Pronúncia: «exogamia»

Mais uma silabada académica


      Mário Crespo, no Jornal das 9 da Sic Notícias, entrevistou longamente Duarte Santos, docente na Faculdade de Direito da Universidade de Macau e autor, e por este motivo foi entrevistado, da obra Mudam-se os Tempos, Mudam-se os Casamentos?, publicado pela Coimbra Editora, que é a versão publicada de uma tese de mestrado. A determinada altura, usou, por duas vezes, a palavra «exogamia» (casamento entre membros de diferentes grupos), pronunciando /egzogamia/. Errado. Tão errado como vimos, aqui, em relação a «exógeno».

[Post 2948]

Homófonas

Mais uma acha


      As autoridades norte-americanas contam que Abdul Mutallab tinha aparentemente um pacote de 15 centímetros de pó explosivo e uma seringa cozidos às cuecas, quando entrou no avião em Amesterdão, aonde chegara em trânsito a partir de Lagos» («Barack Obama vai rever regras para identificar suspeitos», Jorge Heitor, Público, 28.12.2009, p. 12). O pó, pentaeritritol ou outro qualquer, decerto que se pode cozer, já sobre a seringa tenho sérias dúvidas. Das cuecas não digo nada. Agora a sério: não parece uma gralha, é mais um erro muito comum. Homófonas, cozer e coser, podem deslustrar o melhor texto. Distracção? Nem sempre.


[Post 2947]

Ortografia: «bem-vestido»

Comparando


      «Antero Flores admite que, após as conversas com os três funcionários — “bem-vestidos e bem-falantes” — aceitou comprar acções do BCP. O que ficou registado na sua cabeça, e que é corroborado por familiares presentes no encontro, é que ele entrava com algum dinheiro (165 mil euros em saldo na sua conta à altura) e o banco entrava com outra parte» («Emigrante na África do Sul enfrenta BCP na justiça e ganha», Rosa Soares, Público, 28.12.2009, p. 14). Que eu saiba, só o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras regista bem-vestido. Também me parecer constituir uma unidade, daí o uso do hífen.


[Post 2946]

Sobre o Oeste

É menos vasto

     «Cinco dias depois do temporal que assolou o Oeste, a EDP ainda não tinha conseguido restabelecer a energia eléctrica em toda a região» («Cinco dias depois do temporal ainda havia casas sem electricidade no Oeste», A. H./T. N. com Lusa, Público, 28.12.2009, p. 19). Na Antena 1, já ouvi mais do que uma vez «no Oeste do País» querendo o jornalista referir-se ao Oeste. Ora, aquele é mais vasto do que este. Oeste é a designação que se costuma dar à região a poucos quilómetros da Grande Lisboa, constituída por doze municípios situados entre o oceano Atlântico e o maciço que se estende para norte a partir da serra de Montejunto. Quando ouço «no Oeste do País», não penso em Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço ou Torres Vedras — penso em toda a costa ocidental.

[Post 2945]

«Ítalo-»

Vejam lá isso


      «A italo-suíça Susana Maiolo, de 25 anos, que saltara uma barreira e se precipitara sobre Bento XVI, esteve num estabelecimento hospitalar, a ser submetida a exames psicológicos, e depois foi transferida para uma “estrutura protegida”, fora de Roma. Maiolo disse que “não queria fazer mal ao Santo Padre nem a ninguém”» («Segurança do Vaticano revista depois de incidente», Público, 27.12.2009, p. 13). Em quase toda a imprensa portuguesa, é isso que se lê, mas está mal: ítalo-suíça se deveria ter escrito. No Dicionário Houaiss lê-se: «ítalo-: antepositivo (seguido de hífen, donde a acentuação gráfica), do top. Itália, em compostos de tipo afro- (ver), cuja lógica lhe é totalmente aplicável; há ainda as alternativas ou var. itálico- e italiano-.» É esdrúxulo em português e era esdrúxulo em latim: itălus,a,um. Uma das grandes fontes do erro há-de ser o Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, pois que regista italo- como «elemento de formação de palavras que exprime a ideia de itálico e italiano», e ítalo como adjectivo e substantivo, sem deixar de recomendar que se escreva ítalo-etíope. No Departamento de Dicionários desta editora, ainda ninguém deu pela contradição — ou acham que não há contradição.


