Léxico: «sensila»

Do latim científico

      «Os insectos têm um grande número de órgãos olfactivos formados por sensilas, que são pequenos cabelos modificados para sentirem o toque, odor, paladar, calor ou frio. Cada sensila é composta por apenas uma célula sensorial e uma fibra nervosa» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 78).
      É verdade que o Dicionário Houaiss não regista (caro Paulo Araujo...) o vocábulo, mas o modestíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora neste caso portou-se muito bem. Regista-o («órgão dos sentidos de constituição rudimentar, em especial, dos insectos») e ficamos a saber que vem do latim científico (há muitos latins...) sensilla. Não devia estar grafado em itálico.

[Post 3022]

Árctico/Ártico

Já não precisam de emendar


      Não escrevi eu já aqui que é muito raro encontrar correctamente grafados os topónimos Árctico e Antárctico? Nada mudou. Mais um exemplo: «Curiosamente, as pessoas que vivem nas regiões do Ártico, habitat dos ursos polares, dir-lhe-ão que isto é verdade, mas não existem provas» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 58).
      O Acordo Ortográfico de 1990 veio salvar esta gente, pois passará a escrever-se sem a consoante muda: Ártico. Mas o acordo não os irá salvar de todos os disparates.

[Post 3021]

Numeração

Em que ficamos?


      «Oito minutos após o início da ruptura da crosta terrestre no Haiti começaram a chegar ao outro lado do Atlântico os primeiros sinais de um sismo naquela ilha das Caraíbas, com as estações sísmicas dos Açores a registarem um evento de magnitude sete na escala de Richter. […] Essa equipa, de que fazia parte Paul Mann, do Instituto de Geofísica da Universidade do Texas, dizia que aquele sistema de falhas tinha potencialidade para originar um sismo de magnitude 7,2 na escala de Richter» («Sismo pouco profundo explica destruição localizada», Teresa Firmino, Público, 14.1.2010, p. 6).
      No mesmo texto, a magnitude expressa em numeração arábica e por extenso? Jornalista, editor e revisor, todos distraídos...


[Post 3020]

Biliões/milhares de milhões

Isso é muito


      «A teoria do Big Bang sobre a criação do universo ocupa muitos volumes e algumas mentes mais avançadas, mas, em resumo, diz que o universo começou com toda a sua matéria, concentrada a uma densidade e temperatura muito elevadas, há cerca de quinze biliões de anos» (Quantas Ovelhas São Precisas para Fazer Uma Camisola?, Paul Heiney. Tradução de Alexandra Cardoso e revisão de Benedita Rolo. Lisboa: Academia do Livro, 2009, p. 15).
      A sério? O Prof. Carlos Fiolhais, e tem por companhia dezenas e dezenas de académicos em todo o mundo, dizem que foi há menos tempo: «Hoje sabemos que o Universo está em expansão e em arrefecimento, desde o seu início há cerca de 15 mil milhões de anos» («O Big Bang: em casa e via satélite», in De Rerum Natura, 21.06.2007, aqui).

[Post 3019]

«Mata-processos»


Mata-mata


      «Berlusconi esteve um mês ausente da política, mas mal regressou, levou aos deputados os seus projectos de lei para reformar a justiça. A primeira norma, baptizada pelos juízes como “lei mata-processos”, visa encurtar os prazos que as várias instâncias têm para tratar de cada processo. Se o prazo se esgotar, o julgamento morre» («Berlusconi propõe mais leis para contornar a justiça», Sofia Lorena, Público, 14.1.2010, p. 17).
      O Corriere de la Sera, por exemplo, titulava: «Pronto il decreto blocca-processi». Não é que bloccare seja matar, mas é uma boa tradução. Num certo jornal, nestas ocasiões, alguns revisores ficavam logo aflitos, não sabendo se deviam grafar com hífen se não...

