Como se escreve nos jornais

Tomem sentido


      Enquanto os apicultores fazem a língua, os jornalistas desfazem-na: «O Marítimo teve o jogo nas mãos, mas a equipa de Domingos Paciência somou mais três pontos e voltou a colocar o Benfica em sentido» («Vitória do Sporting de Braga com um golo que vai dar que falar», Luís Octávio Costa, Público, 15.2.2010, p. 24).

[Post 3141]

Léxico: «melário»



Menos uma


      Na Praça da Alegria, na RTP 1, esteve hoje representada a Associação dos Apicultores de Terras do Antuã. Entre os vários objectos e produtos que levaram, estavam várias colmeias, em corte e inteiras — e melários, os quadros onde as abelhas depositam o mel. E que dicionário regista o vocábulo? Nenhum.

[Post 3140]

Definição de «batata»

No entanto...


      «“Vocês sabem o que é isto?”, pergunta Jamie aos alunos de Huntington sentados no refeitório, apontando para um cacho de tomates vermelhos. “São batatas!”, respondem as crianças em uníssono. Mas não são só as crianças que desconhecem os ingredientes daquilo que comem. A responsável da escola desmentiu que os alunos não tivessem acesso a vegetais, alegando que estes comiam batatas todos os dias. Fritas, claro» («Jamie Oliver quer levar a revolução aos Estados Unidos», Rita Siza, Público, 14.2.2010, p. 17).
      Decerto que batatas não são pedras, mas quando se fala de vegetais, verdura ou hortaliça, não me vem à mente batata. Nem frita nem cozida nem crua.

[Post 3139]

«Caderno de encargos»

Chega


      «Todos reconhecem, no entanto, que o caderno de encargos de Michelle Obama é difícil de cumprir: a alimentação “saudável” é mais cara do que o fast food e legumes ou fruta fresca são simplesmente inacessíveis para uma parcela da população» («Michelle Obama pretende acabar com obesidade infantil numa geração», Rita Siza, Público, 14.2.2010, p. 16).
      Ultimamente, parece que alguns jornalistas ingurgitaram um engenheiro civil. Que palermice é esta agora do «caderno de encargos»? Não há outras formas, mais claras, adequadas e bonitas, de dizer o mesmo? Vá lá, esforcem-se um pouco, andamos há muitos anos a pagar.

[Post 3138]

Sigla e acrónimo

Público e notório


      «TALGO são as siglas de Tren Articulado Ligero Goicoechea Orial. Goicoechea foi o engenheiro que nos anos 40 do século passado inventou este comboio articulado, onde as carruagens não assentam directamente nos rodados, e Orial o sócio capitalista que com ele formou uma sociedade» («Centenário Sud Expresso vai ser um moderno comboio-hotel a partir de 1 de Março», Carlos Cipriano, Público, 14.2.2010, p. 10).
      Dois reparos: mesmo que TALGO fosse uma sigla, que não é, porquê o plural? Então sigla não é o nome que se dá à sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de palavras que constituem uma expressão? Por coincidência, ainda ontem revi um texto em que o jornalista afirmava que «o Exército de Resistência do Senhor (LRA, nas siglas inglesas) sequestrou desde os inícios da década de 1990 pelo menos quarenta mil menores para os obrigar a combater nas suas fileiras». Quais siglas? Só vejo uma! Mas sigla, sim, ao contrário de TALGO, que é um acrónimo, isto é, uma sequência formada pelas letras ou sílabas iniciais de várias outras palavras e que não se pronuncia letra a letra, mas sim como uma palavra corrente. Tanto é assim que se vê comummente Talgo e não TALGO.

