Ortografia: «patoá»

Desleixo

      «É por isso que o seu grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau — algo como “Doce língua (ou conversa) de Macau” — é uma espécie de reservatório de uma herança. Dos cerca de dez mil macaenses, apenas um milhar fala patuá, “mas não o tradicional”, ressalva [Miguel Senna Fernandes]» («Esta terra é nossa», Francisca Gorjão Henriques, Pública, 13.12.2009, p. 26). É uma precaução mínima que vou aconselhando: quando usamos palavras que não são de todos os dias (e mesmo estas, depende), convém consultar um dicionário. Patuá existe, sim senhor, mas é uma palavra que vem do tupi e com que se designa o cesto onde os índios, no Brasil, guardam as redes. É isto que queria dizer, Francisca Gorjão Henriques? É que o escreveu cinco vezes. Claro que não: é patoá, um parónimo. Patoá é o nome que se dá ao dialecto de qualquer idioma, e especificamente ao crioulo de Macau. É o aportuguesamento da palavra francesa patois. Segundo Rafael Ávila de Azevedo (A Influência da Cultura Portuguesa em Macau. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Colecção «Biblioteca Breve», 1984, p. 39), a mais antiga referência que existe sobre o patoá de Macau deve-se a um autor chinês, Tcheng Ulam, no século XVIII.

[Post 2910]

Actualização em 18.04.2010

      Erro que, espantosamente, também aparece em livros: «Mas eu insisti e então voltaram os batimentos ritmados e metálicos e, sobre eles, um canto de barítono em patuá das Caraíbas, com uma letra de canção infantil ou uma lengalenga para saltar à corda num recreio» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 47).

Ortografia: «pinha-mansa»

GNR, obrigado

      «A GNR apreendeu, domingo, em Marinhais, Salvaterra de Magos, cinco mil quilos de pinhas-mansas que se destinavam a comercialização, disse ontem fonte da GNR. Aquela força policial refere que os militares do posto de Marinhais identificaram um homem por armazenamento de pinhas-mansas fora do período permitido por lei. A colheita, transporte e armazenamento de pinhas da espécie Pinus pinea (pinheiro-manso) é interdita entre 1 de Abril e 15 de Dezembro» («Cinco mil quilos de pinhas-mansas apreendidas», Público, 15.12.2009, p. 26). Embora ainda de forma inconsistente, a grafia dos nomes das espécies botânicas e zoológicas na imprensa vai sendo esta, o que só tem fundamento no uso.

[Post 2909]

Léxico: «visgo»

Obrigado, GNR

      «A GNR de Vila Franca de Xira deteve, no domingo, dois indivíduos, de 16 e 46 anos, que se dedicavam à captura de aves de espécies cuja caça é proibida, com o auxílio de cola colocada num ramo (feita à base de visgo) e de um chamariz montado com outro pássaro preso dentro de uma gaiola. Esta actividade é proibida por lei e pode ser punida com pena de prisão até seis meses ou multa até 100 dias. Em poder dos detidos estavam 33 aves, mais de metade das quais pintassilgos» («GNR detém dupla que capturava aves com recurso a cola», J. T., Público, 15.12.2009, p. 26). No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o verbete «visgo» remete para «visco», supomos (não há nenhuma indicação) que por visgo ter surgido na língua por via popular, a partir do vocábulo latino viscum, i. Os Romanos tinham o adágio Viscum fugiens avis in laqueos incidit, isto é, O pássaro, ao fugir do visgo, caiu no laço.

[Post 2908]

«Crise doméstica»?

Mais uma tacada

      «Quando sobre Obama já pesavam expectativas excessivas de resolver a crise doméstica num ápice, só lhe faltava mesmo era receber do comité Nobel um prémio de incentivo, não tanto por aquilo que ele realizou na sua política externa, mas por ter rompido com a diplomacia unilateral do antecessor» («Ideais imperfeitos», Pedro Lomba, Público, 15.12.2009, p. 40). Eu pensava que o golfista Tiger Woods é que tinha uma crise doméstica, e não Barack Obama.

