Tradução: «capacity»

É da casa


      «Foi assim que no Verão de 1977, surpreendentemente, viajei muito (de autocarro) pelas Ilhas Britânicas na minha capacidade de membro do Círculo de Trabalho — Acção de Trabalho do SPK» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 401).
      O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora até regista «in his capacity as prime minister na sua qualidade de primeiro-ministro», mas alguns tradutores, seguríssimos de si, não consultam dicionários.
      Ontem, um leitor chamou-me a atenção para o título que a obra The God Delusion, de Richard Dawkins, teve na tradução portuguesa (também da Casa das Letras): A Desilusão de Deus. Distracção das tradutoras ou imposição da editora?

[Post 3254]

Aportuguesamentos

Falta de memória


      «Em Battersea, encontrei a cratera feita pelo V-2. O final de uma fila de casas geminadas desaparecido, uma vedação de tábuas à volta do enorme buraco. Deve ter sido súbito. O foguete a cair silenciosamente do céu enquanto as duas caminhavam, de mãos dadas, em direcção a casa, vindas da escola. Apenas o flache, o barulho e depois o oblívio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 271).
      Ferreira Fernando tinha razão, e eu reconheci-o na altura: V-2 é do género feminino. Vergeltungswaffe 2 (arma de retaliação 2). O aportuguesamento de flash é assustador — pelo menos até nos habituarmos. Flache. Há propostas do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa que só tiveram eco em meia dúzia de pessoas. Parece-me ser o caso de flache. Mas é de saudar. Quanto ao uso de palavras aportuguesadas nesta obra, é, não apenas abundante, mas incongruente. Se se lê sempre uísque (e há editoras, já aqui o escrevi uma vez, que distribuem a revisores e tradutores algumas regras, e entre elas a proibição de usar o vocábulo «uísque») e coquetel, ora se lê Cornwall ora Cornualha. Se se lê Reiquiavique, também se lê Bahamas. Se se lê búnquer, também se pode ler bunker. Se... Depois de se ter tomado a decisão de escrever búnquer (na página 276), como é que menos de vinte páginas à frente (na página 293) se escreve, e com referência ao mesmo espaço, bunker? Não compreendo.
      Quanto a fila de casas geminadas,aqui vimos que não é a melhor tradução. E também já falámos de oblívio.

[Post 3253]

«Dormir sobre os louros»

Ó Títiro!


      «— Em breve estaremos no continente europeu — disse. — Não podemos simplesmente dormir sobre os nossos louros» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 240).
      Pois é, mas vê-se também: dormir sob os louros e dormir à sombra dos louros. Esta acepção de louro deriva por metonímia do sentido original. Refere-se, como se sabe, às glórias, aos triunfos alcançados, lembra o Dicionário Houaiss, especialmente nas armas e/ou nas artes. Infelizmente, este dicionário não regista a frase feita (ao contrário, por exemplo, do Michaelis, que regista a última variante). Dormir à sombra dos louros pode ter sofrido contaminação de uma frase feita com um sentido aproximado: dormir à sombra da bananeira. E como à sombra é, parcialmente, sinónimo de sob (Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi), passou a dormir sob os louros. Em francês diz-se s’endormir sur ses lauriers¸ e em espanhol, dormirse sobre (ou en los) laureles.

[Post 3252]

Léxico: «mógono»

Nem parece


      «É este o nome pelo qual é conhecido o recinto à sombra do mógano plurissecular rodeado de mangueiras carregadas de frutos», lia-se no texto. Está bem: corrige-se o erro e ainda assim nem todos sabem do que se trata. Mógono. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não deixa de o registar, ao contrário do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Vendo bem, até podia ter sido aportuguesado em mógano, já que vem do inglês mahogany. Isso mesmo: mogno. Uma das melhores madeiras, diz-se, para a construção de guitarras.

[Post 3251]

Parónimos

Imperdoável


      Ontem, numa mensagem de correio electrónico, um engenheiro pedia-me «descrição» em relação a uns documentos que me enviou. Enfim, algo me levou a desculpar o erro. O pior é livros, com revisão (por assim dizer...), apresentarem o mesmo erro: «Esta noite, fui a um coquetel na embaixada e conheci um homem chamado Eccles que parece ser aqui uma espécie de iminência parda — muito dentro dos assuntos; altamente céptico em relação às capacidades do pessoal da embaixada» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 206). Está a par de almas pardas.

[Post 3250]

Encadeamentos ocasionais

Que alguém saiba


      «Depois tenciono fazer Bordéus — Toulouse — Perpignan, atravessar a fronteira em Port Bou e daí descer a costa para Barcelona — Valência — Granada — Sevilha» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 150).
      Espera-se sempre que, não conhecendo o tradutor a língua portuguesa (e alguns estão tão longe da língua viva como nós da China), pelo menos o revisor domine o código de escrita. Em alguns casos, é esperar demasiado. Estatui a Base XXXII do Acordo Ortográfico de 1945: «Emprego do hífen em combinações ocasionais de formas diversas que não constituem propriamente palavras, mas encadeamentos vocabulares. (Exemplos: a estrada Rio de Janeiro-Petrópolis; o desafio de xadrez Portugal-França, etc.)»

[Post 3249]

Avanços e adiantamentos

A bem do leitor


      «Quando Wallace e eu nos encontramos no pátio do Savoy, o fumo dos nossos charutos espesso como ectoplasma ao sol primaveril, Wallace diz que está ansioso pelas negociações: pretende estabelecer um novo padrão de referência para o adiantamento pago por um livro de crítica literária» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 138).
      No meio editorial, não se fala em adiantamento, mas em avanço. Contudo, não propugno o seu uso numa obra literária. Um dia, fiz esta emenda, tendo-se seguido um debate com o editor, cioso do seu jargão. O meu objectivo é sempre que o leitor compreenda sem esforço — sem ter de recorrer a um dicionário, que pode nem sequer registar a acepção.

[Post 3248]

Submirjo ou submerjo?

O erro do tabelião grogue


      «Descubro o meu fundão, submirjo a minha garrafa de cerveja num remoinho à beira de água e pesco durante uma hora, apanhando três pequenas trutas, que devolvo ao rio» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 125).
      Algumas gramáticas e dicionários de verbos consideram submergir regular e conjugável com -e- no radical da primeira pessoa do presente do indicativo e em todo o presente do conjuntivo, e eu também. Esta forma bastarda, submirjo, deve ter sido lapso de algum tabelião mais conspícuo mas já com os copos. Eu próprio estou a beber — numa caneca, não gosto de muitos calicezinhos — uma reserva Dona Antónia (uma velhota tesa, e a cupidez do barão de Forrester, com a faixa panda de moedas de ouro, é que o afogou), e os efeitos, conspícuos ou não, nunca deixam de se fazer sentir.

[Post 3247]

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