Ortografia: «Crixna»

Tudo português

      Já estávamos habituados a ver Vixnu e Xiva, mas não Crixna. Abaixo Vishnu, Shiva e Krishna! «Os irmãos Pandava escaparam ao ataque, porque Crixna os aconselhara a dormirem fora do acampamento nessa noite, mas a maior parte da sua família — incluindo as crianças — foi chacinada» (Grandes Tradições Religiosas, Karen Armstrong. Tradução de Maria Eduarda Correia e revisão de Pedro Ernesto Ferreira. Lisboa: Temas e Debates, 2009, p. 309).

[Post 2916]

Ortografia: «preexistente»

Falha ortográfica

      «Falhas tectónicas activas não faltam naquela zona — como a Ferradura, a sul do epicentro do sismo, ou a do Marquês de Pombal, a noroeste. Mas é prematuro associar uma destas falhas ao sismo, que teve uma certa profundidade. “Pode haver uma falha pré-existente em profundidade e não haver vestígios à superfície. Esta zona é de grande complexidade tectónica”, diz Fernando Carrilho» («E se o sismo de ontem tivesse sido em terra?», Teresa Firmino, Público, 18.12.2009, p. 6). Preexistente já vem do latim, e é assim que se deve escrever este vocábulo, tal como preexistência, preexistencialismo e preexistir.

[Post 2915]

Tradução: «judgment»

In my judgement     


      «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que penso existir em inglês mas não em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso» («Governar e influenciar», Pedro Lomba, Público, 17.12.2009, p. 40). Ou judgement. Sim, significa discernimento; espírito crítico; bom senso. Mas a frase está mal redigida. O cronista deveria ter escrito: «Não se trata obviamente de poder absoluto ou prepotência, mas de outras qualidades “morais” como espírito de decisão, clareza e uma palavra que existe em inglês mas não, ao que julgo, em português: judgment, que pode significar uma forma distintiva de juízo e bom-senso.» Tal como escreveu, o significado é outro. E mais: por mais intraduzível que lhe pareça, nunca fica por traduzir em nenhuma tradução. Pode ser, consoante o contexto, traduzido por juízo, diagnóstico, julgamento, sentença, critério, parecer, opinião, e um largo etc., incluindo essa «forma distintiva de juízo e bom-senso».
      *Bom-senso, com hífen, só o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras regista.

[Post 2914]

Pronúncia: «exógeno»

Uma consulta gratuita

      «As diferenças [Sócrates maioritário vs. Sócrates minoritário] podem acontecer por duas vias: pela via endógena e pela via exógena» (Carlos Amaral Dias, Alma Nostra, Antena 1, 8.12.2009). São ambos, exógeno e endógeno, vocábulos do léxico do psicanalista Carlos Amaral Dias, o que não é de estranhar. O que já é de estranhar, parece ser particularidade do seu idiolecto, é a forma como pronuncia o vocábulo «exógeno»: realiza o x como um dífono, /cs/, coisa que aquele grafema não vale aqui. Uma vez que o programa é apresentado como «uma conversa solta que faz um voo rasante sobre o Mundo com um olhar português e explora as subtilezas da nossa língua», não se importarão que eu, ouvinte, as explore, às subtilezas.

[Post 2913]

Léxico: «deve-haver»

Deve haver um erro

      «No balanço do “deve e haver” climático ditado pelo Protocolo de Quioto, Portugal deverá terminar 2009 com um excesso de 4,12 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e) em relação às metas estabelecidas para o período de cumprimento de 2008-2012. Esta derrapagem representa um desvio de 5,4 por cento, cujos responsáveis principais são a indústria da energia e os transportes» («Portugal ultrapassou metas de Quioto em 5,4 por cento», Helena Geraldes, Público, 15.12.2009, p. 3). Tenho lido e ouvido vezes sem conta desta forma, *deve e haver. Bem, mas os dicionários registam deve-haver há muito tempo. É a minha prenda de Natal para a jornalista Helena Geraldes.