[Post 2907]

Tradução: «blackout»

Sem comentários

      «Ontem vi», escreve-me um leitor, «uma série televisiva no canal AXN em que, sistematicamente, a tradução optou por usar a palavra “desmaio” quando os actores pronunciavam blackout. Sim, pode acreditar! Sempre que falavam do apagão global que uma determinada experiência científica provocara no mundo inteiro, as legendas insistiam em “desmaio global”... Queria mandar-lhe esta denúncia logo em cima do acontecimento mas não tinha acesso ao correio electrónico na hora. Os termos brasileiros [este com etimologia no espanhol platense apagón, com o mesmo significado], tão expressivos, são evitados por estes tradutores por serem brasileiros? Até podiam optar por “escuridão”!»

[Post 2906
]

Ortografia: «sociopolítico»

Algumas incertezas


      Cara Luísa Pinto: como pode ver a seguir, para lá de algumas incertezas (socio- é de natureza adjectival ou substantiva?), a maioria dos estudiosos considera que se deve escrever sociopolítico, sem hífen, como eu faço.
      «Nos vocábulos socioeconômico e sociopolítico faz-se referência, portanto, à sociedade (no sentido de relações sociais), ao mesmo tempo destacando-se, por razões de detalhamento descritivo e analítico, uma de suas dimensões. Não há, por conseguinte, verdadeira individualidade semântico morfológica. Pela lógica conceitual, teórica e epistemológica, justifica-se plenamente a ausência de hífen» («Em torno de um hífen», Marcelo Lopes de Souza, Revista Formação, n.º 15, volume 1, p. 160).
      «Prefiro seguir a lição de meu mestre Celso Pedro Luft, que advogava o uso do hífen em todos esses casos de [adjetivo + adjetivo], em que o primeiro sofre redução. Como eu já tive a oportunidade de explicar no artigo sobre Tele-entrega, a autonomia do primeiro elemento fica comprovada pela ocorrência das vogais abertas /é/ e /ó/, que só podem aparecer, em nossa língua, na posição tônica. Compare-se sociologia (a vogal tônica é o /i/; o /o/ da primeira sílaba é fechado) com sócio-econômico (a vogal tônica é o /o/ aberto); como não existem duas tônicas em um só vocábulo, fica evidente que estamos unindo aqui dois vocábulos independentes, social e econômico, para formar um composto. Além disso, esta opção pelo hífen nos permite escrever sócio-político-geográfico-econômico, por exemplo, que, no modelo do Aurélio XXI, seria sociopoliticogeograficoeconômico — duro de ler, difícil de entender e totalmente contrário à intuição que nós, falantes, fazemos de compostos desse tipo. Essa é a razão por que me parece mais adequado grafar buco-maxilo-facial, cárdio-respiratória, etc. — mas, como espero ter deixado bem claro, percebo que a outra grafia, sem hífen, tem também seus argumentos (e seus ilustres defensores)» («O emprego do hífen: sócio-econômico» Cláudio Moreno, Sua Língua).
      «Rebelo Gonçalves, no seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, recomenda: “Nos compostos em que entram, morfologicamente individualizados, um ou mais elementos de natureza adjectiva terminados em o e uma forma adjectiva’, deve-se usar o hífen.” Exemplos da obra: “africano-árabe”, “físico-químico-naturais”. Nesta ideia e considerando sócio um adjectivo, na alternativa aceite pelo Dicionário Houaiss, eu escreveria: sócio-político, e sócio-político-económico. Note, porém, que o léxico já regista sociopolítico e socioeconómico. As justificações de Rebelo Gonçalves são difíceis de sustentar presentemente, pois pouca gente consegue descortinar hoje a origem grega ou latina dos agrupamentos de letras para poder escolher convenientemente, e, além disso, o uso muitas vezes ignorou essas regras» («Hífen em compostos morfológicos, h interior», D'Silvas Filho, Ciberdúvidas, 14.04.2008).
      «Em suma, o uso impôs o elemento de composição socio-, e daí escrever-se socioeconómico, sociopolítico. Seria certamente mais coerente escrever sócio-, com hífen e acento agudo, justamente para mostrar que a forma era originalmente um elemento de natureza adjectiva, uma redução de social. Mas quando sócio- surge associado a outros elementos de natureza adjectival, é legítimo regressar aos preceitos de Rebelo Gonçalves e escrever como D’Silvas Filho sugere: sócio-político-económico» («Hífen em compostos morfológicos, h interior», Carlos Rosa, Ciberdúvidas, 14.04.2008).
