Réu/arguido

Pobres leitores...

      Como é possível que um jornalista não domine os conceitos de «réu» e de «arguido»? «Pouco depois do meio-dia local de ontem (4h em Lisboa), um funcionário do tribunal contou que a audiência terminara; e o advogado do réu afirmou depois que a sentença deverá ser lida amanhã» («Dissidente chinês está a ser julgado em Pequim», Público, 24.12.2009, p. 13). Arguido em matéria penal, réu em matéria cível. No caso, tratava-se do julgamento do dissidente chinês Liu Xiaobo, acusado de incitamento à subversão do poder do Estado. Isto é matéria cível, senhor jornalista?


[Post 2932]

Tradução: «to release»

Soltar, desprender, largar

      «E há muito que se espera que o FBI liberte parte da investigação que foi feita à morte de Michael Jackson. Esse documento foi libertado esta manhã» (Eduarda Maio, noticiário da Antena 1 das 10 da manhã de ontem). Má tradução de to release. Leio no The Wall Street Journal: «The Federal Bureau of Investigation yesterday released its files on pop singer Michael Jackson in response to Freedom of Information Act requests.» No Público, por exemplo, lia-se: «O FBI revelou ontem vários documentos secretos relacionados com o cantor Michael Jackson, muitos deles acerca de uma investigação, em 1992, de um indivíduo que ameaçou matar a estrela do pop e o ex-presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush.»

[Post 2931]

Pontuação e adjuntos adverbiais

Esperança vã

      «Há, isso sim, cargos especialmente difíceis e é verdade que poucos estarão à altura do seu exercício. Além disso, sabemos que, na Procuradoria, mesmo quem disponha das condições técnicas e intelectuais necessárias pode ver-se impedido de o exercer com sucesso, devido a pressões internas ou externas» («A maldição da Procuradoria», Pedro Lomba, Público, 24.12.2009, p. 32).
      Os adjuntos adverbiais e equivalentes só têm vírgula obrigatória se precederem o termo a que se referem: «Por causa do mau tempo, resolvi não sair de casa.»/« Resolvi não sair de casa por causa do mau tempo.» Claro que não devemos esperar que um simples cronista, que conhecerá a língua por «intuição», pontue correctamente, se nem os revisores sabem o que está em causa. Bom Natal.

[Post 2930]

Advérbio interrogativo

Porquê?     


      «Foi o gosto de mostrar as suas peças que a fez criar um blogue em 2001. Nessa altura, não tinha a intenção de começar a fazer este tipo de trabalho profissionalmente. “Mostrava as coisas naturalmente na Internet. As pessoas que viam o meu blogue é que começaram a dizer: ‘Ah, tão giro! Porque é que não vendes?’”» («Bonecos que começaram por ser desenhos de um blogue», Sara Picareta, Público, 23.12.2009, p. 20). «O que fica para reflexão é saber como interpretar o bailado mais ou menos caótico protagonizado pelos grandes actores mundiais, que está na base deste relativo fracasso político. Prevaleceu o G20 ou o G2? Por que é que a União Europeia pesou tão pouco?» («Depois de Copenhaga», editorial, Público, 23.12.2009, p. 30). Só acertam quando julgam errar.

[Post 2929]

Discurso dos futebolistas

Autenticidade controlada    


      Na cerimónia de entrega do Prémio Puskas, atribuído pela FIFA, Cristiano Ronaldo declarou: «Na verdade, eu não estava à espera de ganhar nada hoje, para ser sincero. Mas, para mim, é um orgulho receber este prémio. A meu ver, foi um grande golo, e no qual adorei ter marcado, como já referi muitas vezes. E, bom, estou muito feliz.» Sem o filtro da imprensa, o discurso de Cristiano Ronaldo é assim e não de uma limpidez e ultracorrecção invulgares, como vimos numa entrevista que deu ao jornal Público e que aqui referi (desmascarei). Há-de haver, e só é pena que os jornalistas ainda o não tenham encontrado, um meio-termo entre a forma atabalhoada, agramatical, como a maioria dos futebolistas se exprime e o discurso fluido, perfeito, concatenado que, por vezes, os jornais atribuem aos ídolos contemporâneos.


