Sobre «adição»

Boas contas


      «A cumprir as últimas semanas de tratamento a um problema de adição de sexo, Woods já sonha vencer o quinto troféu da prova» («Empresário desafia Tiger Woods para regressar em Abril», Correio da Manhã/Sport, 6.2.2010, p. 24).
      «Adição de sexo». Nunca melhor dito. Afinal, o golfista teve sete amantes nos últimos anos. Sempre a somar. Adição, pois.

[Post 3109]

Concordância com «a maior parte»

É só escolher


      O leitor F. A. quer saber como deve fazer a concordância verbal na seguinte frase: «“A maior parte dos soldados japoneses suicidou-se para não ter de enfrentar aquilo que para eles era a humilhação pessoal do cativeiro”, ou “a maior parte dos soldados japoneses suicidaram-se para não terem de...” A minha inclinação vai para a primeira, mas...»
      ... os estudiosos, e eu também, admitem que nas frases começadas por «A maioria», «A maior parte» e outras o verbo tanto pode ir para o plural (concordância semântica ou siléptica) como para o singular (concordância sintáctica). Logo, há-de ser uma questão de gosto e talvez, mas só talvez, de pretendermos realçar o complemento da expressão.

[Post 3108]

Feminino de «reverendo»

Pela igualdade


      «Aos guardas e à juíza que ontem os interrogou no Tribunal de Moura os dois ladrões de um gang de cinco brasileiros que fez carjackings e se envolveu em tiroteios com a GNR nas zonas de Barrancos e Moura disseram que o autor dos disparos foi um dos dois membros do grupo que ainda estão a monte» («Presos culpam os dois fugitivos», Alexandre M. Silva, Correio da Manhã, 6.2.2010, p. 17).
      Até recentemente, hesitava-se ou não se usava mesmo a forma feminina de «juiz». Contudo, juiz não é um substantivo comum de dois. Acontece é que, antes do 25 de Abril, as mulheres não tinham acesso à carreira na magistratura, na diplomacia, nas Forças Armadas e na polícia. Aliás, em 1974, apenas 25 % dos trabalhadores eram mulheres. Como é que havia de se usar o feminino juíza?
      O intróito serve para abordar uma questão trazida por um leitor, Miguel Baptista. «Acha legítimo, no caso de uma sacerdotisa presbiteriana dos EUA, usar a forma “reverenda” para traduzir reverend (tal como em “sacerdotisa”, “pastora” ou até “ministra”; só “padre” não terá uma forma feminina evidente, porventura)? Bem sei que soa estranho, mas digo-lhe que me causa infinitamente menos espécie do que a forma do masculino. “O jornalista abordou o reverendo Smith, e ela disse estar indisponível”, por exemplo, soa-me pura e simplesmente ilógico.» Acho legítimo, sim, e lógico. O nosso vocábulo «reverendo», tanto o adjectivo como o substantivo, provém do adjectivo latino reverēndus,a,um, «digno de veneração, venerável». Em suma, é tão legítimo usar reverenda como usar juíza.

[Post 3107]

Léxico: «desportividade»

Essa é boa


      «Requinte, conforto e desportividade». Assim resume o Fugas (pp. 38-39) de hoje as características do novo modelo da série 5 da BMW. Diz-me um leitor: «E eu dou por mim a pensar que não me lembro de alguma vez ter deparado com esta palavra. O meu corrector ortográfico também não se lembra, e tem uma memória bem melhor do que a minha. A palavra existe?» Bem, o meu corrector ortográfico também não a reconhece. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora tão-pouco. Contudo, o Dicionário de Português-Francês da mesmíssima Porto Editora regista-o: «desportividade» é sportivité em francês. Não é incongruente? Já no Dicionário Houaiss podemos ler que «desportividade» é o mesmo que «desportivismo». Será? Ainda para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «desportivismo» é, na acepção que mais se adequa, o «espírito desportivo».
      Talvez a definição de sportivité aclare mais o conceito: «a) Aptitude au sport, intérêt pour le sport. Les progrès du sport féminin laissent donc bien augurer de la sportivité des masses (Jeux et sports, 1967, p. 1302). b) Esprit sportif, loyal dans les épreuves sportives ou dans d’autres circonstances. Synon. fair-play. Grâce à leur entrain, leur bonne humeur, et leur sportivité» (in TLFI). Em sentido figurado embora, parece-me que é a acepção a) a usada no título do Fugas.

