel. Do inglês nomophobia, de no mo[bile], sem telemóvel + phobia, fobia, regista o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.

[Post 3257]

Léxico: «demótico»

Também aceitamos


      «O Uruguai, a minha terra nativa, surge na minha mente de forma tão fugaz quanto o espanhol demótico que falei outrora, de forma inconsciente» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 13).
      Só o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que regista a acepção de demótico usada no texto: «popular». Entre as três acepções registas pelo Dicionário Houaiss não se encontra esta, que constitui uma extensão de sentido. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

[Post 3257]

Léxico: «cepe»

Aceitamos


      «Apanhámos uma bela cesta de cepes e de cantarelos. Esta noite, vou quebrar os meus hábitos e fazer uma omeleta de cogumelos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 426).
      Nenhum dicionário da língua portuguesa regista cepe. Temos cepeiras — mas dão uvas. Estes foram apanhados por Logan Gonzago Mountstuart e Lucien Gorce nos bosques da comuna de Sainte-Sabine, na Borgonha, e aí está a pista: é o aportuguesamento da palavra francesa cèpe (por sua vez proveniente do gascão cep, e este do latim cippus). O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista como tradução de cèpe «boleto», mas boleto (e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção do vocábulo) tanto pode designar cogumelos comestíveis como altamente venenosos — e os cèpes são comestíveis.

[Post 3256]

Léxico: «flósculo»

Aqui não há erros


      «Guardo a imagem de um rio largo e castanho com árvores aglomeradas na margem mais distante, tão densas como flósculos de brócolos» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 13).
      O étimo do vocábulo flósculo significa «florzinha». A comparação é original: compara-se a vegetação da costa com os pequenos botões florais, os flósculos, muito próximos dos brócolos.

[Post 3255]

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