Neologismo: «republimonarquia»

E outra amálgama

      «O neologismo joumloukia — união das palavras árabes joumhouria (república) e mouloukia (realeza) — é atribuído ao jornalista argelino Mohamed Benchicou. Escreveu o ex-director do diário Le Matin, várias vezes preso pelos seus artigos críticos do poder: “Joumhouria [diferente de jamahiria, ou ‘Estado das massas’, que Kadhafi inventou na Líbia] é, literalmente, a apropriação de um país pelo povo (joumhour). Mouloukia é a apropriação de um país por um só homem: o malik, ‘proprietário’.” O conceito de joumloukia, ou “republimonarquia” começou a ser posto em prática na Síria, em 2000, quando Bashar al-Assad sucedeu ao seu defunto pai, Hafez» («As novas joumloukias (republimonarquias) do mundo árabe», Margarida Santos Lopes, Público, 29.11.2009, p. 18).

[Post 2857]

Neologismo: «açucarólico»

À falta de melhor

      Encontrei no Facebook os AA — Açucarólicos Anónimos. Mas estou a adiantar-me. «O Paquistão é uma nação de assumidos “açucarólicos”. O açúcar pode ser menos importante do que o trigo e o óleo alimentar na dieta alimentícia, mas tem grande influência na psicologia nacional. E, embora o sistema judicial seja visto como instrumento ao serviço de elites rurais no poder, os tribunais têm decidido a favor dos consumidores» («Paquistão teme que escassez de açúcar possa abalar o regime», Pamela Constable, Público/The Washington Post, 29.11.2009, p. 17). No original, o trecho em causa era este: «Pakistan is a nation of unabashed sugarholics, who heap the crystals in their breakfast tea and devour cakes at every special occasion» («In Pakistan, much bitterness over sugar crisis», 28.11.2009). É mais uma amálgama, à semelhança de workaholic (que alguns pretendem traduzir por «trabalhólico», quando já temos «ergomaníaco»).

[Post 2856]

Neologismo: «virtópsia»

Não se vão queixar

      «Não é para já, mas é provável que um dia deixe de ser preciso abrir um cadáver para conhecer a causa da morte. Michael Thali, da Universidade de Berna (Suíça), e os seus colegas, noticia o Telegraph, já realizaram centenas de autópsias virtuais, ou “virtópsias” [virtopsy], em pessoas que morreram subitamente ou de causas não naturais. Combinam scanner óptico 3D (para a superfície), TAC (para ver os ossos e o cérebro), RMN (para ver os tecidos moles), angiografia (para ver o sistema vascular) e biópsia (recolha de células com uma seringa). Tudo em 30 minutos. Segundo Thali, os militares norte-americanos já estão a utilizar uma versão mais simples do sistema para autopsiar soldados» («A “virtópsia” vai substituir a autópsia?», Ana Gerschenfeld, Público/P2, 28.11.2009, p. 3).

[Post 2855]

Lacunas lexicográficas


Pirilampos de plástico

      «Ao cair da noite o cenário quase parecia de filme: duas dezenas de bombeiros, várias ambulâncias do INEM, carros de desencarceramento do Regimento de Sapadores, óleo, vidros e pedaços de plástico pelo chão, e uma grua para retirar o carro do MAI. Pirilampos azuis rivalizavam com as iluminações de Natal que já enfeitam toda a Avenida da Liberdade» («Acidente que feriu responsáveis do MAI terá sido causado por excesso de velocidade», Maria Lopes, Público, 28.11.2009, p. 15). Esta é uma acepção arredada dos dicionários. Para estes, pirilampos são somente os insectos coleópteros.