[Post 3106]

Passes por passos

Os pés pelas mãos


      «As estradas são íngremes e estreitas e nesta época do ano podem ter gelo e serem traiçoeiras, serpenteando pelos passes de montanha e ladeando ravinas profundas, onde as quedas-d’água estão congeladas e as vinhas encordoadas de alguns vinhais mais antigos na terra do vinho ficarão nos campos até ao degelo da Primavera, altura em que serão podadas» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 23).
      Só uma pergunta: o que são «passes de montanha»? Sim, são «passos de montanha». Gralha, seja. Contudo, e salvo melhor opinião, o segmento «vinhas encordoadas de alguns vinhais mais antigos na terra do vinho ficarão nos campos até ao degelo da Primavera» não é imediatamente compreensível.

[Post 3105]

Léxico: «canola»

Pelo menos do reino vegetal


      «A paisagem é de cortar a respiração — montanhas de florestas antigas e intocadas; vales profundos atravessados por rios pintados de azul pelo céu sem par; planaltos férteis a perder de vista, que engordam os carneiros durante o Inverno e se revestem ao longo dos Verões escaldantes com o amarelo e o dourado do trigo e da canola» (Fim de Tarde em Mossul, Lynne O’Donnell. Tradução de Ana Saldanha. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, p. 23).
      Neste caso, é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que nos deixa na ignorância: o mais aproximado que regista é «canoula», a haste ou cana do milho (que também é um termo heráldico, que designa o emblema do brasão com a forma daquela haste). O Dicionário Houaiss, contudo, diz-nos que a canola é a «variedade genética da colza (Brassica napus), do grupo Pabularia, desenvolvida no Canadá, durante a década de 1970, para extracção do óleo das sementes, com níveis reduzidos de ácidos gordos saturados, especialmente usado em culinária (frituras, saladas, margarinas, maioneses, etc.) e muito consumida no Canadá, principal país produtor e exportador». É o acrónimo de Canadian oil, low acid, «óleo canadiano de baixo teor ácido».

[Post 3104]

Sobre «permilagem»

Desilusão


      Estava aqui a confirmar o quórum constitutivo para uma segunda reunião da assembleia de condóminos, e que descubro ao consultar o Dicionário Houaiss? Pois que este dicionário não regista o termo «permilagem» (‰). E, no entanto, o termo é usado, como sabem, não apenas em referência ao capital nos condomínios, como também na ciência. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora dá o exemplo da salinidade da água do mar. Os Brasileiros, ao que parece, não usam o conceito. Os dicionários de língua inglesa, pelo contrário, registam permillage, «a rate or proportion per thousand».

[Post 3104]

Como se escreve nos jornais

Lamentável


      «Na carrinha entretanto recuperada (fora furtada no ano passado na zona de Castelo Branco e circulava com diversas matrículas falsas), a GNR veio a encontrar pás e enxadas, algumas peças de vestuário e dois detonadores eléctricos. As pás e as enxadas significam que os suspeitos teriam já escavado um zuro (esconderijo no chão onde colocam recipientes com armamento). Apesar da descoberta dos detonadores, a GNR só veio a comunicá-la à PJ no final da tarde de quinta-feira» («GNR descobriu em Óbidos mais explosivos do que a ETA fez rebentar em 2009», José Bento Amaro, Alexandra Barata e Nuno Ribeiro, Público, 6.2.2010, p. 10).
      Que interesse pode ter para os leitores portugueses saberem que em basco se chama zuro ao esconderijo no chão onde se ocultam recipientes com armamento? Por mim falo: nada. E mais: está errado. A palavra é zulo, que significa «buraco; esconderijo no chão» e, segundo alguns etimologistas, poderá provir do celta silon, «semente; celeiro».

[Post 3103]

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