Tradução: «based»

Varie, por favor


      «O debate foi sempre marcado pela questão das cedências: seria Portugal que estava a fazer cedências ao Brasil ou vice-versa? Alguns artigos que saíram recentemente na imprensa estrangeira sobre o acordo fazem uma leitura simples. “O império contra-ataca”, descreve a Associated Press; e Eric Hewett, um linguista baseado em Roma citado pelo Times online, considera “extraordinário que uma potência colonial europeia mude a sua ortografia para se aproximar da de uma colónia”. Mas, conclui o mesmo artigo, foram a globalização e a Internet que tornaram a decisão “incontornável”» («Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação?», Alexandra Prado Coelho, Público, 30.12.2009, p. 3).
      Essa é uma perspectiva muito... inglesa. Também pouco portuguesa é a tendência desta jornalista para escrever sempre «baseado em» querendo significar «estabelecido em». O inglês a impor-se: «“It is really remarkable that a European colonial power changes its spelling to match that of a colony,” Eric Hewett, a Rome-based linguistics expert whose field of study focuses on the Basque language, says. “Normally, a European power insists that their version is correct, that the colonial speaker has an inferior grasp of their language.”»

[Post 2956]

Pronúncia de Lisboa

O lisboês é padrão

      «Margarita Correia é a responsável, no ILTEC, pelo projecto a que foi dado o nome de Vocabulário Ortográfico do Português. Faz parte do grupo restrito de pessoas que até agora pensaram na aplicação prática do Acordo Ortográfico. Como o fizeram? Em primeiro lugar definindo uma série de critérios que serão também tornados públicos. “O acordo remete muitas vezes para uma tradição, mas em lugar nenhum define qual é essa tradição. Por isso optámos por regularizar bastante a ortografia”. Em muitos casos isto significou tirar os hífens (de “cor-de-rosa”, por exemplo, que o acordo admitia com hífens referindo a “tradição”, ao mesmo tempo que deixava sem hífen “cor de vinho”). Quando a referência é a pronúncia optou-se por seguir a da região de Lisboa» («Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação?», Alexandra Prado Coelho, Público, 30.12.2009, p. 3).

[Post 2955]

«VOLP»

Falta pouco para o sabermos


      «Em Portugal há o risco de confusão, dado que tudo indica que possa haver três VOLP. Um já está editado, pela Porto Editora, e foi coordenado por Malaca Casteleiro. Outro está em preparação pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), será gratuito (foi apoiado pelo Fundo da Língua Portuguesa) e deverá estar disponível on-line no Portal da Língua Portuguesa a partir de 4 de Janeiro (150 mil palavras para já, enquanto um dicionário de nomes próprios, outro de gentílicos e topónimos e um conversor, e mais 50 mil palavras serão acrescentadas até Março). E um terceiro está a ser elaborado pela Academia das Ciências» («Aplicar a nova ortografia em 2010 é uma precipitação?», Alexandra Prado Coelho, Público, 30.12.2009, p. 3). E algo (a experiência?, o preconceito?) me diz que o gratuito será o melhor...

[Post 2954]

Disruptor, disrupção

Desliga


      É verdade que disruption vem do vocábulo latino disruptio,onis, mas isso pouco importa, pois mais de metade do léxico do inglês tem origem no latim. A verdade é que, como afirma Fernando Navarro, e a afirmação aplica-se inteiramente ao falante de português, «buena parte de los anglicismos que utilizamos ofrecen amplia información al lector u oyente de habla inglesa, pero escasa o nula al de habla española» («La terminología médica en español: ¿está enfermo el lenguaje médico?», in E. Ortega Arjonilla, M. A. García Peinado y otros (eds.), IV Simposio Internacional Traducción, Texto e Interferencias. El español, lengua de cultura, lengua de traducción, Almagro, 2005). O falante de espanhol estranha que o Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) não registe disrupción mas registe disruptivo. O falante de português estranhará que os nossos dicionários (sim, mesmo o Houaiss) registem disrupção mas não disruptivo. E mais: o DRAE regista como étimo de disruptivo o vocábulo inglês disruptive; os nossos dicionários apontam como étimo de disrupção o vocábulo latino disruptio,onis. E ainda que haja quem a disruptor endócrino (do inglês endocrine disrupter) prefira desregulador endócrino, a generalidade dos médicos usa e aconselharia, se alguém perguntasse, o desaconselhável anglicismo.

[Post 2953]

Maiúscula inicial

Maiusculiza-me, por favor!

