«Severo», anglicismo semântico II

E com disenteria?


      Uma estudante, Mariana Ferreira, perguntou ao Ciberdúvidas «se é errado traduzir a palavra inglesa severe para severo, como termo médico. Disseram-me que a tradução correcta é grave, e não severo». O consultor, Carlos Rocha, depois de citar dois dicionários que registam a palavra «grave» como tradução, ainda acrescentou: «Parece-me que a consulente tem de estar atenta à própria expressão em português. A tradução correcta não depende apenas da correspondência palavra a palavra; também decorre da sensibilidade de encontrar as compatibilidades lexicais mais correntes na língua de chegada, aqui, o português. Assim, o que se lê em inglês, sem o adjectivo em questão, verte-se em português como “com mais sinais clínicos, incluindo desidratação”. Em seguida, escolhe-se o adjectivo mais adequado, que, neste caso, se me afigura ser grave: “com mais sinais clínicos graves, incluindo desidratação grave”.» Quase perfeito, mas o remate do texto é desconcertante: «Com desidratação, não é impossível usar severa: “desidratação severa”.» Ora essa! «Com desidratação não é impossível»! E se for com disenteria, já é? Deve ser avaliado casuisticamente, imagino que me dirá. A disenteria é uma doença grave. Numa viagem à Europa, o físico Oppenheimer adoeceu com disenteria, tendo ficado a convalescer durante um ano inteiro, o que o terá impedido, segundo alguns estudiosos, de ter tido um papel ainda maior no campo da Física. Talvez não, porque a disenteria é «an infection of the intestines marked by severe diarrhea». E se a disenteria não for severa, é-o a diarreia. Algo ou alguém tem de ser severo aqui. Posso ser eu: não diga disparates, senhor consultor. Mesmo de forma críptica.

[Post 2894]

Tradução: «postdoctoral fellow»


Traduzir até ao fim


      E um certo físico veio depois para a Europa como «postdoctoral fellow». Tradução? O nosso tradutor acha que é «fellow de pós-doutoramento». É como o caso do dean of science, o tradutor acha que é intraduzível. Mas não. Postdoctoral fellow é bolseiro de pós-doutoramento, ou não? Ou será melhor vender os livros juntamente com um dicionário de inglês-português?


[Post 2893]

Tradução: «timing»

Cunctator e o tradutor

      «The timing was crucial», lia-se no original. O tradutor quis escapar ao anglicismo, e escreveu: «A temporização foi crucial.» Seria uma boa forma de fugir ao aparentemente inescapável anglicismo — se não estivesse errado. Então o tradutor usa uma palavra que não é de todos os dias e não consulta um dicionário? Temporização é, qualquer dicionário o regista, o acto ou efeito de temporizar; transigência; tolerância. Não podemos transigir com semelhante inépcia. Sim, a palavra está relacionada com o tempo, pois temporizar é retardar, atrasar, demorar, delongar, adiar. Enquanto escrevo, vem-me à mente o cognome Cunctator, atribuído ao general romano Quintus Fabius Maximus Verrucosus. Cunctator, «aquele que adia», porque foi essa a táctica que usou para deter o general cartaginês Aníbal Barca durante a Segunda Guerra Púnica, entre 218 e 201 a. C.

[Post 2892]



Tradução: «dean of science»

Decanato

      No campo da terminologia académica, muito fica por traduzir, pois alguns tradutores têm a convicção de que «não é exactamente o mesmo» se se usarem palavras na nossa língua. Agora, por exemplo, estou aqui a ler que um indivíduo era «dean of science na Universidade de Columbia». Pergunto-me, e pergunto aos académicos que frequentam estas paragens, se «deão de ciência» não diz o mesmo — mas melhor, pois é português. Se me objectarem que o leitor não sabe o que é «deão», contraponho que o leitor ainda sabe menos o que seja dean.
      Decano tem como étimo o vocábulo do latim tardio decanus, chefe de um grupo de dez. Tinha, originalmente, um sentido ligado ao de chefia, comando, direcção, presidência. Com o tempo, assumiu em várias línguas o sentido de «o mais velho (ou o mais antigo em termos de anos de serviço) dos membros de uma corporação ou classe», sem, contudo, ter perdido a denotação de chefe ou dirigente, como no uso que continua a fazer-se dos vocábulos «decano» e «deão» (este com três plurais: deãos, deães, deões), em certas universidades e órgãos eclesiásticos. Ao contrário do que se possa pensar, deão não se formou na língua: veio do francês antigo deien, e teve primeiramente a forma daião.


