Léxico: «processionária»

Em fila indiana?


      «A delegada de saúde de Cascais, Ana Paula Magalhães, também acompanhou o problema. “Esses casos são raros, e não são só as crianças que sofrem reacções alérgicas à processionária [lagarta do pinheiro]. Há três anos houve uma situação numa escola que afectou professores e funcionários.”» («Alergia à lagarta alarma Cascais», Cristina Serra, Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 18).
      Alguns dicionários registam o termo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo: «nome vulgar extensivo aos insectos lepidópteros da família dos Notodontídeos, cujas lagartas se deslocam em fila indiana, entre as quais se incluem as que causam grandes prejuízos nos pinhais». Que se deslocam como numa procissão, deveria estar escrito para se perceber cabalmente a etimologia. Faz bem em perguntar, caro leitor: se deriva de «procissão», talvez se devesse escrever «procissionária». Foi, acho eu, o que também pensou a jornalista do Correio da Manhã, que também escreveu, em relação aos sintomas: «A procissionária, nome devido à descida no tronco em procissão, causa irritações na pele, olhos e aparelho respiratório.» Não podia era deixar as duas formas, uma delas errada, no artigo. A grafia correcta é processionária, porque o étimo é de facto «procissão», mas sob a forma radical procession-, como outros vocábulos da língua portuguesa, como processionário e processional. (Em relação à etimologia de procissão, o Dicionário Houaiss regista: «latim lusitânico *procissĭo,ōnis, idem, derivado do latim processĭo,ōnis».)

[Post 3238]

Aportuguesamento: «Vietcongue»

Naturalmente


      «Gostaria de saber a sua opinião», escreve-me um leitor, «sobre se é aceitável aportuguesar Vietcong para Vietcongue e, em caso afirmativo, declinar o número. Já agora, se sim ou não, quando se trata de referir o movimento, se deve usar maiúscula.»
      Aceitável e recomendável. Assim, Vietcongue, Vietcongues, vietcongue. E é mesmo a prática de alguns jornais, nas raras ocorrências do vocábulo, como o Diário de Notícias e o Público. Numa edição da revista Paralelo (n.º 2, Primavera-Verão, 2008, p. 27), da FLAD, lê-se num artigo («Obama combate Hillary com tesouraria virtual») assinado pelo jornalista Filipe Vieira: «Prisioneiro de guerra no Vietname, aquele senador [John McCain] esteve cinco anos detido na famigerada prisão vietcongue ironicamente conhecida como “Saigon Hilton”, onde lhe partiram os dois braços, de tal forma que ainda hoje não os consegue sequer levantar para se pentear.» Usa-se para designar o movimento e os elementos da autodenominada Frente Nacional para a Libertação do Vietname do Sul. O termo, que significa «comunista vietnamita», era considerado pejorativo pelos visados, que afirmavam ter entre eles guerrilheiros não comunistas.

[Post 3237]

Verbo «colocar»

De quem não ama a língua


      «Portugal espera convencer os países participantes na 15.ª Conferência sobre o Comércio Internacional de Espécies (CITES), que começa hoje no Qatar, de que pesca artesanalmente o atum rabilho e que, por isso, não coloca a espécie em risco. De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade [ICNB], a CITES é “um acordo internacional ao qual os países aderem voluntariamente”» («País garante sobrevivência do atum rabilho», Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 19).
      Por onde começamos? Pelo título. Tendencialmente, a imprensa vai adoptando o hífen para ligar os nomes compostos que designam espécies botânicas e zoológicas, alteração que já aqui saudei. Sobre este mesmo assunto, o Diário de Notícias, por exemplo, grafa atum-rabilho (e até diz que também é conhecido por atum-vermelho). Também no sítio do Oceanário surge com hífen. Mas não era disto, juro, que queria falar, antes denunciar, mais uma vez, o uso do verbo colocar. Jornalistas e revisores estão apostados em descaracterizar a língua.

[Post 3236]

Léxico: «calduço»

Mais uma lacuna


      «Luís Vaz Carmo sentia-se humilhado e arrasado por os alunos chegarem ao ponto de lhe baterem com a mão (calduços) na careca e lhe chamarem ‘cão’» («Directora escondeu carta a professores», João Saramago, Correio da Manhã, 13.3.2010, p. 5).
      Por onde começamos? Pelo título. O verbo esconder, como transitivo relativo, é regido pela preposição de, ou não? «Directora escondeu carta dos professores.» Mas não era disto, juro, que queria falar, mas sim do vocábulo calduço. Não está, como tantos outros, registado em nenhum dicionário — e todos os dias se dão e se recebem calduços.

[Post 3235]

Tradução: «old town»

Mais letra grelada


      «A Cidade Velha sempre foi a minha preferida», lia-se na tradução. E assim quatro vezes, a pretender traduzir old town. Sugeri que se alterasse. O tradutor mandou dizer que pensara nisso, mas depois considerou que os centros históricos estão preservados e a zona referida na obra estava toda em ruínas e cheia de lixo, e que julgava que se fala em centro histórico noutra situação. Com maiúsculas iniciais, nunca vi a locução usada senão para se referir ao bairro mais antigo de Belém do Pará, no Brasil. Com minúsculas, cidade velha, refere-se quase sempre à parte de uma cidade marroquina ou habitada por mouros construída em volta de um castelo. É o mesmo que medina (que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista!) ou almedina.
      Mas quem diz centro histórico também diz zona velha, zona histórica ou usa mesmo o espanholismo casco velho. E o conceito de centro histórico integra os elementos que o tradutor invocou? Mais ou menos: «parte de uma localidade ou cidade, que se caracteriza essencialmente pela remanescência de construções, edificações históricas mais ou menos conservadas, geralmente ligadas a sua fundação, e a partir da qual se irradia o desenvolvimento urbanístico desta localidade ou cidade; núcleo histórico», regista o Dicionário Houaiss no verbete «centro histórico». Mais ou menos: «Uma estimativa aponta para a existência de duas centenas de casas velhas, algumas em risco de derrocada, no centro histórico de Viseu» («Casas velhas em risco de ruir no centro histórico», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 22).

