Léxico: «folheta»

Coisas de outrora

      «Numa loja recentemente inaugurada no Porto, José Fernandes [director da Ach Brito] encontrou os brinquedos da sua infância, “que eram os mais baratos que existiam na altura”. E nessa lista entram os carrinhos de folhetas e o “velho pião”» («Reviver produtos que são do passado», Metro, 2.12.2009, p. 4). Folheta é a folha de latão. Não é vocábulo que se encontre actualmente todos os dias.

[Post 2870]

Regionalismos

É como ler um livro

      Na rubrica Modus Vivendi, que se insere no programa Janela Aberta, do Rádio Clube Português (RCP), o médico Pedro Barreiros falou ontem de sinais e sintomas das doenças. Um excerto: «Para mim e para a maior parte dos meus colegas, a coisa mais importante que existe na relação entre o médico e a pessoa que o procura, o doente, é aquilo que o doente diz. É evidente que nós temos de perceber aquilo que o doente diz. O doente fala, muitas vezes, de uma maneira regionalista, usando termos que nós, nós é que temos obrigação de ir à procura, de perceber o que é que esses termos querem dizer. Por exemplo, nalgumas regiões [mas creio que somente no Alentejo], o termo “fezes” aplica-se como “dor”, como “preocupação”. “O meu filho dá-me muitas fezes.” Portanto, nós temos de perceber isso. Alguns sinais de algumas doenças. A zona, nalgumas zonas do País, chama-se cobrão. Como o eritema da zona se passa ao longo do trajecto do nervo, o povo pensava, antes de saber que aquilo se trata de uma doença transmitida por um vírus, pensava que era uma cobra que tinha passado e que tinha deixado aquele rasto. Portanto, nós temos de perceber aquilo que os doentes nos dizem. É como ler um livro. A pior coisa que uma pessoa pode fazer quando lê um livro é virar a página sem ter percebido exactamente o significado das palavras da página que acabou de ler.»
      Infelizmente, também disse: «Ele [o doente] pensa que a asma é uma doença extremamente grave, de insuficiência respiratória, quando a asma é também um sindroma que pode ter várias causas, e nós temos de perceber qual é a ideia que ele tem sobre elas.» Síndroma ou síndrome são vocábulos esdrúxulos e do género feminino. Quanto a cobrão, muitos dicionários gerais registam o termo, definindo-o como a inflamação de um nervo ou de gânglios nervosos, caracterizada pela erupção de vesículas na pele, tipicamente na região dorsal.

[Post 2869]

Neologismo: «obâmico»

A força de um nome

      Já aqui tínhamos visto que algumas das palavras admitidas pelo New Oxford American Dictionary se relacionam com o nome do presidente Barack Obama (como Obamanomics, Obamacons, Obamalicious). Vemos agora que esse fenómeno chegou até nós. Entrevistado por José Fialho Gouveia, do semanário Sol, António Serzedelo, presidente do Opus Gay, disse: «Penso que António Costa tem uma vertente ‘obâmica’» («António Costa tem uma vertente ‘obâmica’», José Fialho Gouveia, Sol, 20.11.2009, p. 4).

[Post 2868]

«Severo», anglicismo semântico

Estão doentes

      «E insistiram que as grávidas estão sujeitas a complicações muito mais severas no caso de contraírem gripe A» («Três fetos perdidos numa semana», Sol, 20.11.2009, p. 52). Os jornalistas já deviam saber que «severo», nesta acepção, é um anglicismo semântico, de severe. Em bom português, dizemos «grave».

[Post 2867]

Processos neológicos

Vai um refri

      A leitora Elisete Martins quer saber se se pode qualificar como neologismo o vocábulo «refri». A resposta é sim. A truncação ou abreviação vocabular, que foi o processo por que se chegou a refri (de «refrigerante»), é uma das formas de neologia, a par dos estrangeirismos e de processos fonológicos, derivados prefixais, derivados sufixais, compostos sintagmáticos, semânticos, e mesmo processos como formações com siglas, alguns dos quais já aqui foram referidos. No Dicionário Gaúcho (3.ª ed. Porto Alegre: AGE, 2005, p. 228), de Alberto Juvenal de Oliveira, leio que refri é «outra expressão moderna incorporada no vocabulário gaúcho [relativo ao Estado do Rio Grande do Sul, no Brasil] que significa refrigerante». Imagino que, com «expressão moderna», o autor pretenda dizer neologismo.

[Post 2866]

Tradução: «codex»

Códex

      «“Não estamos a tentar reabilitar Moctezuma”, ressalva o curador inglês da exposição, Colin McEwan, ao P2, junto à serpente bicéfala azul-turquesa, uma das peças mais assombrosas. “Mas há códigos que mostram Moctezuma a ser espancado, ou seja, uma versão diferente daquela em que ele aparece como não tendo resistido. É como as armas de destruição maciça: em quem acreditar?» («Moctezuma. O rei azteca está de volta», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 28.11.2009, p. 5). «Códigos»? Que códigos, valha-me Deus? Colin McEwan há-de ter referido codices (plural de codex), que só pode ser traduzido por «códices». Referência, porventura, ao chamado Códice Ramírez, que são na realidade dois manuscritos independentes do México Central posteriores à conquista espanhola. O erro repete-se ao longo da peça.

[Post 2865]

Etimologia: «minarete»

Imagem: comunidadeislamica.pt


Um farol


      A propósito do referendo às mesquitas na Suíça, escreve António Marujo no Público de hoje: «Como os faróis (a palavra árabe manar significa minarete ou farol), [os minaretes] servem para ser vistos ao longe, anunciam a presença do islão e tornaram-se obviamente símbolos de poder» («Um “duro golpe contra a liberdade religiosa”», Público, 1.12.2009, p. 19). (Agora já sabem o que significa Al-Manar, o canal de televisão do Hezbollah.)


[Post 2864]

Sobre «acórdão»

Assim percebe-se


      Quando chegam ao 6.º ano de escolaridade, alguns alunos ainda representam a desinência –am com o morfema –ão, e vice-versa. Ou seja, confundem as desinências. «Eles cantão muito bem.» «Eles dam tudo o que têm.» É, por isso, interessante, ver que o vocábulo «acórdão», sentença proferida por um tribunal colectivo, provém de «acordam», a 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo de «acordar». (Um aparte: tem, necessariamente, de levar acento agudo, pois é grave, a sílaba predominante é um o aberto. E não é, como muita gente defende, um caso de dupla acentuação, coisa que, nos nomes comuns, não existe, antes o til marca apenas a nasalação. Ainda recentemente, numa editora me «corrigiram» uma palavra que se enquadra neste grupo. O tradutor escrevera «benção», eu emendei para «bênção», na editora alteraram para «benção» e eu, finalmente, voltei a grafar «bênção.) Já Paul Teyssier tinha observado que, na linguagem popular do Brasil, «as desinências foram simplificadas, quer pelo desgaste fonético (queda do –r final, p. ex. cantá por cantar, “chanter”), quer pela unificação dos paradigmas (supressão da desinência –mos da 1.ª pessoa do plural) (Manual de Língua Portuguesa. Coimbra: Coimbra Editora, 1989, p. 238).
[Post 2863]

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