«Extra»: adjectivo variável II

Concordo


      «A revista [Sábado] publica um texto escrito com base em depoimentos seus, expressamente destinados a serem publicados, em que confessa a sua obsessão por crianças. O artigo disponibiliza ainda informações extras para compreender o caso» («Homem admite que é pedófilo e fala da obsessão», Destak, 28.1.2010, p. 4).
      Já temos visto que, para alguns falantes, como para mim, o adjectivo «extra» é variável.

[Post 3070]

Sobre «vulgo»

Diz o vulgo?


      Lê-se no editorial de hoje do Público: «O caso do aluimento de terras na Circular Regional Exterior de Lisboa (vulgo CREL) é paradigmático do modo como se cultiva e expande a irresponsabilidade em Portugal» («Irresponsabilidades do caso CREL», p. 38).
      Morfologicamente, o que é aquele «vulgo»? É um advérbio, sim senhor. Significa na língua vulgar; vulgarmente. O exemplo do Dicionário Houaiss é: «O Salmo salar, vulgo salmão.» Claro que, no caso, o uso vulgar é o do próprio jornal e de toda a comunicação social... Não estou a ver a fina-flor a proferir, escusadamente, Circular Regional Exterior de Lisboa.
      É curioso que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe este advérbio. Mais um erro.

[Post 3069]

Léxico: «painel de mensagem variável»


Dá jeito


      «Para evitar o agravamento da situação, a Brisa alerta para que os condutores se mantenham atentos aos painéis de mensagem variável e “à sinalização especial de desvio” que está a partir de hoje colocada nas auto-estradas A1, A2, A5, A8, A9, A10, A16 e no IC19» («Deslizamento de terras vai cortar a CREL durante dias», Maria João Serra, Destak, 25.1.2010, p. 3).
      Agora já sabemos como se chamam aqueles «equipamentos de controlo de tráfego programáveis, que afixam mensagens de texto e pictogramas, visando melhorar a operação e evitar acidentes» (como se lê aqui). «Trânsito lento. Seja prudente.»

[Post 3068]

Graus dos adjectivos

«Como que de»!?


      «Por enquanto, porém, a distinção entre o portátil e o caseiro, por muito irracional que seja, há-de prevalecer. A fronteira absurda entre ambos já foi desmascarada desde que fizemos o primeiro telefonema em casa, de um telemóvel, por ser mais barato e tão bom como que de um “fixo”» («É hoje!», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.1.2010, p. 31).
      No grau comparativo de igualdade, a construção é tão + adjectivo + como (ou quanto); logo, aquele que está ali a mais. Apenas para a construção dos graus comparativos de superioridade e de inferioridade é necessário o pronome relativo: mais + adjectivo + que, do que/menos + adjectivo + que, do que. É assim ou não é, Miguel?

[Post 3067]

«Língua brasileira»?

Só com legendas


      Jô Soares está em Portugal para dizer poemas de Fernando Pessoa (Remix em Pessoa, no Teatro Villaret). Segundo o Público, é «com sotaque de Portugal que Jô Soares vai dizer Pessoa porque nunca poderia fazê-lo em brasileiro. “Somos unidos por uma língua totalmente diferente”, explicou. “Tem coisas em que a unificação da língua não adianta.” Os brasileiros “ficaram numa língua meio seiscentista, que antigamente se falava em Portugal”, mas para o actor “é fascinante” ver “a evolução de uma língua para um lado e outra para outro”» («Portugueses e brasileiros são “unidos por uma língua completamente diferente”», Alexandra Prado Coelho, Público, 27.1.2010, p. 10).
      «Somos unidos por uma língua totalmente diferente.» De vez em quando, ouve-se este exagero risível. E não são apenas brasileiros a dizerem-no: há três ou quatro anos, ouvi o escritor José Couto Nogueira afirmar convictamente — e desafiadoramente — a existência da «língua brasileira», supostamente tão diferente da língua portuguesa que não nos compreendíamos.

[Post 3066]

Verbo «haver» — inacusativo?

Vislumbre do futuro


      «Toda a ajuda é pouca, ou não houvessem, segundo os dados da Organização Internacional para as Migrações, pelo menos 500 mil pessoas sem casa, isto só na capital haitiana, Port-au-Prince, onde a confusão parece instalada, como testemunham os portugueses» («Equipa nacional ajuda a minimizar as dificuldades dos sobreviventes», Destak, 25.1.2010, p. 19).
      Na acepção de existir, já aqui o escrevi vezes sem conta, o verbo haver é impessoal, a concordância é com o sujeito nulo (de 3.ª pessoa singular). Há estudos recentes que apontam para a hipótese de estarmos no limiar de uma mudança que conduzirá ao uso deste verbo como inacusativo*.

[Post 3065]


* «Sabe-se, desde a publicação de Perlmutter 1978, que os verbos que seleccionam um só argumento e que a tradição gramatical designa por “intransitivos” não são uniformes, podendo englobar verbos que seleccionam um argumento externo — os chamados inergativos — e os verbos que seleccionam um argumento interno a que não atribuem caso acusativo, argumento esse que se comporta como sujeito final — os chamados inacusativos» («Nomes derivados de verbos inacusativos: estrutura argumental e valor aspectual», Ana Maria Brito, in Revista da Faculdade de Letras — Línguas e Literaturas, II Série, vol. XXII, Porto, 2005, p. 48).

Tradução para o Audiovisual

Haja esperança


      Ainda está a decorrer o prazo para a candidatura na pós-graduação Tradução para o Audiovisual na Universidade Católica Portuguesa (ver aqui). No sítio do jornal Sol leio o título «Católica ‘ensina’ a traduzir filmes». E se o título é prudente, pondo aspas na forma verbal, o texto da jornalista Ana Serafim é excessivamente entusiástico, afirmando: «São frequentes as incorrecções nas traduções de filmes, o que pode até gerar falsas interpretações dos enredos. Para evitar erros deste género, a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica inicia em Março uma pós-graduação em Tradução para o Audiovisual.» Apraz-me, contudo, registar que um dos objectivos é «apurar o uso da língua portuguesa para os fins específicos da dobragem e legendagem, de modo a combater a displicência tão manifesta nos ecrãs nacionais (módulo de língua portuguesa)». A coordenação científica da pós-graduação está a cargo do Prof. Doutor José Miguel Sardica e a coordenação pedagógica é da resposabilidade da mestre Alexandra Lopes.

[Post 3064]

Mudar de nome

Foto do jornal A Bola

Onomástica


      É o jornal Destak de hoje que o garante: Abel Xavier, antigo internacional português, «converteu-se ao islamismo, recebendo como novo nome Faissal» («Abel Xavier adopta nome islâmico de Faissal», Destak, 25.1.2010, p. 8). Já para A Bola, o jogador foi «baptizado com o nome muçulmano Faisal». Em primeiro lugar, os jornalistas ainda não sabem distinguir islâmico de muçulmano. Em segundo lugar, é irrelevante, face à lei portuguesa, que o jogador «mude» de nome.
      Nos controlos alfandegários, o que conta é o documento de identidade em que surja o nome Abel Luís da Silva Costa Xavier. Se renunciar à nacionalidade portuguesa, e para isso tem de ter outra nacionalidade (art. 8.º da Lei n.º 37/81, de 3 de Outubro), não sei como será, mas, se acaso pudesse mudar de nome, e não pode, seria mais provável que a grafia do nome fosse Faiçal (e nenhum, Faisal, Faissal e Faiçal, consta da lista de nomes admitidos). É como o futebolista afirma: «Estamos a falar de uma situação a nível interior.»

[Post 3063]

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