Grafia dos prosónimos II

Leiam o que escrevem


      «Em 1831 o autor francês Alexis de Tocqueville escreveu um famosíssimo livro sobre a América: Da Democracia na América. De visita ao novo mundo, foi ele o primeiro a registar as pulsões particulares que comandavam os americanos» («A América e a Europa», Pedro Lomba, Público, 25.1.2010, p. 32).
      Pois é, mas o próprio Livro de Estilo do Público, na secção relativa ao uso de maiúsculas e minúsculas, no ponto 5, recomenda e bem que se empregue a maiúscula inicial nos «nomes geográficos: Alto Alentejo, Ásia Menor, Extremo Oriente, Brasil, Novo Mundo, Outra Banda, Pirenéus». Já não sabem as regras que se impuseram? Quanto ao cronista, não lhe ficava mal aprender.

[Post 3062]

Léxico: «novilíngua»

Meia aula


      «“Todos os anos, dedico meia aula no curso de ciências da comunicação ao livro [1984], sobretudo por causa da ‘novilíngua’”, conta [Miguel Morgado, professor na Universidade Católica, em Lisboa], ao i. “O impacto que tem nos estudantes é incrível”» («Orwell 60 anos depois. O Big Brother continua de olho em todos nós», Bruno Faria Lopes, i, 21.1.2010, p. 38).
      O termo novilíngua não precisa de estar entre aspas, apesar de não estar (nem, porventura, dever estar) dicionarizado e ser usado com grande frequência. Terá sido o primeiro tradutor da obra para português a optar, perante o vocábulo newspeak (que, na obra, era uma das formas de o Partido controlar e limitar o pensamento humano), forjado por George Orwell, pelo neologismo novilíngua.

[Post 3061]

«Melhor»: advérbio ou adjectivo?

E agora?


      Boa questão, cara Luísa Pinto: ainda recentemente li uma frase semelhante no Público: «O que nós deveríamos fazer era usá-los para tirar partido do efeito placebo. É que o efeito placebo existe. Os doentes sentem-se mesmo melhores. E é isso que interessa» («Operação dos teatros», Miguel Esteves Cardoso, Público, 30.12.2009, p. 31).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, melhor, na acepção de menos doente, é um adjectivo uniforme (não admite contraste de género). Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está correcta. Para o Dicionário Houaiss, porém, melhor, na acepção de mais bem; em condições físicas e/ou psicológicas mais saudáveis, é advérbio. Logo, a frase de Miguel Esteves Cardoso está incorrecta.

[Post 3060]

Adjectivos relacionais

Mas não


      Já tenho lido e ouvido que os adjectivos qualificam o nome. Ora, essa é uma afirmação incorrecta. Se há adjectivos que qualificam — «afirmações estúpidas» —, também há os que estabelecem com o nome uma relação muito diferente. E se há falantes que não sabem quando podem antepor um adjectivo qualificativo ao nome, também há os que julgam, e são jornalistas, poder usar adjectivos relacionais discricionariamente. Eis um exemplo lido no jornal i: «A agenda democrata complica-se, mas a reforma sanitária ainda respira», título de um artigo assinado por Enrique Pinto-Coelho (21.1.2010, p. 33).

[Post 3059]

Opções linguísticas

É esse o objectivo?


      «Como corolário, a verdade é que a Finlândia foi considerada pelo Worl [sic] Economic Forum, em 2003, 2004 e 2005, a economia mais competitiva do mundo» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 98).
      Porque havemos de escrever — mesmo que bem — World Economic Forum se podemos escrever, e toda a gente perceberá, Fórum Económico Mundial? Ou escrevemos para poucos entenderem? Outro mundo é possível.

[Post 3058]

Revisão

Vão mas é trabalhar

      «Aliás, o índice a longo prazo estabelecido pela consultora Ernst & Young para a generalidade dos países considerados confere grande importância, comparativa, ao investimento na energia eólica (85%) e, menos, ao investimento na energia solar (5%) e noutras energias renováveis (10%)» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 88).
      Os nomes das empresas, se estrangeiras, grafam-se em itálico, é isso? Parece-se que sim: «No mesmo mês em que um estudo do Deutsche Bank previa que o nível de vida espanhol alcance o alemão em 2008, o Governo de José Luís Zapatero assinava — na presença dos secretários-gerais das duas centrais sindicais, a CCOO e a UGT e dos residentes das confederações empregadoras CEOE e CEPYME — um histórico acordo laboral e anunciava a reforma do sistema público de Segurança Social» (idem, ibidem, p. 102). Umas páginas à frente, porém, a regra muda: «E, curiosamente, a semana passada a Bloomberg, citando o South China Morning Post anunciava que o Grupo Santander, o BBVA, a General Electric Capital, entre outros, manifestam interesse em participar no capital do banco chinês China Citic Bank» (idem, ibidem, p. 135). Mais exemplos: «Não obstante, ao longo de 2006 muitas empresas internacionais procuraram Portugal como destino de investimento: Ikea, Repsol, Abertis, Advansa, Netjet e os grupos turísticos Aman Resorts, Starwood e Hilton» (idem, ibidem, p. 170).
      Alguém podia alegar a génese, a origem da obra, para explicar estas incongruências, mas esse seria um argumento supinamente desonesto. A obra reúne cem artigos de opinião publicados pela autora no Jornal de Negócios e no Expresso. Para efeitos de publicação em livro, porém, devia ser, para a editora, como se tivesse saído da gaveta ou do disco rígido da autora. O trabalho de harmonização, de uniformização tem sempre de ser feito. E feito por quem sabe, não pelo sobrinho por ser sobrinho ou por curiosos porque estão desempregados.

[Post 3057]

Léxico: «monossémico»

Univocação


      Se os dicionários registam polissemia e polissémico, não deveriam registar monossémico, já que registam monossemia? Na verdade, o Dicionário Houaiss não regista (!) nem monossemia nem monossémico, o que não deixa de surpreender num dicionário como este. (Caro Paulo Araujo, por favor, trate do caso.)
      Há vocábulos monossémicos, isto é, que têm uma única significação, e a designação é usada em algumas gramáticas. No domínio da ciência e da técnica, por exemplo, há — e é uma garantia da necessária univocidade — muitos termos monossémicos.

[Post 3056]

Advérbios interrogativos

Isto está a mudar


      Até há pouco tempo, as gramáticas escolares evitavam incluir o porque entre os advérbios interrogativos. Pura cobardia e ignorância. Como os autores sabiam que a questão é controversa, nada diziam. Contudo, não deixavam de incluir o advérbio porquê. Agora algumas já tomam uma posição, como se vê aqui: «Os advérbios interrogativos podem remeter para uma ideia de tempo (quando?), de lugar (onde?, aonde?, donde?...), de modo (como?) ou de causa (porque?, porquê?)» (Gramática Prática de Português, M. Olga Azeredo, M. Isabel Freitas M. Pinto, M. Carmo Azeredo Lopes. Lisboa: Lisboa Editora, 2009, p. 258). As autoras tiveram como consultor científico o Prof. João Miguel Marques da Costa, do Departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa.

[Post 3055]

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