[Post 3137]

Sobre «víquingue»

Porcos e putativos


      «O acrónimo PIGS é um insulto inaceitável (mas que faz pena) por parte dos bárbaros viquinques [sic] do Norte sobre os pachorrentos bons vivants do Sul» («Há-de ir para os porcos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 13.02.2010, p. 39).
      Alguns ignorantes pensarão que a Miguel Esteves Cardoso tudo fica bem. Só ele poderá usar, sem nos rirmos por isso, a palavra «viquingue». No meu caso, sempre embirrei com a palavra «viking». Ao menos os Espanhóis, a quem me habituei, desde tenra idade (eu era para ter nascido espanhol) a ouvir, dizem vikingo. No Ciberdúvidas (raios os partam) só se lembraram de dizer, mas isso, é verdade, já foi há dez anos, que o «Michaelis regista víquingue, “relativo aos Víquingues, navegadores escandinavos que pilhavam as povoações litorâneas da Europa, entre os séculos VIII e X”» e o «“Vocabulário da Língua Portuguesa” de Rebelo Gonçalves e os dicionários portugueses consultados não referem o termo». Ainda não tinha sido publicado o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que podia ser o melhor dicionário da língua portuguesa — mas alguém não quis ou não se esforçou e, de melhor, passou a putativo melhor. E agora fiquei escandalizadíssimo (e não devia, eu sei) porque este dicionário não regista viquingue nem víquingue. Entre aportuguesamentos legítimos e semiaportuguesamentos manhosos, esqueceu-se do que podia ser consensual. Não voltem.

[Post 3136]

Solicitadores e juristas

Sr. Agente


      «Mas os visados não estavam na sede e a funcionária contactada recusou-se, no entanto, a assinar a notificação. Durante várias horas, os dois juristas voltaram várias vezes às instalações do jornal, até que à sexta visita deixaram a notificação ao segurança do edifício» («Pelo menos duas providências cautelares tentaram impedir o Sol de publicar escutas», Mariana Oliveira com A. A. M., S. J. A. e A. M., Público, 12.2.2010, p. 3).
      E que juristas eram aqueles? Pois eram um solicitador de execução e uma advogada. Deve ter sido das escassíssimas vezes que vi um solicitador ser tratado por jurista. É-o? Bem, os dicionários dizem que jurista é a pessoa versada em leis e que, no exercício da sua profissão, dá pareceres sobre questões jurídicas. Mas não nos podemos cingir ao que dizem os dicionários gerais, naturalmente. Por alteração introduzida pelo Decreto-Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro, art. 5.º n.º 1), passaram a ser designados por agentes de execução. Estes profissionais não actuam como mandatários das partes, e, se bem que só possam exercer as funções de agente de execução solicitadores e advogados que tenham concluído, com aproveitamento, o estágio de agente de execução, entre outros requisitos formais, no desempenho da função de agentes de execução não dão pareceres sobre questões jurídicas. Leandro Siopa, solicitador nas comarcas da Marinha Grande, Pombal e Leiria, tem um blogue com o título Solicitador — jurista de proximidade.
      Não chego, é claro, a dizer, como, a propósito da tradução de termos relacionados com as profissões jurídicas inglesas (solicitor, counsel, barrister), me disse recentemente uma figura pública, que os solicitadores «não passam de moços de recados dos advogados». Esta é, evidentemente, uma visão errada da realidade.

[Post 3135]

Plural e género de «pitão»

Cobras e lagartos


      «Na tarde de terça-feira, elementos da GNR do Núcleo de Protecção da Natureza e do Ambiente encontraram nas duas casas 39 cobras-do-milho, duas pitãos, que mediam entre os 20 e os 98 cm, e cinco dragões-barbudos» («GNR apanhou 46 cobras e lagartos sem documentos», Diário de Notícias, 11.2.2010, p. 21).
      Mas pitão não é do género masculino? Mas pitão não faz o plural em pitões? Para não haver confusões, não era melhor escrever píton/pítones (ou pítons)? No sítio do Jardim Zoológico de Lisboa, pode ler-se: «Os pitões têm dentição aglifa (dentes cónicos não-inoculadores de veneno).»

[Post 3134]

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