Aquisição da linguagem: inatismo

O artisto e a artista

      A minha filha tem dois anos e meio e gosta, decerto que como todas as crianças, que lhe contem histórias. (Agora, prefere que lhas conte, não que as leia.) Há dias, contava-lhe a história dos ursinhos Plum e Plumete no circo, uma obra da autoria da escritora e ilustradora francesa (mas nascida na Roménia) Lise Marin e adaptada para português por Leonor Garcia e que se pode considerar, leio na recensão que António Couto Viana fez da obra em 1989, «uma iniciação à leitura». Quando digo à minha filha que Plum e Plumete (um ursinho e uma ursinha) são artistas, ela corrige-me de imediato: «“Artistas” não: artisto e artista.» É nestes momentos que a teoria do inatismo, defendida por Noam Chomsky, que diz que o ser humano é provido de uma gramática inata, ou seja, que esta já nasce com a pessoa e vai tomando forma conforme o seu desenvolvimento, se nos impõe mais. Para a minha filha, ainda não há substantivos comuns de dois: o/a artista. E porquê? Porque a «gramática interna» lhe diz que para a generalidade dos substantivos a marcação de género é feita morfologicamente.

[Post 2878]

Sexo consensual/sexo consentido

Tanta gente


      Dantes, apenas se ouvia falar em «sexo consentido», porque consentir é permitir, não impedir, deixar que aconteça. Agora, fala-se, e é já a terceira vez que leio ou ouço, em «sexo consensual», e está certo, pois «consensual» é o que é dependente de consenso, se bem que este se aplique mais a uma pluralidade de pessoas (como numa colectividade, numa assembleia, num conselho). Mas sim, consenso também é anuência, consentimento. Até porque também se diz rapto consensual, e não *rapto consentido. Um exemplo: «O diário britânico The Times revela preocupações de que Polanski possa tentar fugir já que o chalet fica a apenas pouco mais de uma hora da fronteira com a França — onde Polanski tem vivido desde que fugiu dos Estados Unidos em 1978, um ano depois de ser acusado de ter sexo não consensual com uma menor» («Roman Polanski em prisão domiciliária no seu chalet suíço», Maria João Guimarães, Público, 5.12.2009, p. 22).

[Post 2877]

Ortografia: «saloiice»

Saloi(o)+ice

      «O seu [de Edward Seidensticker (1921–2007)] prestígio anglo-saxónico só pode ser compreendido à luz do autismo linguístico daquele universo, incapaz de cotejar ou reconhecer traduções muito mais ricas, como as francesas, alemãs ou italianas. É claro que há nesse autismo um deliberado propósito imperial-comercial, a que os editores portugueses aderem entusiasticamente. Este entusiamo (ou saloíce) universal consagra um modo de ler e um sistema de gosto de que pelo menos duas consequências estão à vista: a transformação da literatura em acessório de aeroporto e o reforço da Ditadura Internacional da Simplificação, sob a égide da crítica e dos editores americanos» («Perdido na tradução», Francisco Luís Parreira, Público/Ípsilon, 4.12.2009, p. 55). Escreve-se saloiice, e não saloíce. Compare, senhor crítico, não com parvoíce, mas com gandaiice, mandriice e vadiice.

[Post 2876]


Transgressão criadora

Aquela maquina...


      «Wagner [Homem] conheceu Chico quando organizou, em 1989, as letras das canções para o livro de Humberto Werneck “Chico Buarque letra e música”. “Eu fazia a revisão das letras, passava para a editora e esta passava para Chico. Aquela história que conto no livro sobre a letra de ‘Meu caro Barão’ foi na decorrência disso”. Nesta canção, Chico “tira o acento de várias palavras e faz com que rimem com outras (faxina com maquina, dizia com ausencia, lotado com sabado, virgula com ridicula, ouvido com palido). Além disso comete propositadamente erros de concordância em frases como ‘o santo dos ladrão’ e ‘Deu uma cocega /Nos calo da mão’”. Mas, num excesso de zelo, alguém na editora corrigiu os “erros” ortográficos e gramaticais. “Um cara na editora meteu acento em tudo”, ri-se Wagner. Chico acabaria a telefonar a Wagner a pedir-lhe uma justificação...» («Wagner Homem conta “historinha” de Chico», Isabel Coutinho, Público/P2, 4.12.2009, p. 22). Fazia lá falta um revisor filológico — ou, pelo menos, um revisor mais atento.

[Post 2875]

Tecnolecto ou sociolecto?

