Ortografia: «subcontinente»

Subcategoria


      «Desta forma, as únicas regiões que podiam, de forma plena, fazer parte do “sistema” de Bretton Woods eram os Estados Unidos e o Canadá, a Europa não comunista, a Australásia, o Japão, a América Latina e (após 1947) o sub-continente indiano» (O Parlamento do Homem: História das Nações Unidas, Paul Kennedy. Tradução de Artur Sousa/CEQO e revisão de Luís Abel Ferreira. Lisboa: Edições 70, 2009, p. 140).
      É absolutamente incrível como tantos tradutores e revisores — revisores, meu Deus! — são avessos a consultarem dicionários e prontuários. Se estes o tivessem feito, teriam ficado a saber que o elemento de formação de palavras sub- só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r. E nunca é um caso isolado: «O Ocidente podia estar agora a dar-lhes as boas-vindas ao clube, por vezes, contudo, com condescendência e auto-comprazimento, e esquecendo-se demasiado rapidamente dos danos que tinham sido causados» (ibidem, idem, p. 144). Não digo que as consequências sejam tão graves como as de um erro médico, mas, caramba, não são profissionais?

[Post 3125]

Sobre «crítico»

Decisivo


      «Para Zorrinho, o carro eléctrico é “crítico” para dar sustentabilidade económica e social ao investimento feito em energias renováveis» («Carro eléctrico não precisa de mais energia mas de redes inteligentes», Lurdes Ferreira, Público, 10.2.2010, p. 23).
      É impressão minha ou nenhum dicionário da língua portuguesa regista o adjectivo crítico na acepção — essencial, decisivo — usada na frase citada? E não são poucas as vezes que a acepção é usada, seja na oralidade, seja na escrita. Claro que a realidade vai sempre à frente dos dicionários. E a acepção não deverá nada ao inglês critical?

[Post 3124]

Desnutrição/malnutrição

Exprime oposição


      «Um homem foi ontem socorrido, em Port au Prince, depois de ter passado 27 dias debaixo dos escombros de um mercado. Os médicos confirmam que o homem apresentava sinais de extrema desidratação e malnutrição, embora tenha tido acesso a água ao longo destas quatro semanas, caso contrário os médicos garantem que teria morrido. O corpo humano não sobrevive mais de cinco dias sem ingerir líquidos» («Haitiano sobreviveu quase um mês debaixo dos escombros», Susana Almeida Ribeiro, Público, 10.2.2010, p. 18).
      Até pela proximidade do vocábulo desidratação, a malnutrição preferiria desnutrição, comummente considerado mais conforme com a língua portuguesa. O Dicionário Houaiss, por exemplo, se regista malnutrido, não regista malnutrição.
      Não percebo porque é que o jornal Público grafa o nome da capital do Haiti sem hífenes. Deve ser caso único na imprensa portuguesa.

[Post 3123]



Actualização no mesmo dia

      É sempre possível fazer melhor, costumo dizer — e pior: «Apesar de o Fascismo e o Comunismo terem obtido um forte apelo psicológico, ambas as ideologias floresceram no canteiro do desespero económico — desemprego, mal-nutrição, pobreza, maus cuidados de saúde e grandes desigualdades sociais» (O Parlamento do Homem: História das Nações Unidas, Paul Kennedy. Tradução de Artur Sousa/CEQO e revisão de Luís Abel Ferreira. Lisboa: Edições 70, 2009, p. 136).

Actualização no dia 11.2.2010

      Na edição de ontem do Metro, lia-se que «Muncie estava desidratado e desnutrido, mas sem ferimentos graves» («30 dias sob escombros, Metro, 10.2.2010, p. 9).

Sobre «corporação»

Anglicismo semântico


      «De facto, este avanço sujeitou-se a algumas condições e constrangimentos, pois as Nações Unidas nunca poderiam escapar ao paradoxo central a muitos organismos internacionais, ou seja, uma vez que esta Organização foi criada pelos Estados-membros, que funcionam como accionistas de uma corporação, só pode funcionar com eficiência quando recebe o apoio dos governos nacionais, principalmente daqueles que representam grandes potências» (O Parlamento do Homem: História das Nações Unidas, Paul Kennedy. Tradução de Artur Sousa/CEQO e revisão de Luís Abel Ferreira. Lisboa: Edições 70, 2009, p. 14).
      Apesar de relativa reabilitação do termo corporação, nem todos os dicionários gerais o registam na acepção de empresa. O Dicionário Houaiss, contudo, regista a acepção, por extensão de sentido, «empresa ou grupo de empresas de grande porte e de forte presença em um ou mais sectores». Reparem: «de grande porte». Não qualquer empresa. O vocábulo inglês corporation pode traduzir-se por empresa anónima ou apenas empresa, e corporative pode traduzir-se por empresarial. (E o Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, que regista como acepções de corporation, no âmbito do comércio, «sociedade, companhia», em relação a corporative regista somente «corporativo». Onde está a visão de conjunto?) Salvo melhor opinião, não me parece que precisemos da acepção.

