Tradução: «codex»

Códex

      «“Não estamos a tentar reabilitar Moctezuma”, ressalva o curador inglês da exposição, Colin McEwan, ao P2, junto à serpente bicéfala azul-turquesa, uma das peças mais assombrosas. “Mas há códigos que mostram Moctezuma a ser espancado, ou seja, uma versão diferente daquela em que ele aparece como não tendo resistido. É como as armas de destruição maciça: em quem acreditar?» («Moctezuma. O rei azteca está de volta», Alexandra Lucas Coelho, Público/P2, 28.11.2009, p. 5). «Códigos»? Que códigos, valha-me Deus? Colin McEwan há-de ter referido codices (plural de codex), que só pode ser traduzido por «códices». Referência, porventura, ao chamado Códice Ramírez, que são na realidade dois manuscritos independentes do México Central posteriores à conquista espanhola. O erro repete-se ao longo da peça.

[Post 2865]

Etimologia: «minarete»

Imagem: comunidadeislamica.pt


Um farol


      A propósito do referendo às mesquitas na Suíça, escreve António Marujo no Público de hoje: «Como os faróis (a palavra árabe manar significa minarete ou farol), [os minaretes] servem para ser vistos ao longe, anunciam a presença do islão e tornaram-se obviamente símbolos de poder» («Um “duro golpe contra a liberdade religiosa”», Público, 1.12.2009, p. 19). (Agora já sabem o que significa Al-Manar, o canal de televisão do Hezbollah.)


[Post 2864]

Sobre «acórdão»

Assim percebe-se


      Quando chegam ao 6.º ano de escolaridade, alguns alunos ainda representam a desinência –am com o morfema –ão, e vice-versa. Ou seja, confundem as desinências. «Eles cantão muito bem.» «Eles dam tudo o que têm.» É, por isso, interessante, ver que o vocábulo «acórdão», sentença proferida por um tribunal colectivo, provém de «acordam», a 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo de «acordar». (Um aparte: tem, necessariamente, de levar acento agudo, pois é grave, a sílaba predominante é um o aberto. E não é, como muita gente defende, um caso de dupla acentuação, coisa que, nos nomes comuns, não existe, antes o til marca apenas a nasalação. Ainda recentemente, numa editora me «corrigiram» uma palavra que se enquadra neste grupo. O tradutor escrevera «benção», eu emendei para «bênção», na editora alteraram para «benção» e eu, finalmente, voltei a grafar «bênção.) Já Paul Teyssier tinha observado que, na linguagem popular do Brasil, «as desinências foram simplificadas, quer pelo desgaste fonético (queda do –r final, p. ex. cantá por cantar, “chanter”), quer pela unificação dos paradigmas (supressão da desinência –mos da 1.ª pessoa do plural) (Manual de Língua Portuguesa. Coimbra: Coimbra Editora, 1989, p. 238).
[Post 2863]

«Preço compreensivo»

Compreende-se, mas mal

      Um leitor pede-me que comente o seguinte assunto de uma circular normativa (n.º 10 de 2009) da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS): «Facturação e pagamento por preço compreensivo dos cuidados de diálise em programa ambulatório prestados a doentes crónicos (beneficiários do SNS ou de subsistemas públicos aderentes à modalidade de pagamento por preço compreensivo) em unidades convencionadas.» O leitor refere-se ao uso do adjectivo «compreensivo», pois que termina a mensagem perguntado-me: «Compreende-se?» Bem, «compreensivo», no contexto, só pode significar «que abrange ou contém». Parece-me, porém, que estamos perante uma expressão («preço compreensivo») anteriormente objecto de definição. Assim, neste diploma legal, publicado em 2008, lê-se que preço compreensivo se configura «como um preço global por semana e por doente hemodialisado, abrangendo todos os encargos relativos directamente às sessões de diálise e, bem assim, ao respectivo acompanhamento médico dos doentes, seu controlo e avaliação, aos exames, análises e medicamentos necessários ao tratamento da insuficiência renal crónica e suas intercorrências passíveis de serem corrigidas nas entidades convencionadas de diálise».

[Post 2862]

Tradução: «data mining»

Toma lá, dá cá

      «O que posso contar, baseando-me em outras declarações de responsáveis europeus, americanos, e da própria empresa, é o seguinte: os americanos afirmam que leram só 0,5% da informação a que acederam; afirmam que não fizeram garimpo de dados (data-mining) e muito menos espionagem industrial; afirmam que só consultaram informações sobre indivíduos suspeitos de terrorismo; e afirmam ainda que essa informação ajudou a evitar ataques terroristas» («Coisas que acontecem nas nossas costas», Rui Tavares, Público, 30.11.2009, p. 32). Fica a sugestão de tradução. Em troca, o reparo: é uma locução, não uma palavra composta.

[Post 2861]

Neologismo: «nutriterapia»

Fazer as coisas a meio

      «Tem anemia? Coma beterraba. Os seus rins funcionam mal? Consuma feijão. E que tal ingerir nozes para ajudar as funções cerebrais? Antes de prosseguir, é necessário avisar o leitor de que está a entrar num território desconhecido, e aparentemente estranho, que dá pelo nome de nutriterapia. Não vale a pena perder tempo a procurar a palavra num dicionário, pois não está lá» («Quando o teu alimento é o teu medicamento», Carlos Pessoa, Público/P2, 30.11.2009, p. 7). É verdade: não está nem talvez alguma vez venha a estar. Mais à frente, é dito que uma das receitas para combater o stress é «consumir millet, um cereal rico em fósforo, acompanhado de um legume rico em elementos de protecção do sistema nervoso, como a pastinaca (espécie de cenoura), nabo, amêndoas». Ora, millet, um termo francês, tem tradução: milho-miúdo, milho-painço. Se o jornalista se preocupou em ir ver se a palavra «nutriterapia» estava dicionarizada (ou foi mero palpite?), porque não procurou a tradução de millet?

[Post 2860]

Sujeito indeterminado

Vergonha nacional

      Ainda não tive oportunidade de ouvir o programa 59 de Em Nome do Ouvinte, em que Adelino Gomes iniciava, lê-se no blogue, a «abordagem de uma outra questão, objecto frequente de reparos de ouvintes: o carácter repetitivo das informações sobre trânsito». Como é habitual, nunca falam do mais grave. Mais do que a repetição, grave é dizerem (só sei que é um jornalista, não uma jornalista) repetidamente isto cada vez que há acidentes: «Neste momento, procedem-se a trabalhos de limpeza na via.» É uma vergonha um jornalista dar semelhante erro. Correcto é: «Neste momento, procede-se [ou procedem] a trabalhos de limpeza na via.» O sujeito é indeterminado e só há duas maneiras de o indeterminar: a) com o verbo na 3.ª pessoa do singular mais o pronome se; b) com o verbo na 3.ª pessoa do plural, sem o se. Vamos lá ver se aprende, senhor jornalista.
[Post 2859]

Neologismo: «spintrónica»

E mais uma     


      «Dizem que a próxima geração de computadores será “spintrónica” — ou seja, que a informação digital (os zeros e os uns) será transportada pelo spin dos electrões e não pela sua carga eléctrica, como é o caso hoje. O spin é um estado quântico dos electrões que só tem dois valores possíveis, o que o torna prático para codificar dados sob forma binária» («Computador do futuro pode ser “spintrónico”», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 29.11.2009, p. 3). Não estou à espera que se lhe dê o nome de girotrónica, por mais português, mas os Espanhóis, por exemplo, escrevem espintrónica.

[Post 2858]

Arquivo do blogue