      «Small convidou-a a voltar a entrar e falaram acerca da condução, mas apenas durante um minuto, porque Sharon se mostrou irredutível e petulante, para além de ter a sanção do estado» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 38). Li a frase uma vez e voltei a lê-la. O segmento «para além de ter a sanção do estado» escapava à minha compreensão. Sharon sofre de Alzheimer e o marido, Randall, queixava-se da condução dela, que ele considerava perigosa, mas «ela passara recentemente o seu exame de condução, havia pouco a fazer». Ainda pensei que o «estado» se referisse à doença, e só depois compreendi que se referia à nação organizada politicamente: ao Estado.

[Post 2952]

Tradução: «lab-dab»

Irreconhecível

Coração bom-bom
Nunca faz tum-tum
como qualquer um.
Prefere outro tom:
— Fon-fon
e em toda esquina
mais alto que a rima
coração buzina.

ALMIR CORREIA. Poemas Sapecas, Rimas Traquinas (Belo Horizonte: Formato, 1997)


      «Segui-a até uma sala permeada por um alto e constante lab-dab, o pulsar do coração da grande máquina [aparelho de ressonância magnética] bege que estava à minha frente e na qual em breve seria enfiada» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 29). A narradora enfiou depois um par de tampões de espuma nos ouvidos e pôs um par de protectores auditivos por cima, mas: «Mesmo assim, o lab-dab prevalecia.» Que diabo é isto, «lab-dab»? Talvez o coração dos Americanos bata assim, mas o meu faz (pelo menos a maior parte do tempo, pois já sofri de arritmias graves) tum-tum. Tum-tum! Pelos vistos, o coração (mesmo que o não partilhem...) do tradutor e da revisora não é português. E ainda dizem que somos todos iguais.

[Post 2951]

Remédio, medicamento e mezinha

Confusão

      «O único remédio eficaz para evitar a ressaca é não beber de todo ou beber moderadamente. O conselho, dado com humor, é do médico Martins Baptista, que todos os anos recebe vários casos de intoxicação nas urgências do hospital Pulido Valente, em Lisboa, devido aos excessos de fim de ano. É que os outros remédios, medicamentos ou tradicionais, têm pouco efeito e muitos são apenas mitos, garante» («Remédios não são capazes de evitar nem curar ressaca», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 28.12.2009, p. 13).
      Sim, senhor: remédio é hiperónimo de medicamento, ou seja, o seu significado é mais abrangente do que o do vocábulo «medicamento», seu hipónimo. Vale a pena demorarmo-nos nesta questão, porque há muita gente a afirmar o contrário. Já Fr. Domingos Vieira, no seu Grande Dicionário Português ou Tesouro da Língua Portuguesa, escreveu que «remédio tem um sentido mais amplo que medicamento. O remédio compreende tudo que é empregado para a cura de uma doença. […] O exercício pode ser um remédio, porém nunca é um medicamento». O problema no artigo do Diário de Notícias é que usa a mesma palavra (elidida!) para o hiperónimo e para o hipónimo: «remédio» e «(remédio) tradicional». Como ao remédio caseiro (mais que tradicional) se dá o nome de mezinha, era de todo conveniente que a jornalista tivesse escrito da seguinte forma: «É que os outros remédios, medicamentos ou mezinhas, têm pouco efeito e muitos são apenas mitos, garante.»

[Post 2950]

Tradução: «answerer»

Malcriados

      «De acordo com um inquérito, conduzido em 2002 para a Associação do Alzheimer, 95% dos respondedorespraticamente toda a gente — disseram que consideravam a doença de Alzheimer um problema sério e bem mais de metade — 64% — daqueles com idades entre os trinta e cinco e os quarenta e nove, os baby boomers, a minha geração, observaram que estavam preocupados em eles próprios virem a padecer de Alzheimer» (Já não Me Lembro do Que Esqueci, Sue Halpern. Tradução de Pedro Vidal da Silva e revisão de Lídia Freitas. Lisboa: Estrela Polar, 2009, p. 20). Em inglês já sabemos como é: answerer. E em português? Estamos habituados a ver nos dicionários que respondedor é aquele que costuma responder grosseiramente. O respingão. O respondão. Respondente é que é aquele que responde. O Dicionário Houaiss, porém, regista, para «respondedor», a acepção de aquele que responde. Uma solução é traduzirmos por inquirido. De contrário, temos esta coisa abstrusa: «De modo semelhante, quando a Fundação MetLife, em 2006, perguntou aos respondendores qual era a doença que tinham mais receio de vir a contrair, o cancro foi a primeira e a doença de Alzheimer, a segunda» (pp. 20-21).

[Post 2949]

Actualização em 24.1.2010

      «Contudo, em 7 de Abril último o Jornal de Negócios noticiava que 44% dos respondentes a um inquérito do IEFP dirigido aos utentes deste Instituto, [sic] declarou que a formação recebida “não contribuiu em nada para a obtenção do seu emprego”» (Conjunturas & Tendências, Glória Rebelo. Lisboa: Edições Sílabo, 2009, p. 89).


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