[Post 3122]


Actualização em 11.2.2010

      É claro que, quando se trata da imagem empresarial, os empresários e os próprios jornalistas acham mais prestigiante «imagem corporativa»: «A Sonae investiu 700.000 euros para lançar a sua nova identidade corporativa, divulgada ontem no Porto. A IVITY foi a agência responsável» («Mudança corporativa», Metro, 11.2.2010, p. 9).

«Aulas de alfabetização»

Pior que suicidar-se


      Caro Francisco: em relação a suicidar-se não sinto nenhuma estranheza. E não há-de ser porque também é assim, pronominal reflexo, noutras línguas neolatinas, mas porque as línguas não têm lógica e, no caso do português, não faltam redundâncias e ilogismos. Agora, estava aqui a rever um texto em que se podia ler: «A maioria das mulheres que chegam ao centro não sabem ler nem escrever. Recebem aulas de alfabetização, higiene e culinária, e aprendem a montar a e gerir um negócio, como costura, fabrico de sabão, criação de gado, jardinagem…» A alfabetização não é a acção de alfabetizar, isto é, e no sentido mais lato, ensinar a ler e a escrever? Se aquelas mulheres, que não sabem ler nem escrever, chegam ao centro, seja lá onde for, poderão assistir a aulas de alfabetização? Não se destinarão estas aulas apenas a quem já está alfabetizado, porventura futuros professores? Estão a ver a contradição? Contudo, a expressão é muitíssimo comum.

[Post 3121]

Léxico: «buchmanita»

Na ultravida


      Caro A. M.: não, não, em português, aos seguidores do evangelista norte-americano Frank N. D. Buchman (1878–1961) só podemos dar o nome de Buchmanitas. Buchmanites é para os Ingleses. Melhor: nem merecem a maiúscula inicial: buchmanitas. Simpatizante do nazismo, Buchman declarou uma vez que dava graças por um homem como Hitler, que estava a construir uma frente de defesa contra o Anticristo do comunismo. Na sua ultravida, há-de (sim, Lucas Lindegaard, este hífen é mesmo disparatado!) estar agora a conversar com Hugo Johannes Blaschke e o próprio ídolo (que, agora já sabemos, e não é graças à imprensa, sofria de parodontose).

[Post 3120]

«Deão», de novo

Deão de Porto Príncipe


      E em francês também se usa: «Pierre Vernet, linguiste et doyen de la faculté de Linguistique appliquée, figure parmi les nombreuses victimes emportées par le monstre du 12 janvier. Une perte énorme pour l’intelligentsia haïtienne.» (Ver aqui a notícia completa.) Doyen, homme ou femme qui administre et dirige une faculté. Há vários latins. O dicionário Le Trésor de la Langue Française Informatisé regista que doyen vem do latim cristão decanus. Pierre Vernet, decano da Faculdade de Linguística Aplicada da Universidade Estatal do Haiti, em Porto Príncipe, foi mais uma vítima do terremoto de 12 de Janeiro.

[Post 3119]

Sobre «responsivo»

Desnecessário, parece-me


      O leitor R. A. pergunta: «“Desejo sexual espontâneo versus responsivo” ou “Desejo sexual espontâneo versus reativo”? “Tanto em doentes letárgicos como em doentes responsivos” ou “Tanto em doentes letárgicos como em doentes que reagem aos estímulos”? A minha dúvida é saber se a palavra “responsivo” é um anglicismo dispensável ou se acha que já ganhou direito de pertencer à língua portuguesa sem reservas.»
      Tenho uma posição ambivalente em relação a esta matéria. Por um lado, acho que não devemos incorporar indiscriminadamente na língua estrangeirismos quando temos forma de, mesmo lançando mão de perífrases, exprimir a ideia. Por outro lado, sou mais receptivo à ideia de enriquecer a língua incorporando acepções de vocábulos que já temos, desde que a necessidade seja evidente. No caso, já temos o termo responsivo (com o mesmo étimo do inglês responsive), mas não a acepção. Falta averiguar da necessidade. Parece-me que reactivo traduz bem a ideia.

[Post 3118]

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