Bom nome/bom-nome

Reputação


      «Ao defender que os McCann ocultaram o cadáver da filha que terá morrido no apartamento da Praia da Luz, na sequência de um acidente, este ex-investigador da PJ que liderou a investigação em Portimão ofende o seu bom-nome, consideram os McCann» («McCann enfrentam em tribunal polícia que os incriminou», Paula Torres de Carvalho, Público, 13.1.2010, p. 7).
      Sinónimo de boa reputação, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista com hífen: bom-nome.Dicionário Houaiss, com hífen regista-o como sinónimo do nome de duas plantas, pau-de-colher (Maytenus rígida) e fruta-de-pombo (Tapirira guianensis), e de um peixe, também conhecido por pirá (Malacanthus plumieri).
      Sim, senhor: parece uma unidade lexicalizada, mas não é assim que a maioria dos dicionários a registam.

[Post 3010]

Actualização em 19.4.2010

      Pelo menos na literatura não se lê com hífen: «Os Marshall têm tido uma actividade intensa nos tribunais, desde finais dos anos quarenta, a defender o seu bom nome com uma ferocidade bastante dispendiosa» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 415-16).



Léxico: «ciclogénese»

Perdido no Brasil


      «“Ciclogénese explosiva” é o termo aplicado pelo Instituto de Meteorologia para o que aconteceu na madrugada de 23 de Dezembro na região do Oeste e que explica, para a EDP, as 125 avarias em linhas de média tensão, os mais de 100 postes de rede de alta e média tensão partidos, os mais de 600 postos de baixa tensão partidos e os cerca de 120 quilómetros de linha de baixa tensão também destruídos» («O efeito de uma “ciclogénese explosiva”», Lurdes Ferreira, Público, 13.1.2010, p. 3).
      Quatro vezes a jornalista usou a palavra «ciclogénese» sem nunca explicar o seu significado, e o vocábulo não é propriamente auto-explicativo. O Dicionário Houaiss não o regista, ao contrário do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Brasil METEOROLOGIA processo de desenvolvimento ou intensificação de um ciclone». E o Houaiss não o regista!? Caro Paulo Araujo, trate do caso.

[Post 3009]

Português no Twitter

Estão loucos

      É notícia na edição de hoje do Público: «O Português é usado em 11 por cento das mensagens no Twitter e fica atrás apenas do Inglês, que é a língua mais frequente, com uns esmagadores 61 por cento do total. Em terceiro lugar está o Japonês (seis por cento) e em quarto surge o Espanhol (quatro por cento). Os números foram divulgados pela empresa americana Textwise, especializada em análise de conteúdos on-line, e correspondem a uma amostra de 8,9 milhões de mensagens. Destas, 22 por cento continham um endereço de Internet» («Português é a segunda língua mais usada no Twitter», 12.1.2010, p. 8).
      Não fosse tanta futilidade, pareciam — os que tuitam sem parar, mesmo com os filhos a morrerem ali ao lado — querer ser fiéis ao lema dominicano Contemplata aliis tradere (Comunicar aos outros aquilo que se contemplou).

[Post 3008]

Acordo ortográfico

Falaciosa comparação


      Era de esperar: José Mário Costa respondeu a algumas críticas (apesar da propalada articulação entre a blogosfera e a imprensa, somente a duas cartas de leitores e ao artigo de Francisco Miguel Valada) ao seu artigo no Público. O título já diz alguma coisa do que pretende demonstrar: «Ainda a falaciosa comparação entre o inglês e o português». Um ponto, o 3, nos interessa: «Para o inglês, não há uma autoridade para a língua, como são as academias para o francês, para o espanhol ou para o português (em Portugal e no Brasil)? A verdade é que ela é exercida na fixação também das suas normas gráficas, cuja padronização cabe aos grandes dicionários de referência, desde o de Samuel Johnson — publicado em 1755 — até aos dos nossos dias. É o caso do Oxford English Dictionary, fruto da intervenção de uma editora em íntima ligação com o mundo académico, que hoje incorpora as variantes ortográficas do inglês dos Estados Unidos» (12.1.2010, p. 29).
      Na falta dessa intervenção, como acontece em Portugal (e é um dos pontos da minha argumentação no debate que mantenho com o filósofo Desidério Murcho), terá de ser a lei a estabelecer a norma. Mesmo que, depois — naturalmente! —, pelas lacunas que esta apresente, ganhe legitimidade uma prática praeter legem, e, pelas contradições, mesmo contra legem. É o que se fez até hoje na vigência do Acordo Ortográfico de 1945.

[Post 3007]

Léxico: «vintão»

Se pegar


      «Frustrada, resignada e, pior do que tudo, despromovida, esta geração dos vintões nascidos ao longo dos anos 80 corre perigo» («A grande descida», Pedro Lomba, Público, 12.1.2010, p. 32).
      Se há trintões, quarentões, cinquentões, sessentões — não vem a calhar mal este vintões. Que nunca antes vi ser usado.

[Post 3006]

Falsas etimologias

Mais fraqueza


      Ontem, em declarações à imprensa, o advogado de defesa dos alegados etarras detidos em Torre de Moncorvo lançou a suspeita de que o homem teria sofrido maus tratos. Como está detido, facilmente se imagina por parte de quem. Já a senhora, esclareceu José Galamba, «foi tratada como uma senhora». Ainda perpassa por aqui a teoria do sexo fraco.
      Fez-me lembrar o Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas ou O Martelo das Feiticeiras), livro publicado em 1486 por inquisidores alemães. Nele, lia-se que a própria etimologia da palavra «fêmea» confirmava a fraqueza original da mulher: segundo eles, femina, em latim, reunia na sua formação as palavras fide e minus, ou seja, menos fé.

[Post 3005]

Léxico: «guiné-bissauense»



Porque não?


      Estamos habituados a ver os vocábulos guineense e guinéu, e muito mais aquele do que este, como os únicos gentílicos para as três Guinés. Contudo, acabo de rever um texto em que se lê: «Maria Buinen veio para participar na Maratona de Lisboa. A organização, contudo, inscreveu-a na minimaratona, ao lado de Rosa Mota. Juntas apresentaram aos Portugueses o projecto da ONG VIDA (Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento Africano) — www.vida.org.pt —, que recolhe fundos para construir 54 poços de água com bomba e beneficiar 85 mil guinéu-bissauenses.»

[Post 3004]

Tradução: «decoupling»

Em espanhol


      Com excepção do Jornal Económico, na imprensa, e em documentos académicos, não vejo o anglicismo decoupling ser usado em Portugal. Ainda assim, vale a pena estar a par do que recomenda a Fundéu — na ausência de uma entidade congénere em Portugal.
      «La Fundación del Español Urgente recomienda evitar el anglicismo decoupling en las informaciones económicas y usar en su lugar términos como desajuste o desconexión.
      En muchas noticias sobre el nuevo panorama económico internacional, se usa decoupling para referirse a un desajuste o una desconexión entre los mercados, por ejemplo, de las economías emergentes como Rusia, la India y Brasil con respecto de las consolidadas tradicionalmente, como la europea o la norteamericana.
      De este modo, es fácil encontrar en medios de comunicación y en declaraciones de analistas financieros frases como: “¿Es factible considerar un decoupling entre la demanda norteamericana y la de los países emergentes?” o “En los meses previos a la caída de Lehman Brothers y la profunda crisis posterior, los analistas intentaban ver un potencial decoupling”.
      La Fundéu BBVA recomienda que en casos como los citados se usen términos que existen en español, como desajuste, desconexión y se evite este anglicismo innecesario.»

[Post 3003]

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