Pragmatismo/pragmaticismo

Filosoficamente

      O leitor Afonso Dantas pergunta-me porque é que todos os dicionários no verbete «pragmaticismo» remetem para o vocábulo «pragmatismo». Todos não; alguns. «Trata-se do mesmo conceito?», pergunta. De modo simplista, o pragmaticismo é a redenominação do pragmatismo de C. S. Peirce (1839–1914). Explicando melhor: no final do século XIX, o filósofo William James (1842–1910) usou o termo pragmatismo numa conferência, tendo então atribuído a sua autoria a Peirce. Mais tarde, no início do século XX, este filófoso rejeitou o termo e passou a usar o vocábulo pragmaticismo para diferenciar a sua teoria da de William James. No ensaio (What Pragmatism Is, de 1905) em que se decide pelo termo «pragmaticismo», Peirce fala da ética da terminologia, discorrendo sobre as vantagens de uma terminologia precisa.
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de facto, o verbete «pragmaticismo» remete o leitor para o verbete «pragmatismo». E apresenta-se, como é tão habitual neste dicionário, a seguinte etimologia do vocábulo: «de pragmático+-ismo». Contudo, o vocábulo não nasceu na nossa língua, vem do inglês pragmaticism, pelo que esta é uma explicação incorrecta.

[Post 2886]

Regências e expressões

Com olhos de ver

      «O problema é outro. É que durante todo este tempo Passos Coelho tratou sempre a actual liderança do PSD abaixo do analfabetismo. Valeu de tudo: acusações de ignorância, falta, de ideias, inépcia» («A questão do carácter», Pedro Lomba, Público, 8.12.2009, p. 40). «Abaixo do analfabetismo»? E isso significa alguma coisa? «Abaixo de analfabeto» deveria o cronista ter escrito. Mais: «Agora, nesta entrevista, Passos Coelho já não tem cerimónias». A expressão, porém, é «fazer cerimónia». E esta: «Pelos vistos, Ferreira Leite até tinha razão sobre o TGV. E é irónico e desleal que Passos Coelho a tivesse combatido aí com força, para agora a vir plagiar.» «É irónico e desleal»? A frase não saiu lá muito bem. E a última: «Passos Coelho prefere antes “construir ideias”.» Errado: preferir antes é redundante e resulta do cruzamento com uma expressão sinónima, antes querer. Se eu fosse bruto, diria que a crónica é uma lástima.

[Post 2885]

Chatices e parvoíces

Como uma nódoa

      A propósito da ortografia do vocábulo saloiice, com que um crítico da revista Ípsilon/Público não atinou (espero que não se interrogue, à semelhança de outro crítico, se «estará a acção de uma pessoa que escreve recensões […] sujeita a réplicas e tréplicas»), um anónimo perguntou-me se «então, não devia ser “chatoíce”». Mas talvez pergunte mal. O que fiz nesse texto («Saloi(o)+ice») foi mostrar, em duas linhas, que não se pode tomar a formação de um («saloiice») nem de outro («parvoíce») como única ou paradigmática. Afinal, porque é que é parvoíce e não parvice, é essa a pergunta? Também está errada: por exemplo o VOLP regista «parvice». Contudo, a tradição da língua na formação de derivados de «parvo» foi pela manutenção da forma /parvo/. Compare-se: parvoalho, parvoeira, parvoidade, parvoejar, parvoíce. O parvo fica lá sempre, indelével como uma nódoa.

