Ortografia: «ultramoderno»

Ultravida para estudar


      «Lenine identificara bem este aspecto das coisas, distinguindo cinco níveis (ou estruturas) económicos e sociais, entre, num dos extremos, o camponês sem terra, que continuava a servir-se de uma enxada de madeira, e, no outro extremo, os poderosos grupos industriais e financeiros ultra-modernos, de Moscovo ou Leninegrado» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 326).
      O prefixo ultra- liga-se por hífen ao elemento seguinte quando este começa por vogal, h, r ou s. Logo, ultramoderno.

[Post 3046]

Ortografia: «interclassista»

Sempre a somar


      «Tudo isto condenou à impotência o regime czarista que dispunha de uma base de apoio muito estreita, bem como as elites que representavam as classes médias e as alianças inter-classistas, e também o sistema multipartidário apenas em embrião, que tinha origem no desenvolvimento em curso no país desde os começos do século XX» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 324).
      O elemento de formação de palavras inter- é seguido de hífen quando o elemento imediato tem vida própria e começa por h ou ainda por um r que não se ligue foneticamente ao r anterior. Logo, interclassista. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista o adjectivo interclubista. De nada vale, porém, com tradutores e revisores que não consultam dicionários.

[Post 3045]

Uso do hífen com o prefixo contra- II

Contra factos


      «Trata-se de um cenário evidentemente contra-factual, e tudo o que podemos afirmar com segurança é que as guerras, não sendo embora as únicas causas determinantes, aceleram a derrocada dos regimes que não se mostram capazes de as vencer» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 323).
      Com o prefixo e elemento de formação contra-, já aqui o escrevi uma vez, só devemos usar hífen se a palavra seguinte começar por h, r, s ou vogal: contra-haste, contra-reacção, contra-senha, contra-almirante, contra-espião, contra-indicação, contra-ordem... E assim: contrabaixo, contraceptivo, contracheque, contradança, contradizer, contrafactual, contragolpe, contramão, contrapartida, contrapeso, contraponto, contrapropaganda, contraproposta, contraprova, contraveneno…

[Post 3044]

Tuitar/twittar

Assim não erram


      É uma moda, decerto, porque ligada à tecnologia, mas entretanto talvez fosse conveniente escrever sempre da mesma forma: «A segunda questão é: como funciona? António Eduardo Marques, autor do livro “Internet”, responde telegraficamente, como se estivesse a ‘twittar’: “Pense no e-mail. Imagine mensagens que só podem ter 140 caracteres. Imagine que as envia, toda a gente as lê. O Twitter é assim.” […] Para Glória Martins, 41 anos, a pessoa que mais ‘twita’ e mais seguidores tem em Portugal, este site representa uma “ferramenta prática” para a “escrita de improviso”» («Mais popular do que Obama», Carlos Abreu e Hugo Franco, Expresso, 24.12.2009, p. 17). Bem faz Ferreira Fernandes, que desde o primeiro momento aportuguesou o verbo: «Alguma importância deve ter, a prova é que a mãe de um miúdo com dois anos, numa casa com piscina está a tuitar 74 vezes sobre o assunto, capoeiras» («Mãe no Twitter: “O meu bebé afoga-se”», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 20.12.2009, p. 9).

[Post 3043]

Actualização no mesmo dia

      «É pena não traduzirem...», lamenta «um leitor assíduo sem conta Google», Nuno Salgado, que acrescenta: «Twitter vem de tweet (daí o pássaro no logótipo) e, em português, tuitar seria piar. O que remetia para umas associações curiosas como “perder o pio”, “ficar sem pio”, “nem piaste!”, etc.»

Léxico: «castanholas»

Porque fazem barulho?


      «A embarcação e o colete que tinha, bem como um remo do barco e castanholas (que servem para assinalar a mudança de direcção) foram encontradas por um pescador a três quilómetros do local do acidente» («Cai ao rio Paiva a fazer rafting», Ana Isabel Fonseca, Correio da Manhã, 17.1.2010, p. 15).
      Não encontrei esta acepção registada nem, observada a imagem das castanholas no Correio da Manhã, a etimologia permite explicar a designação. Talvez algum leitor possa esclarecer-nos.

[Post 3042]

Revisores dos jornais

Ora tomem


      O provedor do The Washington Post, Andrew Alexander, lamentou que o número de erros ortográficos tenha aumentado no jornal. Já no Verão tinha escrito sobre o mesmo assunto, atribuindo então o problema ao facto de o jornal ter dispensado 30 dos 75 revisores que tinha. Agora, os revisores que ficaram têm trabalho a mais. E chovem as cartas dos leitores que protestam. O que esperavam? Também entre nós há editoras que dispensam os revisores, mas o produto final, indigno de ostentar o nome de livro, vale menos que uma bosta de búfalo na Índia.


[Post 3041]

Ortografia: «semilegal»

E outra


      «Apesar de oficialmente reprovadas, essas actividades semi-legais tornaram-se rapidamente indispensáveis, porque desempenhavam um papel vital junto das empresas que abasteciam» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 404).
      Talvez o tradutor não tenha de saber (mas, nesta obra, figura na ficha técnica como revisor...), mas o revisor tem. O prefixo semi- liga-se por hífen ao elemento seguinte, quando este começa por h, i, r ou s. Logo, semilegal. Como semilíquido, semilouco, semilúnio...


[Post 3040]

Ortografia: «antidesperdício»

Mais uma


      «Uma outra fonte importante sobre o universo burocrático é a que devemos ao Comité de Controlo de Estado, que elaboraria, em 1966, uma panorâmica daquele, transmitindo-a a título de contributo à Comissão Anti-desperdício, dirigida por Bajbakov» (O Século Soviético, Moshe Lewin. Tradução de Miguel Serras Pereira e revisão de Miguel Serras Pereira e Sara Figueiredo. Lisboa: Campo da Comunicação, 2004, p. 389).
      Se eu já acho lamentável que se use o hífen mesmo quando, oficialmente, a designação o tem (vide Rede Europeia *Anti-pobreza), quanto mais nestes casos. O elemento anti- aglutina-se sempre com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s. Logo, antidesperdício, antidáctilo, antidemocracia, antidemocrata, antidemocrático...

[Post 3039]

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