Prefixo «super-»

Frio, frio...


      «O que queriam dizer é que o vidro é conhecido como um líquido super arrefecido» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 88). «Ao colocar a sua colher dentro da chávena e mexer, as camadas frias podem ser levadas até ao ponto de ebulição, ou mesmo acima, devido ao súbito contacto com as camadas superaquecidas» (idem, p. 142).
      Para a tradutora e a revisora, a regra parece ser altamente subjectiva, mas provavelmente relacionada com a temperatura... Erradíssimo: o prefixo super- só tem hífen a ligá-lo ao elemento seguinte se este começar por h ou r. Logo, superaquecido e superarrefecido.

[Post 3025]

Beta-carbono/betacarbono

Novamente


      «Esta mostrou que o nitreto de beta-carbono (beta-C3N4) estaria a um nível acima dos restantes» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 160).
      A propósito da grafia beta-aminóide, escrevia aqui o leitor Franco e Silva: «Quanto a alfa-, beta-, gama-, delta-, etc., consideramos a situação diferente: a palavra não representa exactamente um prefixo, mas a transcrição de uma letra grega, justificada pela dificuldade tipográfica de a escrever (e substituindo-a, pois, pelo seu nome, alternativamente). Isto é, pode equivalentemente escrever-se α, β, γ, etc., seguida de hífen e posteriormente qualquer outra palavra (comece por que letra comece, vogal ou consoante) desde que isso seja tipograficamente possível.
      Teríamos, assim, alfa-aminoácido, alfa-lactona, beta-aminóide, beta-caroteno, etc. (ou, alternativamente, β-aminoácido, β-lactona, β-aminóide, β-caroteno, etc. Embora este caso não seja focado no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves, nem no seu Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, é-o assim considerado no Aulete Digital.»
      Não é exactamente um prefixo — mas funciona como tal. Veja-se o que regista o Dicionário Houaiss a propósito de alfa-: «[alfa- como prefixo] é a letra inicial do alfabeto grego, como equivalente, numa ordinalidade, a 'primeiro'; quando se faz uso da letra propriamente dita, é ela seguida de hífen; quando, porém, sem rigor terminológico ou por frequência de uso corrente, se usa da palavra com seu significante escrito por extenso, este se aglutina ao elemento verbal seguinte, inclusive com ocorrências de crase ou sinalefa: alfaaglutinação/alfaglutinação;alfa-hemoglobina/alfa-emoglobina/alfemoglobina».
      É por razões gráficas, tão-somente, que se usa hífen se usarmos as letras gregas. Quando se usa a palavra por extenso, aglutinam-se os elementos. É o que eu faço e recomendo, com uma excepção: se o último carácter do primeiro elemento for o mesmo do primeiro carácter do segundo elemento, uso hífen. Neste caso, escreveria betacarbono. É esta também a opção do VOLP da Academia Brasileira de Letras.


[Post 3024]

Repetições

Deselegância


      «O relatório do falecimento do “rei da música pop” conclui assim que a morte de Jackson se deveu a uma “injecção intravenosa” que causou uma “intoxicação por Propofol”, a substância que provocou o ataque cardíaco que Jackson sofreu no dia 25 de Junho, sendo que foi Conrad Murray que deu ao cantor o anestésico referido» («Médico de Jackson vai ser acusado», DN/Global Notícias, 12.1.2010, p. 9).
      «Relatório do falecimento»? Bem, esqueçamos isto. O revisor antibrasileiro, lembram-se?, tinha uma sensibilidade especial para as repetições. Se lesse «sendo que foi Conrad Murray», ficava apopléctico. Pode muito bem ser idiomático, mas também é deselegante e aparvalhado. Sendo que foi, ele que é...

[Post 3023]

Léxico: «sensila»

Do latim científico

      «Os insectos têm um grande número de órgãos olfactivos formados por sensilas, que são pequenos cabelos modificados para sentirem o toque, odor, paladar, calor ou frio. Cada sensila é composta por apenas uma célula sensorial e uma fibra nervosa» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 78).
      É verdade que o Dicionário Houaiss não regista (caro Paulo Araujo...) o vocábulo, mas o modestíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora neste caso portou-se muito bem. Regista-o («órgão dos sentidos de constituição rudimentar, em especial, dos insectos») e ficamos a saber que vem do latim científico (há muitos latins...) sensilla. Não devia estar grafado em itálico.

[Post 3022]

Árctico/Ártico

Já não precisam de emendar


      Não escrevi eu já aqui que é muito raro encontrar correctamente grafados os topónimos Árctico e Antárctico? Nada mudou. Mais um exemplo: «Curiosamente, as pessoas que vivem nas regiões do Ártico, habitat dos ursos polares, dir-lhe-ão que isto é verdade, mas não existem provas» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 58).
      O Acordo Ortográfico de 1990 veio salvar esta gente, pois passará a escrever-se sem a consoante muda: Ártico. Mas o acordo não os irá salvar de todos os disparates.

[Post 3021]

Numeração

Em que ficamos?


      «Oito minutos após o início da ruptura da crosta terrestre no Haiti começaram a chegar ao outro lado do Atlântico os primeiros sinais de um sismo naquela ilha das Caraíbas, com as estações sísmicas dos Açores a registarem um evento de magnitude sete na escala de Richter. […] Essa equipa, de que fazia parte Paul Mann, do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas, dizia que aquele sistema de falhas tinha potencialidade para originar um sismo de magnitude 7,2 na escala de Richter» («Sismo pouco profundo explica destruição localizada», Teresa Firmino, Público, 14.1.2010, p. 6).
      No mesmo texto, a magnitude expressa em numeração arábica e por extenso? Jornalista, editor e revisor, todos distraídos...


[Post 3020]

Biliões/milhares de milhões

Isso é muito


      «A teoria do Big Bang sobre a criação do universo ocupa muitos volumes e algumas mentes mais avançadas, mas, em resumo, diz que o universo começou com toda a sua matéria, concentrada a uma densidade e temperatura muito elevadas, há cerca de quinze biliões de anos» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 15).
      A sério? O Prof. Carlos Fiolhais, e tem por companhia dezenas e dezenas de académicos em todo o mundo, dizem que foi há menos tempo: «Hoje sabemos que o Universo está em expansão e em arrefecimento, desde o seu início há cerca de 15 mil milhões de anos» («O Big Bang: em casa e via satélite», in De Rerum Natura, 21.06.2007, aqui).

[Post 3019]

«Mata-processos»


Mata-mata


      «Berlusconi esteve um mês ausente da política, mas mal regressou, levou aos deputados os seus projectos de lei para reformar a justiça. A primeira norma, baptizada pelos juízes como “lei mata-processos”, visa encurtar os prazos que as várias instâncias têm para tratar de cada processo. Se o prazo se esgotar, o julgamento morre» («Berlusconi propõe mais leis para contornar a justiça», Sofia Lorena, Público, 14.1.2010, p. 17).
      O Corriere de la Sera, por exemplo, titulava: «Pronto il decreto blocca-processi». Não é que bloccare seja matar, mas é uma boa tradução. Num certo jornal, nestas ocasiões, alguns revisores ficavam logo aflitos, não sabendo se deviam grafar com hífen se não...

[Post 3018]

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