[Post 2884]

Ortografia: «Ispaão»

Respeitadores, por uma vez


      «Minoru Yamasaki, o arquitecto que projectou as torres gémeas, era um apaixonado pela arquitectura islâmica. O seu edifício preferido era a Mesquita do Xá em Ispaão (ou Isfahan) no Irão. Um dos países onde trabalhou mais foi na Arábia Saudita, ao serviço da família real (talvez tenha mesmo chegado a usar os serviços de Muhamad bin Laden, o pai de um certo adolescente chamado Osama, futuro estudante de engenharia). E em diversas ocasiões escreveu sobre o seu interesse pela arquitectura islâmica» («Os novos anti-semitas», Rui Tavares, Público, 7.12.2009, p. 40). Bem merece a designação portuguesa, pois até ao fim da primeira metade do século XVIII houve uma comunidade portuguesa, com uma igreja católica, nesta cidade. Felizmente, em relação a este topónimo, que tem surgido muito ultimamente (a propósito, por exemplo, da francesa Clotilde Reiss, acusada de espionagem), os jornalistas têm sabido resistir à forma inglesa do topónimo, Isfahan.

[Post 2883]

Léxico: «ropálico»


Em forma de clava


      Caro M. L.: não são todos os dicionários que registam o adjectivo ropálico. O Dicionário Houaiss regista-o: «diz-se de ou verso grego ou latino que começa por monossílabo, tendo cada um dos versos seguintes uma sílaba a mais que o precedente». Dicionário que também regista o étimo, que diz ser do latim tardio rhopalĭcus (versus), «verso que começa por um monossílabo e vai sempre crescendo», derivado do grego rhopalikós,ê,ón, «em forma de clava». Atente na imagem acima: nela vê-se uma clava, que é a arma que consiste num pedaço de pau grosso, mais volumoso numa das extremidades, e que se usava para ataque e defesa. O que me faz lembrar os caligramas, que são os textos, geralmente poemas, cujas linhas ou caracteres gráficos formam uma figura sugestiva do conteúdo ou da mensagem do texto.


[Post 2882]

Ascendência/descendência

Elementar

      A propósito do jantar que Barack Obama ofereceu ao primeiro-ministro indiano, Manmohah Singh, na Casa Branca, Conan O’Brien, numa das emissões de ontem do Tonight Show, na SIC Radical, fez humor e disse que estiveram presentes muitas estrelas com ascendência indiana. Ascendência disse O’Brien e digo eu, porque para a tradutora, Patrícia Amaral Gama, da Dialectus, era com «descendência indiana». É lamentável como se confundem os vocábulos e os conceitos. Há-de haver alguns artistas americanos que descendem de indianos — mas eles próprios não têm descendência indiana, têm ascendência indiana. Alguém confunde ascender (subir, se quisermos) com descender (descer, se quisermos)? Ascendência é a linha de gerações anteriores a um indivíduo ou a uma família; descendência é a série de indivíduos que procedem de um tronco comum.

[Post 2881]

Etimologia: «consoada»

Alentejo, anos 30

      «[Maria de Lourdes Modesto] Percebeu que o verdadeiro Natal tradicionalista era — já o dizia Ramalho Ortigão — o do Norte, o Natal minhoto. “Não há dúvida de que o grande Natal é do Porto para cima. Aí o bacalhau é rei, aparece cozido, aparece em bolinhos. E também o polvo guisado.” Descobriu a palavra “consoada”, que no seu Natal alentejano não se usava» («A consoada tornou-se mais “nacional”», Alexandra Prado Coelho, Pública, 6.12.2009, p. 28). A palavra parece — parece, apenas, pois boa parte das palavras que nos chegaram tem uma origem incerta — que provém do latim consōlāta, substantivação da forma feminina do particípio passado do verbo consolārī, «consolar, confortar, animar, mitigar».

[Post 2880]

Neologismo: «sedevacantista»

Talvez nunca


      Cara Luísa Pinto: não, não conheço nenhum dicionário que registe o neologismo «sedevacantista» (de «sede vacante», diocese onde falta o prelado, por morte, renúncia, deposição ou transferência), designação que se dá aos cismáticos que não aceitaram a eleição dos papas que se seguiram a Pio XII, falecido em 1958: João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI). Não conheço nem me parece que alguma vez isso aconteça. Mas, como ex-professora, decerto que sabe que tal não é condição imprescindível para usarmos o vocábulo.

[Post 2879]

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