Tradução: «tutor dative»

Demasiado fácil

      No episódio de hoje, o 424 (desculpem não ter falado dos outros 423) de A Juíza, no canal Sony, Amy, que é juíza no Tribunal de Família de Hartford, Connecticut, ameaça um casal que se está a divorciar de atribuir um tutor dative à filha de ambos. O tradutor entendeu que deveria verter por tutor dativo. Fácil. Mas estará correcto? Nunca vi que o nosso Direito da Família tivesse esta figura do «tutor dativo». A expressão sim, está correcta. Está registada em alguns dicionários modernos, como o estava, por exemplo, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Morais Silva: «Dativo, adj. Dado pelo magistrado: v. g. tutela dativa, oposta à legítima, que é instituída pela lei, ou a testamentária, por testamento. Orden. 3. 43. 5. tutor dativo.» Exactamente, nas Ordenações Filipinas, por exemplo, vamos encontrar o tutor dativo, também chamado tutor atiliano, pois provinha já do Direito romano e, concretamente, da Lei Atília (186 a. C.). Solução: eu traduziria apenas por tutor.

[Post 2918]

Ortografia: «Transara»


Muita areia

      Todas as (poucas) vezes que vi referências à Trans-Sahara Contraterrorism Initiative (TSCTI), a tentativa de aportuguesamento era sempre incorrecta: Iniciativa Contraterrorista para o Trans-Sara. Ó inteligências supremas, como é que é *Trans-Sara se se escreve, por exemplo, «transiberiano», não me explicam? Se trans-+siberiano dá «transiberiano», trans-+Sara só pode dar Transara.


[Post 2917]

Ortografia: «Crixna»

Tudo português

      Já estávamos habituados a ver Vixnu e Xiva, mas não Crixna. Abaixo Vishnu, Shiva e Krishna! «Os irmãos Pandava escaparam ao ataque, porque Crixna os aconselhara a dormirem fora do acampamento nessa noite, mas a maior parte da sua família — incluindo as crianças — foi chacinada» (Grandes Tradições Religiosas, Karen Armstrong. Tradução de Maria Eduarda Correia e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 309).

[Post 2916]

Ortografia: «preexistente»

Falha ortográfica

      «Falhas tectónicas activas não faltam naquela zona — como a Ferradura, a sul do epicentro do sismo, ou a do Marquês de Pombal, a noroeste. Mas é prematuro associar uma destas falhas ao sismo, que teve uma certa profundidade. “Pode haver uma falha pré-existente em profundidade e não haver vestígios à superfície. Esta zona é de grande complexidade tectónica”, diz Fernando Carrilho» («E se o sismo de ontem tivesse sido em terra?», Teresa Firmino, Público, 18.12.2009, p. 6). Preexistente já vem do latim, e é assim que se deve escrever este vocábulo, tal como preexistência, preexistencialismo e preexistir.

[Post 2915]

Tradução: «judgment»

In my judgement     


      «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que penso existir em inglês mas não em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso» («Governar e influenciar», Pedro Lomba, Público, 17.12.2009, p. 40). Ou judgement. Sim, significa discernimento; espírito crítico; bom senso. Mas a frase está mal redigida. O cronista deveria ter escrito: «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que existe em inglês mas não, ao que julgo, em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso.» Tal como escreveu, o significado é outro. E mais: por mais intraduzível que lhe pareça, nunca fica por traduzir em nenhuma tradução. Pode ser, consoante o contexto, traduzido por juízo, diagnóstico, julgamento, sentença, critério, parecer, opinião, e um largo etc., incluindo essa «forma distintiva de juízo e bom-senso».
      *Bom-senso, com hífen, só o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras regista.

[Post 2914]

Pronúncia: «exógeno»

Uma consulta gratuita

      «As diferenças [Sócrates maioritário vs. Sócrates minoritário] podem acontecer por duas vias: pela via endógena e pela via exógena» (Carlos Amaral Dias, Alma Nostra, Antena 1, 8.12.2009). São ambos, exógeno e endógeno, vocábulos do léxico do psicanalista Carlos Amaral Dias, o que não é de estranhar. O que já é de estranhar, parece ser particularidade do seu idiolecto, é a forma como pronuncia o vocábulo «exógeno»: realiza o x como um dífono, /cs/, coisa que aquele grafema não vale aqui. Uma vez que o programa é apresentado como «uma conversa solta que faz um voo rasante sobre o Mundo com um olhar português e explora as subtilezas da nossa língua», não se importarão que eu, ouvinte, as explore, às subtilezas.

[Post 2913]

Léxico: «deve-haver»

Deve haver um erro

      «No balanço do “deve e haver” climático ditado pelo Protocolo de Quioto, Portugal deverá terminar 2009 com um excesso de 4,12 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) em relação às metas estabelecidas para o período de cumprimento de 2008-2012. Esta derrapagem representa um desvio de 5,4 por cento, cujos responsáveis principais são a indústria da energia e os transportes» («Portugal ultrapassou metas de Quioto em 5,4 por cento», Helena Geraldes, Público, 15.12.2009, p. 3). Tenho lido e ouvido vezes sem conta desta forma, *deve e haver. Bem, mas os dicionários registam deve-haver há muito tempo. É a minha prenda de Natal para a jornalista Helena Geraldes.

[Post 2912]

Pluralização dos antropónimos

Cinco estrelas

      Há dias, um leitor, também ele revisor e tradutor, escreveu-me a lamentar-se por ver que se está a abandonar a pluralização de antropónimos estrangeiros. Confessou que um dos últimos casos lhe estragou o almoço. Bem, não só antropónimos estrangeiros, também com portugueses se deve observar a mesma regra. Mas há bons exemplos. Na última Pública, foi publicada uma entrevista a José Avillez, chefe do Tavares a quem foi atribuída uma estrela Michelin. À pergunta sobre se o apelido Avillez era do pai ou da mãe, respondeu: «Da mãe. Eu sou Ereira. Tenho 20 primos direitos Avillezes. No râguebi, nos escuteiros, nem me tratavam por Zé. Era o Avillez. Fiquei o Avillez. Agora, o meu filho vai nascer e vou ressuscitar um José Ereira. Do lado do meu pai morreu toda a gente. Os tios, os avós; só tenho dois primos. O meu filho vai ser Zezinho Ereira» («No dia seguinte, a minha ideia era: “Vamos trabalhar para a segunda estrela Michelin”», Anabela Mota Ribeiro, 13.12.2009, p. 33). Vejam se ele disse *os Avillez. É o disse.

[Post 2911]

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