      «As palavras compostas, cuja primeira parte é o elemento de composição socio (e não sócio), não têm hífen: sociodemográfico, sociopolítico, sociocultural, sociocracia, sociograma, etc.» («Hífen, de novo», José Neves Henriques, Ciberdúvidas, 23.12.1997).
      «A grafia correcta das palavras que suscitaram a sua dúvida é sociopolítico e económico-político. Porquê a aparente incoerência entre uma forma e outra? Veja-se o que diz Rebelo Gonçalves, no seu Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa: Deve usar-se o hífen «nos compostos em que entram, morfologicamente individualizados e formando uma aderência de sentidos, um ou mais elementos de natureza adjectiva terminados em o e uma forma adjectiva.» Encontra-se neste caso o elemento económico, pois é de natureza adjectiva, termina em o, e ocorre uma aderência de sentidos com a forma adjectiva político. O acento mantém-se porque se trata de um elemento morfologicamente individualizado. Outros exemplos: físico-químico, médico-cirúrgico, etc.
      Por que é diferente o caso de sociopolítico? Porque a forma socio- não é de natureza adjectiva, como era a forma económico, mas, sim, de origem substantiva, e, segundo o mesmo tratado, “É inadmissível o uso do hífen nos compostos em que um elemento de origem substantiva, proveniente do grego ou do latim e terminado em o, se combina com um ou mais elementos substantivos ou adjectivos”. E dá como exemplos aerodinâmico, astrofísica, etc., e podíamos acrescentar sociopolítico» («Sociopolítico/económico-político», Rui Gouveia, Ciberdúvidas, 15.04.2003).
      «Quanto a sociocultural, não se passa precisamente o mesmo: não pronunciamos a primeira sílaba com a intensidade suficiente para individualizarmos o elemento socio-. Normalmente proferimos a primeira sílaba do socio- com a mesma intensidade com que proferimos o final deste elemento. É a falta desta individualização que nos leva a escrever sociocultural, sociolinguística, sociopolítico, sociodrama, sociocracia, sociofilia, etc. […] Ora o elemento socio não é de natureza adjectiva, mas substantiva, do latim “sociu(m)”. Portanto, escreva-se também socioeconómico. Não esquecer: socio é de natureza substantiva e não adjectiva» («Socio-», José Neves Henriques, Ciberdúvidas, 29.04.1998).
      «Quando o elemento SÓCIO for substantivo, devemos escrever com acento agudo e hífen: sócio-fundador, sócio-presidente, sócio-torcedor…
      Quando o elemento SOCIO for adjetivo (redução de SOCIAL), devemos escrever sem acento e sem hífen: sociopolítico, sociolingüístico, sociocultural…
      Assim sendo, o correto seria SOCIOECONÔMICO, mas a forma “sócio-econômico”, devido ao uso consagrado, já aparece registrada em alguns dicionários» («Curiosidades sobre o uso do hífen», Sérgio Nogueira, Globo.com»).

[Post 2905]

Tradução: «preprint»

Aceitam-se propostas

      Nas publicações científicas, é comum ler-se o termo inglês preprint. Nunca, até hoje, o tinha visto traduzido. Hoje, viu-o traduzido por pré-edição. A definição de preprint é «an issue of a technical paper often in preliminary form before its publication in a journal» (Merriam-Webster). É a versão de um artigo antes de ter sido avaliado pelos pares do autor ou autores. É, dito de outra forma, a versão antes de chegar às mãos do editor.

[Post 2904]

North-West Frontier Province

Se fosse em urdu

      «Entretanto, também no Paquistão, nos distritos da North-West Frontier Province (perto do Afeganistão) a violência dos talibãs e a imposição da charia obrigam à fuga as minorias não muçulmanas, entre as quais os cristãos.» Isso queria o jornalista, mas eu não deixei. Traduza-se: Província da Fronteira Noroeste.

[Post 2903]

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