Talvez não

      Deve estar um santo para cair do altar, como diria a minha avó materna. A abertura do Ciberdúvidas de hoje, dedicada aos estrangeirismos já adaptados morfológica e foneticamente ao português, refere o vocábulo «grafitar», que analisei aqui, e remete para o Assim Mesmo.
      Nesta abertura também abordam, e isto é que me interessa, o «linguajar dos surfistas»: «Com direito ou sem ele, os estrangeirismos marcam presença assídua no linguajar dos surfistas, tanto assim que são os estrangeirismos o principal traço desse tecnolecto.» Na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006), Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva escrevem: «Sociolecto fica fora desta hierarquia de conceitos, embora se possa definir como um conjunto de idiolectos que corresponde a um recorte social da língua (pode falar-se no sociolecto dos adolescentes, dos surfistas ou dos economistas)» (p. 21). As autoras afirmam que o termo «sociolecto» tende a ser substituído por «dialecto», e exemplificam com o economês e o futebolês. Ultimamente temos ouvido falar muito do eduquês. Anteontem, li no Jornal de Negócios: «O Tratado de Lisboa é mais uma tentativa para “aproximar a Europa dos cidadãos”, expressão que soa já a “eurocratês”, um neologismo para linguagem de burocrata europeu» («A Europa (ainda não é) porreira», Helena Garrido, Jornal de Negócios, 2.12.2009). Os especialistas identificam outros –lectos, como cronolecto, idiolecto, etc.

[Post 2874]

Léxico: «eticista»

Recomendável

      Um leitor pede-me que dedique umas palavras à ética e escreve: «Interrogo-me muitas vezes porque não temos o antónimo do adjectivo. Por exemplo: “um certo comportamento de um médico é... ‘inético’, ‘desético’ ou ‘anético’”. É que dizer “antiético” (ou será “anti-ético”?) não me satisfaz em todos os contextos. Por outro lado, falta-nos (?) o termo para definir o especialista em Ética. Podemos chamar-lhe “eticista”? Não o encontro nos dicionários portugueses da Internet (Porto Editora e Priberam), nem nos em papel da Sociedade da Língua Portuguesa ou da Academia. Só o vejo no Houaiss em papel. É neologismo?»
      Comecemos pelo fim. Em dicionários gerais, também só encontro no Dicionário Houaiss (papel). No Dicionário Escolar de Filosofia, da Plátano Editora, é usado. Pode ler-se na entrada «Moral», da autoria de Desidério Murcho, professor de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto: «Um moralista é alguém que defende ou condena certos costumes com base em tradições religiosas ou culturais; um eticista é um especialista em ética, que defende ou condena certas práticas com base numa argumentação filosófica.» É um neologismo, sim, tradução do vocábulo inglês «ethicist», preferível, a meu ver, a «especialista em ética». Na imprensa especializada, o termo é usado com alguma frequência: «No que respeita à eutanásia, o eticista [Prof. Rui Nunes, director do Serviço de Bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina do Porto] defende que é preciso abordar o tema “com clareza, transparência e determinação”, embora reconheça que é “um tema profundamente fracturante da nossa sociedade e de todas as democracias ocidentais”» («Questões médicas no fim da vida», Cláudia Azevedo, Notícias Médicas, 22.07.2009, p. 7).
      À semelhança de muitos outros vocábulos, não há um termo antónimo que não seja obtido por acrescentamento de um prefixo. Antiético será o que imediatamente nos ocorre, mas também podemos usar aético (que há quem, por razões fundadas na analogia, repute erróneo) ou anético. Ainda nos resta escrever «contra a ética» e, tão do gosto hodierno, «não ético».

[Post 2873]

Léxico: «médico-sentinela»

Cuidado

      «Desde há duas semanas que a rede de vigilância da síndroma gripal dos médicos-sentinela centralizada no Instituto Ricardo Jorge assinala um ligeiro decréscimo da taxa de incidência em todos os grupos etários, à excepção da faixa entre os 5 e os 14 anos» («Focos de gripe A baixam para metade nas escolas», Alexandra Campos, Público, 3.12.2009, p. 9). Nunca tinha ouvido falar de médicos-sentinela. Mas não fiquei apreensivo, fui antes ver ao Portal da Saúde: «A rede “Médicos-Sentinela” é um sistema de observação em saúde, constituído por mais de 155 médicos de clínica geral/medicina familiar cuja actividade profissional é desenvolvida em centros de saúde de todos os distritos do continente e das regiões autónomas.» Que alívio!

[Post 2872]

Uso da maiúscula

Imagem: turmadospiratas.blogspot.com



Rato do Campo e o Rato da Cidade


      «Muitos dos envolvidos no caso, a começar por Armando Vara, são pessoas nascidas na Província que vieram para Lisboa, ascenderam a cargos políticos de relevo e se deslumbraram. […] Ora, para homens que até aí tinham vivido sempre na Província, que até aí tinham uma existência obscura, limitada às estruturas partidárias locais, este salto simultâneo para o poder político e para a cidade representou um cocktail explosivo. […] Ou seja, alguns secretários de Estado do tempo de Guterres, aqueles homens vindos da Província e deslumbrados com Lisboa, eram agora senhores do País» («Os boys de Guterres», José António Saraiva, Sol, 20.11.2009, p. 5). Só faltou grafar o vocábulo «cidade» com maiúscula inicial para significar mais expressivamente o deslumbramento...


[Post 2871]

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