[Post 2854]

Ortografia: «cranioencefálico»

Podia ter sido pior

      «A viatura do MAI ficou de tal modo destruída que foi necessário desencarcerar dois dos feridos, segundo o INEM. Os quatro feridos foram levados para a urgência do Hospital de S. José, onde Mário Mendes entrou com “perdas de conhecimento”, anunciou o INEM, e chegou a suspeitar-se de traumatismo crânio-encefálico» («Acidente que feriu responsáveis do MAI terá sido causado por excesso de velocidade», Maria Lopes, Público, 28.11.2009, p. 15). Mas concluiu-se que não podia ser, pois escreve-se cranioencefálico.

[Post 2853]

Actualização em 21.1.2010

      Mas também se encontra correctamente ortografado na imprensa: «Vítor Gonçalves, de 40 anos, sofreu um traumatismo cranioencefálico, diversos ferimentos nos braços e uma fractura num pé» («Quando soube pensei no pior», Luís Oliveira, Correio da Manhã, 21.1.2010, p. 26).





«Amplicíssimo»?

Simplex para o PGR

      Já aqui tenho referido como se forma o superlativo absoluto sintético de certos adjectivos. Sim, a forma mais abundante é pela adjunção do sufixo -íssimo ao adjectivo no grau normal. Mas há casos de superlativos eruditos que recuperam parte do radical latino, como chão (chaníssimo), respeitável (respeitabilíssimo), simples (simplicíssimo ou simplíssimo) e outros. Ora, ontem, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, falou aos jornalistas na Guarda, nas cerimónias comemorativas do 810.º aniversário da cidade e na atribuição do Prémio Eduardo Lourenço 2009 ao penalista Jorge Figueiredo Dias, e usou o superlativo «amplissimo». Donde vem a sílaba ci, pode saber-se? O adjectivo latino é amplus, a, um, ao contrário do étimo de «simples», que é simplex, plĭcis. Logo, o superlativo absoluto sintético de amplo só pode ser amplíssimo. Lapso ou convicção? Nunca saberemos (pelo menos sem escutas telefónicas).

[Post 2852]

Revisor filológico

Que revisores são esses que...

      Acabo de saber pelo jornal O Figueirense que hoje à tarde, no Casino Figueira, António Bettencourt, que é o revisor filológico da obra, apresentará o último romance de António Lobo Antunes, Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar. Já tinha lido no diário i um artigo de Luís Leal Miranda («António Lobo Antunes: Anatomia de um romance», i, 1.10.2009) em que se falava da função deste revisor: «Para preservar a vontade do autor, todos os livros são passados a pente fino por um revisor filológico — de seu nome António Bettencourt. A função deste último par de olhos é verificar que todas as frases, parágrafos e páginas correspondem à última vontade do seu criador.» Bem, a minha função é mais a de verificar que todas as frases, parágrafos e páginas correspondem às regras gramaticais. A minha conversa é com a gramática e com os dicionários. Com quem conversa o revisor filológico?

[Post 2851]

Sobre «incestuário»

Hitler e as vírgulas

      O original diz: «So he was ready to assume that promising children when found in low, nondescript families could be “incestuaries.” The word in German, as he coined it, was Inzestuarier. He did not like the more common term of such disgrace, Blutschande (blood-scandal), or as it is sometimes employed in polite circles, Dramatik des Blutes (blood-drama).» E o tradutor verteu assim: «Assim, estava pronto a assumir que as crianças promissoras, quando oriundas de famílias inferiores e indeterminadas, podiam ser “incestuárias”. A palavra em alemão, tal como ele a cunhou, era Inzestuarier. Ele não gostava do termo mais comum para desgraças destas, Blutschande, (escândalo de sangue), ou, como é por vezes empregue nos círculos educados, Dramatik des Blutes, (drama de sangue)» (O Fantasma de Hitler, Norman Mailer. Tradução de Octávio Gameiro e revisão de João Vidigal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 15). Incestuoso também a língua inglesa tem (incestuous). Naturalmente, a uma palavra cunhada tem de se fazer corresponder outra invenção. (Só um reparo, colega revisor: as vírgulas antes dos parênteses de abertura servem para quê?)

[Post 2850]

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