[Post 2944]

Espanholismo

Com licença


      «Um dos seus livros levou o título A Igreja com Rosto Humano. Esta pode ser uma ideia-síntese da sua vida, actividade e obra publicada. Foi um dos teólogos que mais influenciaram a doutrina de abertura do Concílio Vaticano II (1962-65), que procurou dessacralizar a estrutura da Igreja e se envolveu no seu aggiornamento. Edward Schillebeeckx, padre da Ordem dos Pregadores (dominicanos) e teólogo, morreu dia 23, antevéspera de Natal, em Nimega (Holanda), aos 95 anos» («O teólogo best-seller que quis pôr o catolicismo a falar com o mundo», António Marujo, Público, 27.12.2009, p. 13). «Levou o título»? Pode não ser, mas cheira-me a espanholismo. Parece-me o llevar na acepção tener, estar provisto de. A propósito, o étimo, é claro, é o mesmo, o latino levāre, que significava «levantar».
      Neste mesmo texto de António Marujo, também se lê: «No Vaticano II, o teólogo deixou a sua marca de água em dois documentos fundamentais: as constituições Dei Verbum, sobre a revelação divina, e Lumen Gentium.» Não seria melhor ter escrito somente «marca»? É que o vocábulo, nesta acepção, já é um sentido derivado: traço distintivo por que se reconhece alguém ou algo; estilo ou maneira pessoal. Para que é preciso a locução?

[Post 2943]

Elemento de composição «recém» (IV)

Por aí vamos


      Alguma vez saberemos quanta da evolução de uma língua se deve à simples ignorância? Não me parece. «E, no entanto, é entre estes jovens idênticos aos jovens de Barcelona, de Amesterdão ou Berlim — que não usam véu mas piercing, que bebem cerveja e falam inglês — que estão os maiores desiludidos com a União Europeia. “Vocês não nos querem”, diz Zeynab, uma recém-economista, “e inventam motivos para não entrarmos. Pessoalmente, acho que não vale a pena tentar mais.”» («Na terra de Jano», Rui Tavares, Público, 28.12.2009, p. 32).

[Post 2942]

Estado: uso da maiúscula

Por exemplo


      Mesmo que eu concordasse — e não concordo — que se escreva «Estado» com inicial minúscula quando seguido de «complemento toponímico»*, como se defende no Livro de Estilo do Público, o que vejo na prática do dia-a-dia é que nem sequer o próprio jornal segue a regra. Por outro lado, argumentemos, e se entre a palavra «Estado» e o «complemento toponímico» se intromete outra palavrinha? «Americano», por exemplo. A regra mantém-se? Aliás, todos conseguimos imaginar frases em que a palavra «Estado» está tão distante do «complemento toponímico» quanto nos apetecer. E, nesses casos, já não estarão seguidas.
      «O objectivo seria apelar ao nacionalismo mexicano — recordando tempos em que partes dos territórios que constituem os actuais estados americanos da Califórnia, do Oregon, do Novo México, do Texas, do Arizona, do Utah, do Colorado e do Wyoming pertenciam ao México» («Vodka Absolut retira anúncio com mapa da América do Norte em que o México ocupava o Sudoeste dos EUA», Pedro Ribeiro, Público, 10.4.2008, p. 23).
      «O jornal nigeriano This Day contou ontem que o velho banqueiro se iria reunir dentro de algumas horas com aqueles mesmos serviços. Enquanto isso, no Estado norte-americano do Michigan o suspeito terá de se explicar sobre a razão do seu acto, com o qual pouco mais conseguiu do que queimar-se a si próprio» («Nigeriano tentou deflagrar uma bomba em voo para Detroit», Jorge Heitor, Público, 27.12.2009, p. 10).
      Que a regra anda por aí, como tantas outras, mal interpretada, salta à vista, pois mesmo quando se não segue o complemento patronímico, continua a ser grafada com minúscula. Como no Diário de Notícias: «Eva Mendes manteve relações em todos os estados americanos» (Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 23.08.2008, p. 59).





* «3. Os substantivos que designam organização política ou social, como: condado, ducado, grão-ducado, principado, império, monarquia, nação, país, reino, república; ou que designam organização administrativa ou político-administrativa, como: aldeia, cantão, cidade, concelho, departamento, distrito, estado, freguesia, lugar, província, território, vila, etc., quando seguidos de complementos toponímicos: condado de Barcelona, estado de Nova Iorque, província do Ribatejo, concelho da Maia


[Post 2941]

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