Selecção vocabular

Durezas


      «Cinco comboios ficaram imobilizados na linha, que se estende durante cerca de 50km, grande parte dos quais no túnel construido [sic] sob as águas do Canal da Mancha» («Dezasseis horas de pesadelo para dois mil passageiros», Pedro Correia, Diário de Notícias, 20.12.2009, p. 27).
      Apesar da proximidade, de que já aqui dei conta, entre os conceitos de espaço e tempo, a preposição durante (com étimo no latino durans,antis, particípio presente de durare, «tornar duro, endurecer, durar, permanecer») usa-se somente referida a tempo: no espaço de; no tempo de; no decorrer de. Faz-me lembrar a tola embirração que a minha mulher tem pelo verso «amanhã é sempre longe demais», da canção homónima dos Rádio Macau, letra de Vítor Lindegaard. Será o mesmo Vítor Lindegaard do blogue, que recomendo, Travessa do Fala-Só?

[Post 2970]

Ortografia: «curto-circuitar»

Contacto acidental


      «“A neve entrou no sistema de ventilação e curtocircuitou o sistema eléctrico dos motores de tracção das locomotivas que se deslocam num túnel onde se faz sentir um calor bem forte. Os motores pararam e não houve maneira de os pôr a funcionar novamente”, declarou [Pascal] Sainson [director de operações do eurotúnel]» («Dezasseis horas de pesadelo para dois mil passageiros», Pedro Correia, Diário de Notícias, 20.12.2009, p. 27). Gralha ou convicção, caro Pedro Correia? Acha que de curto-circuito podia sair *curtocircuitar? Nem todos os dicionários registam o verbo curto-circuitar, mas o Dicionário Houaiss fá-lo.

[Post 2969]

«Prazo rápido»?


Sem gaze


      «— Esperamos que a FDA aprove a nossa nova aplicação farmacológica em 2005 — disse-me a directora clínica da Sention, quando o Dr. Epstein me encaminhou para a visitarmos. — É um prazo rapidíssimo» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 138). Já conhecíamos os pensos rápidos; ficamos agora a saber que também há *prazos rápidos.

[Post 2968]

Selecção vocabular

Animais pescados


      «A Capitania do Douro conclui, por volta desta hora, a remoção das principais manchas de pescado que deram à costa hoje nas praias de Vila Nova de Gaia. Vão ser enviadas amostras para análise no Parque Biológico de Gaia para determinar a origem do fenómeno. Pelo sim, pelo não, o comandante Fragoso Gouveia, da Capitania do Porto do Douro, pede para não se consumir o pescado que deu à costa» (Luís Ferreira, Antena 1, noticiário das 14 horas). O entrevistado, por sua vez, falou em «remover os animais da praia».
      «Pescado»? «Pescado» não é «tudo o que se pesca»? Os dicionários só registam que também é «qualquer peixe» porque o peixe normalmente nos chega aos pratos porque foi pescado. O étimo é o particípio latino piscātus. Também em espanhol pescado é «pez comestible sacado del agua por cualquiera de los procedimientos de pesca». Suspeito que o jornalista queria um colectivo (mas não precisava dele): tome-o. A sério, agarre-o lá: peixaria.

[Post 2967]

Ortografia: «beta-amilóide»

Fora dos dicionários?


      «[David] Schenk pensou também que, uma vez que o sistema de defesa natural do cérebro, a barreira sanguínea cerebral, não era perfeita e que um pequeno número de partículas indesejáveis estavam sempre a atravessar a fronteira, injectar o beta-amilóide no fluxo sanguíneo resultaria, eventualmente, num certo número de beta-amilóides a entrar no cérebro» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 146). Se escrevemos meta-análise, pois a norma permite-no-lo, também deveremos escrever beta-amilóide, pois claro.
      No Dicionário Inglês-Português de Termos Bioquímicos da Sociedade Portuguesa de Bioquímica (SPB), é também esta a grafia usada.

[Post 2966]


Actualização no mesmo dia


      O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, acabei de verificar agora, não regista beta-amilóide, apenas betaemissor. Também o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da mesma editora, regista betaemissor. Que o Dicionário Houaiss também regista, assim como a variante betemissor. Ora, eu também escrevo metainformação, pois, nestes casos, a última vogal do primeiro elemento é distinto da primeira vogal do segundo. A propósito, lembro-me agora que na obra que tenho vindo a citar nestes últimos dias se lê neuroimagístico: «Durante a última década, esta questão foi formulada através de uma série de estudos neuroimagísticos utilizando a TEP e a RM funcional...» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 94).

Acordo Ortográfico

Falta de vigor


      Cara T. A., não é isso que o Acordo Ortográfico de 1990 estatui, mas sim e bem diferente: «É facultativo assinalar com acento agudo as formas verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos, louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos, louvamos), já que o timbre da vogal tónica/tônica é aberto naquele caso em certas variantes do português» (Base IX, «Da acentuação gráfica das palavras paroxítonas», n.º 4). Juntamente com a dupla grafia, a facultividade é a grande fraqueza deste acordo. Por mim, continuarei a marcar graficamente a diferença, que, deixe-me corrigi-la, na escrita era, no âmbito do Acordo Ortográfico de 1945, de regra.
      Quanto à questão de estar em vigor ou não, respondo-lhe: em termos técnico-legais (os únicos que interessam, objectar-me-á), está. Contudo, em termos práticos, não é assim, pois vigor é actividade, funcionamento.

[Post 2965]

Anaptixe

Mais porquê?


      «Lashof incitava as pessoas — em particular, aquelas com proventos modestos e fixos — que se sentiam inclinadas a gastar o seu dinheiro em produtos como o ginkgo (próximo dos três mil milhões de dólares em 2005, só nos Estados Unidos), a pouparem-no para os inevitáveis dias nubelados de doença e debilidade, em que poderiam vir a necessitar de um médico, que poderia ter de passar uma receita para um medicamento legítimo e, embora ela não o tenha dito, dispendioso» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 171).
      Talvez na pronúncia possa ocorrer epêntese (metaplasmo por acréscimo que consiste em inserir-se fonema no meio de um vocábulo), ou anaptixe*, pois de uma vogal falamos, mas o fenómeno não se estende à forma escrita. Se o étimo é o latino nubĭlo, ās,āvi, ātum, āre, certo é que se fixou na língua por um fenómeno fonético contrário a esse. A pronúncia popular, em especial no português do Brasil, é que é pródiga neste fenómeno: mais por mas, veiz por vez, pineu por pneu...

[Post 2964]

* dífono aqui: /anapticse/.

«Porta a porta» II

Talvez por isso


      «Adams-pai acabou a vender fruta e legumes porta-a-porta, com uma carroça» («Gerry Adams. Entre guerra e paz», Courrier Internacional, Dezembro de 2009, n.º 166, p. 10). «Porta-a-porta»? Errado, e já aqui vimos porquê. De resto, esta publicação está mesmo a precisar de revisor (pela ficha técnica e pelo resto, não vejo que tenha). Só uma incongruência: «“Criticou abertamente a actuação do Governo durante os tumultos que se seguiram à eleição presidencial de Junho”, diz o site iraniano Mowjcamp.com. […] Em algumas horas, este estudante, conhecido apenas por ter ganho as Olimpíadas da Matemática no Irão, foi promovido a herói pela oposição. Segundo sítios reformistas, Mahmud foi preso pela polícia e libertado de seguida» («Destemido», Courrier Internacional, Dezembro de 2009, n.º 166, p. 8). O plural de site é «sítios»? Isto num mesmo artigo...

[Post 2963]

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