[Post 2912]

Pluralização dos antropónimos

Cinco estrelas

      Há dias, um leitor, também ele revisor e tradutor, escreveu-me a lamentar-se por ver que se está a abandonar a pluralização de antropónimos estrangeiros. Confessou que um dos últimos casos lhe estragou o almoço. Bem, não só antropónimos estrangeiros, também com portugueses se deve observar a mesma regra. Mas há bons exemplos. Na última Pública, foi publicada uma entrevista a José Avillez, chefe do Tavares a quem foi atribuída uma estrela Michelin. À pergunta sobre se o apelido Avillez era do pai ou da mãe, respondeu: «Da mãe. Eu sou Ereira. Tenho 20 primos direitos Avillezes. No râguebi, nos escuteiros, nem me tratavam por Zé. Era o Avillez. Fiquei o Avillez. Agora, o meu filho vai nascer e vou ressuscitar um José Ereira. Do lado do meu pai morreu toda a gente. Os tios, os avós; só tenho dois primos. O meu filho vai ser Zezinho Ereira» («No dia seguinte, a minha ideia era: “Vamos trabalhar para a segunda estrela Michelin”», Anabela Mota Ribeiro, 13.12.2009, p. 33). Vejam se ele disse *os Avillez. É o disse.

[Post 2911]

Ortografia: «patoá»

Desleixo

      «É por isso que o seu grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau — algo como “Doce língua (ou conversa) de Macau” — é uma espécie de reservatório de uma herança. Dos cerca de dez mil macaenses, apenas um milhar fala patuá, “mas não o tradicional”, ressalva [Miguel Senna Fernandes]» («Esta terra é nossa», Francisca Gorjão Henriques, Pública, 13.12.2009, p. 26). É uma precaução mínima que vou aconselhando: quando usamos palavras que não são de todos os dias (e mesmo estas, depende), convém consultar um dicionário. Patuá existe, sim senhor, mas é uma palavra que vem do tupi e com que se designa o cesto onde os índios, no Brasil, guardam as redes. É isto que queria dizer, Francisca Gorjão Henriques? É que o escreveu cinco vezes. Claro que não: é patoá, um parónimo. Patoá é o nome que se dá ao dialecto de qualquer idioma, e especificamente ao crioulo de Macau. É o aportuguesamento da palavra francesa patois. Segundo Rafael Ávila de Azevedo (A Influência da Cultura Portuguesa em Macau. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Colecção «Biblioteca Breve», 1984, p. 39), a mais antiga referência que existe sobre o patoá de Macau deve-se a um autor chinês, Tcheng Ulam, no século XVIII.

[Post 2910]

Actualização em 18.04.2010

      Erro que, espantosamente, também aparece em livros: «Mas eu insisti e então voltaram os batimentos ritmados e metálicos e, sobre eles, um canto de barítono em patuá das Caraíbas, com uma letra de canção infantil ou uma lengalenga para saltar à corda num recreio» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 47).

Ortografia: «pinha-mansa»

GNR, obrigado

      «A GNR apreendeu, domingo, em Marinhais, Salvaterra de Magos, cinco mil quilos de pinhas-mansas que se destinavam a comercialização, disse ontem fonte da GNR. Aquela força policial refere que os militares do posto de Marinhais identificaram um homem por armazenamento de pinhas-mansas fora do período permitido por lei. A colheita, transporte e armazenamento de pinhas da espécie Pinus pinea (pinheiro-manso) é interdita entre 1 de Abril e 15 de Dezembro» («Cinco mil quilos de pinhas-mansas apreendidas», Público, 15.12.2009, p. 26). Embora ainda de forma inconsistente, a grafia dos nomes das espécies botânicas e zoológicas na imprensa vai sendo esta, o que só tem fundamento no uso.

[Post 2909]

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