[Post 3018]

Léxico: «piadético»

Tem piada


      «Aos primeiros telefonemas duns assessores governamentais mais ou menos exaltados ou piadéticos para comentadores e jornalistas, estranhou-se. Depois entranhou-se. Paulatinamente deixaram de discutir-se» («Primeiro estranha-se. Depois entranha-se», Helena Matos, Público, 14.1.2010, p. 37).
      Os Brasileiros, caro Paulo Araujo, desconhecem este vocábulo, que ostenta assim uns ares de conceito científico mas apenas significa o que tem piada; o que diz muitas piadas (e, nesta acepção, sinónimo de piadista, conhecido e usado no Brasil). São insondáveis os motivos que levam os dicionaristas a incluir uns vocábulos e a excluir outros.

[Post 3017]

Léxico: «egodistónico»

No médico


      De vez em quando, gosto de ler as Cartas à Directora do Público. Uma publicada hoje («Prioridades», p. 38), da autoria de António Carvalho, trouxe-me uma novidade lexical: «E depois, bem... e depois de tudo isto e porque é necessário continuar a cavalgar a onda do progresso e da modernidade, não admira que mais cedo ou mais tarde se comece a encharcar a praça pública com a incontornável discussão sobre os casamentos polígamos e a sua consequente legalização ou com a implementação de uma disciplina sobre orientação egodistónica logo a partir dos bancos do segundo ciclo do ensino básico... isto, porque é de pequenino que, mesmo não tendo dúvidas sobre a sua orientação sexual, os “putos” a poderão alterar por causa das consequências que a ela venham a estar associadas (sic)! Enfim: é Portugal no seu melhor!»
      Alguns dicionários médicos registam o termo, que vem do inglês egodystonic (ou ego-dystonic) e não significa mais que o que é incompatível ou inaceitável para o ego. No âmbito da psiquiatria, serve para descrever os elementos do comportamento, pensamentos, impulsos, mecanismos mentais e atitudes de uma pessoa que não são a norma do eu ou que são incongruentes com a personalidade global. Neste contexto, é comum ser relacionado com a homossexualidade. O antónimo de egodistónico é egossintónico.

[Post 3016]

Léxico: «campanilismo»

O sino da minha aldeia


      «Na verdade, os italianos são muitas vezes descritos como uma sociedade em “pequena escala”. Cada italiano faz questão de habitar mentalmente num tempo e espaço restrito. Há nisso toda uma atitude que alguns definem como campanilismo: quando a identidade cultural, social e política de cada um reside não na nação ou no Estado, mas na mesma igreja e no mesmo quarteirão por onde já transitaram gerações de famílias inteiras» («Os estrangeiros», Pedro Lomba, Público, 14.1.2010, p. 40).
      Os anglo-saxónicos queixam-se de que a palavra campanilismo não tem tradução para inglês, e não conseguem disfarçar. Nós, porém, podemos usá-la como se fosse português. Uma grande vantagem. Desta vez, o cronista esteve à altura da situação: usou a palavra como se fosse português (mas isso é hábito do Público) mas explicou-a. Os dicionários portugueses não registam a palavra, mas quase: falta-lhes o –ismo. Temos o termo campanil, que designa duas coisas: a liga de metais para sinos e o lugar alto para sinos. E é a sinos também — não é em vão que são ambas línguas novilatinas — que se refere a palavra italiana.
      Ainda assim, transcrevo uma explicação que encontrei na revista Penélope («Verflechtung» — Um Método para a Pesquisa, Exposição e Análise de Grupos Dominantes», Pedro de Brito, in Penélope, Fazer e Desfazer História, n.º 9/10, 1993, p. 237). «A comum origem geográfica, ao contrário das outras três categorias, é ignorada pelas ciências sociais. De facto não se trata de um tipo de relação mas, especialmente na Alta Idade Moderna, era causa a que se podia atribuir uma relação e também a base de recrutamento de grupos dominantes. Em instituições nas quais a transmissão hereditária de cargos se não verifica, como por exemplo a Igreja Católica, a comum origem geográfica desempenhava um papel importante. Os italianos inventaram para isso um vocábulo da mesma família de “nepotismo”: “campanilismo”»

[Post 3015]

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