[Post 3234]

Nova terminologia

Questões unionitárias


      O mundo anda muito depressa. Ainda nem todos os dicionários registam o adjectivo comunitário na acepção de «relativo à Comunidade Europeia» e já é preciso encontrar um que se refira à União Europeia. (O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «comunitário» como «relativo à União Europeia» — mas isso é só uma forma muito imprópria de falar ou futurologia.) O Tratado de Lisboa, ao modificar o Tratado da União Europeia e o Tratado Constitutivo da Comunidade Europeia, trouxe algumas alterações terminológicas. Uma delas, a única que para aqui nos interessa, é a substituição do adjectivo comunitário (e a flexão dele: comunitária, comunitários, comunitárias) por «da União». Apenas permanece a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom) e o seu tratado constitutivo, pelo que, doravante, em rigor, comunitário refere-se somente a esta comunidade. O problema, como afirma Alberto Rivas Yanes («La Unión Europea busca su adjectivo: Estado de la cuestión y propuesta», in Puntycoma, n.º 116, p. 7 e ss.), é que «da União» não vai cobrir todos os usos do adjectivo «comunitário».
      Há vários caminhos, descortina Alberto Rivas Yanes: 1) atribuir a nova acepção a um adjectivo já existente, e o autor refere apenas dois, que também existem na língua portuguesa: unionense e unionista; 2) criar um neologismo a partir da raiz de «união», e aponta (mantenho as designações em espanhol) «unionario», «unional», «unionés», «uniónico», «unionano», «unionero», «unioní» ou «unioneño». Há quem já tenha sugerido, acrescenta, «unitário» (derivado de «unidade» e não de «união) e a original criação «unionitário», que integra um infixo, it, como um eco de «comunitário»; 3) recorrer a formas neológicas criadas com as raízes de «europeu» no início do vocábulo e «união» ou «unidade» no fim: «eur[o]unionário», «eur[o]unionista», «eur[o]unidense», «eur[o]unitário» ou «eunitário»; 4) combinar raízes de «união» e de «europeu» pela ordem em que figura na locução União Europeia: «unieuropeu», «unioeuropeu» ou «unieuropeísta», ou uma variante, que seria usar a sigla UE como elemento compositivo: «ueuropeu». E um último caminho, o primeiro apontado por Alberto Rivas Yanes: manter tudo igual, sem um adjectivo específico, e consolidar, em contextos informais ou jornalísticos, o uso do adjectivo «europeu» com o significado de «relativo à União Europeia». Este é o caminho mais fácil e conservador, digamos, pois semelhantemente o adjectivo americano não se refere apenas à América, mas também aos Estados Unidos da América.

[Post 3233]

Islão/islão

Respeitem as suas próprias regras


      «O xeque Tantawi não era apenas a figura tutelar da maior e mais antiga escola islâmica em todo o mundo, mas também um dos religiosos mais influentes do islão. Foi grande mufti do Cairo e era responsável máximo pela Mesquita Al-Azhar, na capital egípcia, que gere uma universidade com mais de mil anos» («Voz moderada do islão sunita evitou a radicalização egípcia», Diário de Notícias, 11.3.2010, p. 45).
      Apesar, como já aqui vimos, de uma prática diversa, a verdade é que os dicionários e as gramáticas registam os nomes das religiões com inicial minúscula, e assim também islão. Contudo, há quem grafe com maiúscula inicial quando a acepção é a de conjunto dos países muçulmanos. Umas linhas à frente, lê-se no artigo acima citado: «Num contexto em que a religião tem enorme importância, o xeque Tantawi representava a corrente do Islão político que procurava uma acomodação com o poder secular.» A prática, afirmei, é diversa — mas não deve ser arbitrária. No caso, a minha interpretação, se também seguisse a distinção que explanei, seria precisamente ao contrário: a primeira ocorrência grafá-la-ia com inicial maiúscula e a segunda, com minúscula. Gostava de saber o que pensam os meus leitores sobre esta questão.

[Post 3232]

Léxico: «entalpia»

Calores


      «Energia geotérmica é a energia disponível como calor emitido do interior da crosta terrestre, geralmente sob a forma de água quente ou de vapor. A geotermia de alta entalpia é normalmente utilizada para a produção de electricidade e a de baixa entalpia apenas para a produção de calor», acabei de ler. Cá está, pelo menos para mim, um termo novo: entalpia. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apresenta o respectivo verbete com três acepções: no âmbito da Física e da Química, características de um sistema termodinâmico que é a soma da energia interna e do produto da pressão pelo volume; conteúdo calorífico e calor total. O Dicionário Houaiss só apresenta uma acepção, mas, em compensação, regista locuções: entalpia de fusão, entalpia de sublimação, entalpia de vaporização e entalpia livre. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa diz que é «palavra reconhecida pelo FLiP mas sem definição no dicionário». O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado também não regista o vocábulo.

[Post 3231]

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