Ortografia: «quibla»

Menos itálico

      «Acrescenta, ao PÚBLICO, Clinton Bennett: “A Mesquita de Maomé em Medina não tem minarete. Tecnicamente, só a qiblah [que aponta a direcção para Meca] é essencial numa mesquita. Os minaretes só começaram a aparecer há cerca de 100 anos, tal como as cúpulas» («Quando o apartheid religioso critica a islamofobia», Margarida Santos Lopes, Público, 26.12.2009, p. 2). Porque não aportuguesar, como se vê até noutros jornais? «Corresponde [Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção ou de Entrevinhas ou Entre-Ambas-as-Águas] a um espaço quadrangular de cinco naves perpendiculares à quibla, sendo a central mais larga» («A vergonha de Mértola», D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, Correio da Manhã, 25.09.2009).


[Post 2934]

Sobre «recambiar»

Tudo recambiado

      «Um tribunal da cidade holandesa de Utreque permitiu ontem que a adolescente Laura Dekker fique ao cuidado do pai, Dick, depois de ter sido recambiada para o país, na sequência da sua fuga, na semana passada, para as Antilhas, onde tencionava comprar um novo barco e partir para uma volta ao mundo sozinha» («Jovem velejadora holandesa fica ao cuidado do pai», Jorge Heitor, Público, 24.12.2009, p. 13). Bom verbo este, recambiar. Registado na língua, pela primeira vez, no início do século XVII, significava, originalmente, apenas devolver letra de câmbio por falta de pagamento ou de aceite. Por extensão de sentido, passou depois a significar também devolver ao lugar de origem, fazer regressar, acepção em que é usado no artigo.


[Post 2933]

Réu/arguido

Pobres leitores...

      Como é possível que um jornalista não domine os conceitos de «réu» e de «arguido»? «Pouco depois do meio-dia local de ontem (4h em Lisboa), um funcionário do tribunal contou que a audiência terminara; e o advogado do réu afirmou depois que a sentença deverá ser lida amanhã» («Dissidente chinês está a ser julgado em Pequim», Público, 24.12.2009, p. 13). Arguido em matéria penal, réu em matéria cível. No caso, tratava-se do julgamento do dissidente chinês Liu Xiaobo, acusado de incitamento à subversão do poder do Estado. Isto é matéria cível, senhor jornalista?


[Post 2932]

Tradução: «to release»

Soltar, desprender, largar

      «E há muito que se espera que o FBI liberte parte da investigação que foi feita à morte de Michael Jackson. Esse documento foi libertado esta manhã» (Eduarda Maio, noticiário da Antena 1 das 10 da manhã de ontem). Má tradução de to release. Leio no The Wall Street Journal: «The Federal Bureau of Investigation yesterday released its files on pop singer Michael Jackson in response to Freedom of Information Act requests.» No Público, por exemplo, lia-se: «O FBI revelou ontem vários documentos secretos relacionados com o cantor Michael Jackson, muitos deles acerca de uma investigação, em 1992, de um indivíduo que ameaçou matar a estrela do pop e o ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush.»

[Post 2931]

Pontuação e adjuntos adverbiais

Esperança vã

      «Há, isso sim, cargos especialmente difíceis e é verdade que poucos estarão à altura do seu exercício. Além disso, sabemos que, na Procuradoria, mesmo quem disponha das condições técnicas e intelectuais necessárias pode ver-se impedido de o exercer com sucesso, devido a pressões internas ou externas» («A maldição da Procuradoria», Pedro Lomba, Público, 24.12.2009, p. 32).
      Os adjuntos adverbiais e equivalentes só têm vírgula obrigatória se precederem o termo a que se referem: «Por causa do mau tempo, resolvi não sair de casa.»/« Resolvi não sair de casa por causa do mau tempo.» Claro que não devemos esperar que um simples cronista, que conhecerá a língua por «intuição», pontue correctamente, se nem os revisores sabem o que está em causa. Bom Natal.

[Post 2930]

Advérbio interrogativo

Porquê?     


      «Foi o gosto de mostrar as suas peças que a fez criar um blogue em 2001. Nessa altura, não tinha a intenção de começar a fazer este tipo de trabalho profissionalmente. “Mostrava as coisas naturalmente na Internet. As pessoas que viam o meu blogue é que começaram a dizer: ‘Ah, tão giro! Porque é que não vendes?’”» («Bonecos que começaram por ser desenhos de um blogue», Sara Picareta, Público, 23.12.2009, p. 20). «O que fica para reflexão é saber como interpretar o bailado mais ou menos caótico protagonizado pelos grandes actores mundiais, que está na base deste relativo fracasso político. Prevaleceu o G20 ou o G2? Por que é que a União Europeia pesou tão pouco?» («Depois de Copenhaga», editorial, Público, 23.12.2009, p. 30). Só acertam quando julgam errar.

[Post 2929]

Discurso dos futebolistas

Autenticidade controlada    


      Na cerimónia de entrega do Prémio Puskas, atribuído pela FIFA, Cristiano Ronaldo declarou: «Na verdade, eu não estava à espera de ganhar nada hoje, para ser sincero. Mas, para mim, é um orgulho receber este prémio. A meu ver, foi um grande golo, e no qual adorei ter marcado, como já referi muitas vezes. E, bom, estou muito feliz.» Sem o filtro da imprensa, o discurso de Cristiano Ronaldo é assim e não de uma limpidez e ultracorrecção invulgares, como vimos numa entrevista que deu ao jornal Público e que aqui referi (desmascarei). Há-de haver, e só é pena que os jornalistas ainda o não tenham encontrado, um meio-termo entre a forma atabalhoada, agramatical, como a maioria dos futebolistas se exprime e o discurso fluido, perfeito, concatenado que, por vezes, os jornais atribuem aos ídolos contemporâneos.


[Post 2928]

Acordo Ortográfico

Ortografia e elites

      Escreve Miguel Esteves Cardoso na sua crónica de hoje no Público: «Até que ponto é obrigatório o acordo ortográfico? Poderão multar ou prender quem não obedecer? A escritora e ministra Isabel Alçada já teve a coragem de dizer que não há pressa. Outros atropelam-se para adoptar a nova ortografia como se fartos da antiga. Regra geral, o acordo ortográfico é defendido por quem escreve mal, por muito que saiba de ortografia, mas desprezado por quem escreve bem e saiba alguma coisa de linguística. Vai haver uma ASAE para a ortografia? Palavra de honra, se alguma vez fez sentido a desobediência civil, na sua versão mais serena — pífia até — é com o acordo ortográfico. O que virá a seguir neste plano totalitário de unificação?» («Acordo, a tua avó», Público, 22.12.2009, p. 31).
      Miguel Esteves Cardoso não estará esquecido — decerto que é somente por imperativos humorísticos que o omite — de que escreve, e escrevemos, segundo as regras de um acordo ortográfico, tão obrigatório como não deseja que este agora seja mas é (ou irá ser, se entrar em vigor). Como já nascemos em plena vigência do Acordo Ortográfico de 1945, tendemos a esquecê-lo. Se o acordo entrar em vigor em 2012, em 2022 já ninguém apelará à desobediência civil. Mesmo a brincar. Por outro lado, ainda que o processo para se alcançar um acordo ortográfico fosse mais democrático, nunca o seria plenamente. Imaginemos que era constituída uma nova comissão, para a qual eram convidados ilustres contestatários, entre os quais Miguel Esteves Cardoso. Nunca a cozinheira do Restaurante Ribeirinha de Colares, que Miguel Esteves Cardoso talvez frequente, seria ouvida, e ela também é falante do português.

[Post 2927]

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