[Post 2891]

Tradução: «praticed»

Exercícios

      No original podia ler-se que «But as Michel Foucault noted, “Discipline produces subjected and praticed bodies, ‘docile’ bodies”», e o tradutor entendeu verter subjected and practiced por submetidos e rotinados. «Submetidos» vá que não vá, mas rotinados só no pior jornalismo desportivo encontro. Submissos e exercitados, deveria ter escrito. A frase pertence à obra Surveiller et punir, que Foucault (1926–1984) publicou em 1975.

[Post 2890]


Conjunção «porém»

Cartas ao director

      Entre as cartas ao director, rubrica fixa de todos os jornais, há-as edificantes e desedificantes e as que não adiantam nem atrasam, mas que os jornais, quem sabe se por incapacidade, decidem publicar. Cá está uma desta última espécie, assinada por Américo Ponces, de Coimbra: «Conta-se que o poeta Gomes Leal respondia ao reproche dos que o criticavam, por nem sempre respeitar a gramática, com a seguinte interrogação: ”Quem é que manda no que é meu, / É a gramática, ou sou eu…? Correndo o risco de ouvir qualquer coisa semelhante, atrevo-me ainda assim a comentar contigo, leitor amigo, uma frase que li há tempo, num livro muito badalado e que me soou mal. Ei-la: “Tudo acaba, porém, tudo tem o seu termo…” A minha dúvida é a seguinte: o que faz uma conjunção adversativa, “porém”, ali entalada entre duas vírgulas, no meio de duas afirmações que vão no mesmo sentido? Só encontro uma explicação. O autor narrador quis ter a certeza de que o estávamos a ler com atenção e não apenas por ler. Já agora, amigo leitor, para não perderes o teu tempo, sempre te digo, que o reproche existe mesmo, no nosso dicionário. Há-de ter sobrado das invasões francesas. Encontrei-o já, pelo menos, duas vezes. No Esaú e Jacó de Machado de Assis e em A Caverna de José Saramago» («Gomes Leal e a gramática», Público, 9.12.2009, p. 34).
      Qual é o problema da frase? Reescrevo-a, trocando a conjunção, e continuará a ter o mesmíssimo sentido, para ver se o leitor ainda afirma que está incorrecta: «Todavia, tudo acaba, tudo tem o seu termo…» Entretanto, chegarão às redacções cartas que poderiam contribuir para o esclarecimento de determinadas questões e os jornais recusam-se a publicá-las. Esta, com disparates e erros de pontuação, impingem-no-la com toda a desfaçatez.
[Post 2889]

Ortografia: «Tindufe»

Portugueses somos

      «Os conflitos armados no continente africano matam anualmente milhares de pessoas, tanto combatentes como civis; e obrigam milhões a procurar refúgio longe das suas terras. Os deslocados englobam tanto os sarauís acampados há décadas na região argelina de Tindouf como os naturais da República Centro-Africana, da República Democrática do Congo, da Somália e do Sudão.» Isto escreveu o jornalista, mas eu emendei para Tindufe. Correio do Minho, Visão e nos documentos em língua portuguesa do Parlamento Europeu escreve-se assim. Não somos uma colónia da França para escrever *Tindouf.

[Post 2888]

Fazer sentido/«to make sense»

Coincidências

      O leitor M. L. pergunta se a expressão «fazer sentido» deve alguma coisa à inglesa to make sense ou se é mero acaso, como sucede com tantas outras. É isso mesmo, mera coincidência. E sim, conheço essa teoria de que, em espanhol, hacer sentido é anglicismo, e que correcto é tener sentido. E, logo, em português seria o mesmo. No lo creo, ya lo he dicho.

[Post 2887]

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