[Post 2928]

Acordo Ortográfico

Ortografia e elites

      Escreve Miguel Esteves Cardoso na sua crónica de hoje no Público: «Até que ponto é obrigatório o acordo ortográfico? Poderão multar ou prender quem não obedecer? A escritora e ministra Isabel Alçada já teve a coragem de dizer que não há pressa. Outros atropelam-se para adoptar a nova ortografia como se fartos da antiga. Regra geral, o acordo ortográfico é defendido por quem escreve mal, por muito que saiba de ortografia, mas desprezado por quem escreve bem e saiba alguma coisa de linguística. Vai haver uma ASAE para a ortografia? Palavra de honra, se alguma vez fez sentido a desobediência civil, na sua versão mais serena — pífia até — é com o acordo ortográfico. O que virá a seguir neste plano totalitário de unificação?» («Acordo, a tua avó», Público, 22.12.2009, p. 31).
      Miguel Esteves Cardoso não estará esquecido — decerto que é somente por imperativos humorísticos que o omite — de que escreve, e escrevemos, segundo as regras de um acordo ortográfico, tão obrigatório como não deseja que este agora seja mas é (ou irá ser, se entrar em vigor). Como já nascemos em plena vigência do Acordo Ortográfico de 1945, tendemos a esquecê-lo. Se o acordo entrar em vigor em 2012, em 2022 já ninguém apelará à desobediência civil. Mesmo a brincar. Por outro lado, ainda que o processo para se alcançar um acordo ortográfico fosse mais democrático, nunca o seria plenamente. Imaginemos que era constituída uma nova comissão, para a qual eram convidados ilustres contestatários, entre os quais Miguel Esteves Cardoso. Nunca a cozinheira do Restaurante Ribeirinha de Colares, que Miguel Esteves Cardoso talvez frequente, seria ouvida, e ela também é falante do português.

[Post 2927]

Pontuação

Antes que seja tarde

      «Parece-me por isso exemplar o caso relatado pelo PÚBLICO no domingo passado em que o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu não levar a julgamento o jornalista do Açoreano Oriental, Estêvão Gago da Câmara, processado por difamação pelo deputado socialista Ricardo» («Uma imprensa robusta e desinibida», Pedro Lomba, Público, 22.12.2009, p. 32).
      Este cronista precisa de rever urgentemente as regras da pontuação. A pontuação que usou só estaria correcta se Estêvão Gago da Câmara fosse o único jornalista do Açoreano Oriental. Não é. Ainda ontem Fernando Mora Ramos, no artigo que aqui citei, escreveu: «E às perguntas “Como nasce um analfabeto?”, “Quando é que começa a sê-lo?”, Tullio di [sic] Mauro, o pai dos estudos linguísticos italianos, diz: “O facilitismo dos docentes provocou danos enormes, promovendo todos e não barrando o caminho a quem não está à altura. Mas o desprezo da língua italiana está também em certos romances de novos autores, cheios de palavrões e abreviaturas, e na linguagem cada vez mais desleixada dos jornais, de onde quase desapareceu a riqueza da pontuação”.»

[Post 2926]

Iliteracia

E cá?

      «Segundo dados do Centro Europeu de Educação [CEE]», escreve hoje no Público o encenador Fernando Mora Ramos, «oito por cento dos licenciados não consegue na Itália usar a escrita convenientemente. Em Portugal, qual será a percentagem? Será sequer possível vir a saber? Mais grave do que isso, 21 licenciados em 100 não atingem o nível mínimo de decifração de um texto. O mais longe que vão, lendo instruções de uma bula, é intuir as contra-indicações da aspirina. Mas não mais. E acrescenta o estudo: um licenciado em cinco não é capaz de resolver uma ambiguidade lexical e os cem livros que tem em casa serviram-lhe apenas para tirar o diploma» («Por que é que não tenho aulas de Português?», Público, 21.12.2009, p. 31).

[Post 2925]

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