Léxico: «séptico»

Cépticos amputados


      «Não, aqui houve um sismo. Mas foram muitos os que ficaram debaixo dos escombros por demasiado tempo, os que estiveram sem tratamento, os que foram tratados à pressa e voltaram sépticos. Ainda não acabou» («Não se amputava assim desde a Guerra da Crimeia», Sofia Lorena, Público, 23.1.2010, p. 16).
      Não é todos os dias que lê o adjectivo séptico (e ainda menos putrígeno...) Uma das acepções, a usada no texto, significa infectado por micróbios ou suas toxinas. De acordo com as novas regras ortográficas, não sofrerá alterações, pois o p é articulado. Já céptico passará a grafar-se cético.

[Post 3054]

Processos de composição

Depende


      Cara M. L.: no composto morfossintáctico, associam-se dois ou mais vocábulos, como, por exemplo, homem-bomba; no composto morfológico, o novo vocábulo é formado a partir da junção de dois radicais (normalmente de origem grega ou latina) ou de um radical e um vocábulo, por exemplo, telemóvel. Mesmo um termo como afro-americano é um composto morfológico. Nestes, apenas o elemento da direita sofre alterações de género e de número: afro-brasileiro/afro-brasileiros/afro-brasileira/afro-brasileira. Quanto aos compostos morfossintácticos, depende: o plural pode atingir ambos os vocábulos constituintes, só o da esquerda ou só o da direita.

[Post 3053]

«Rotinados», outra vez

Ainda entra nos dicionários...


      «Eu creio que há pessoas que nos desafiam, nos desconcertam sobretudo, por nos obrigarem a mudar radicalmente os nossos modelos rotinados de pensar e de agir, e creio que Maria de Lourdes Pintasilgo [1930–2004] foi claramente uma dessas pessoas e que marcou, por isso mesmo, acima de tudo por isso, a segunda metade do século XX em Portugal» (José Manuel Pureza, Conselho Superior, Antena 1, 21.1.2010).
       Já aqui me tinha referido ao adjectivo rotinado, tendo então afirmado que, em relação à oralidade, mais espontânea, livre, improvisada, temos de ser mais tolerantes, tanto mais que quase nada do que se diz passa à escrita. Neste caso, porém, são textos escritos para serem lidos, pelo que não há essa desculpa.

[Post 3052]

Ortografia: «peso meio-médio»

Mais leve


      «Campeão em título na categoria de pesos-meio-médios (sensivelmente entre os 63 e os 66 quilos), Andre Berto tinha marcado para 30 de Janeiro um confronto com Shane Mosley, o campeão da mesma categoria mas de outra organização de boxe, a WBA (World Boxing Association)» («Quando a família é mais valiosa que um combate para o título», Rui Silva, i, 21.1.2010, p. 56).
      Eh, lá, não são hífenes a mais? «Pesos-meio-médios»? Pretende-se traduzir o vocábulo inglês welterweight. Não é por isso, contudo, que precisamos de ligar os elementos. Escreva-se pesos meio-médios.

[Post 3051]

Regência do verbo «propor-se»

O i no divã


      «De D. Afonso VI a José [sic] César Monteiro, passando por Fernando Pessoa e Antero de Quental, Joana Amaral Dias propõem-se [sic] a sentar estas personalidades no divã e dar um nome aos seus comportamentos à luz da psicologia/psiquiatria actuais» («Joana Amaral Dias. Retratos da loucura dos portugueses famosos», Patrícia Silva Alves, i, 21.1.2010, p. 34).
      Francisco Fernandes, no Dicionário de Verbos e Regimes (São Paulo: Editora Globo, 36. ed.ª, 1989, p. 481), lembra que a «forma propor-se a fazer alguma coisa é condenada por muitos puristas, que mandam que se escreva propor-se fazer alguma coisa (infinito não preposicionado)».
      E o director do i, Martim Avillez Figueiredo, não esteve em 2009 no programa Páginas de Português a falar sobre os cuidados com o português no jornal que dirige?

[Post 3050]

«Coronel no resguardo»?

Eh, pá, dedica-te à pesca


      «Queria ser piloto aviador, como o meu pai que é coronel da força aérea no resguardo, e vivi no meio militar durante imenso tempo: quatro anos na base aérea nos Açores e na de Tancos», disse Moura dos Santos em entrevista ao jornal i («“Irrita-me o folclore à volta do ‘Ídolos’”», André Rito, 21.1.2010, p. 37).
      Coronel da força aérea no resguardo, não conhecia esta forma de dizer. A fonte, contudo, não é a melhor. Erros e gralhas da parte do jornalista e disparates da parte do entrevistado não faltam. Começa o jornalista: «Hoje, conhecemo-lo como o júri implacável do “Ídolos”.» O entrevistado, por sua vez, disse: «Posso não gostar e dizer “eh pá, dedica-te à pesca”. Admito que isso não seja o português mais coloquial.» Como amostra, chega.

[Post 3049]

«Pronto-a-comer» adjectivo

PC, na sigla portuguesa


      «Um avião de carga C-17 largou por pára-quedas 9600 garrafas de água e 42 mil refeições prontas-a-comer, (ou MRE, na sigla inglesa), noticiou a CNN» («Militares americanos lançam alimentos de pára-quedas», Francisca Gorjão Henriques, Público, 20.01.2010, p. 15).
      MRE, na sigla inglesa, de meals ready to eat. Os dicionários apenas registam pronto-a-comer (tal como pronto-a-vestir) como substantivo, não como adjectivo.

[Post 3048]

Ortografia: «microimplante»

Segundo que regras?


      «Esta é uma intervenção cirúrgica complicada, pois é trabalhada ao nível de micro-implante» («Recupera braço após operação», João Carlos Malta, Correio da Manhã, 21.1.2010, p. 19).
      No âmbito do Acordo Ortográfico de 1945, com os antepositivos macro- e micro- nunca se usa, como já tive oportunidade de aqui afirmar, hífen. E o Correio da Manhã ainda não adoptou a nova ortografia — só tem uma (!) coluna escrita de acordo com as novas regras. Ainda nesse caso, estaria incorrecto, pois, segundo a Base XVI, 1.º, b) do Acordo Ortográfico de 1990, apenas se usa hífen «nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento: anti-ibérico, contra-almirante, infra-axilar, supra-auricular; arqui-irmandade, auto-observação, eletro-ótica, micro-onda, semi-interno». Assim, inequivocamente, microimplante. Como microinformática, microindústria, microincisão...

[Post 3047]

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