Nome de doenças II

Hão-de aprender

      «Vítima de um Acidente Vascular Cerebral, o idoso vivia debilitado» («Taxista mata idoso», Henrique Machado, Correio da Manhã, 21.11.2009, p. 11). É a terceira vez que abordo aqui esta questão. O nome das doenças, repito, não é grafado com inicial maiúscula. No caso, admito que a confusão se deva ao facto de a doença ser mais conhecida pela sua sigla, AVC. O mesmo se passa com o desdobramento do acrónimo (ou sigla, para alguns) ONG, o que leva alguns falantes, jornalistas, a escreverem *Organizações Não Governamentais.

[Post 2833]

Sobre «overbooking»

Estou que não posso

      Ainda não me recompus completamente das opiniões abstrusas do provedor do ouvinte da RDP (pobre ouvinte!) sobre o uso de estrangeirismos na rádio. A linguista Regina Rocha disse que «overbooking em português significa “sobrelotação”... Mas soa pesada, horrorosa…». Réplica do provedor: «O avião está sobrelotado e as pessoas pensam assim: mas porquê? Leva bagagem a mais? E quando a gente ouve “overbooking”, sabemos logo: “Olha, estão lá outras pessoas que não cabem lá”.» Pois eu, e garantidamente a maioria dos falantes, penso algo diferente: que quem usa estrangeirismos desnecessários é pedante e desconhece a língua portuguesa. Se se tratar de um jornalista, lamento também o azar dos destinatários, leitores, ouvintes ou telespectadores.

[Post 2832]

«Dupla ocultação»

Mais inglesias

      Um tradutor, Gonçalo Sousa Pinto, pergunta ao Ciberdúvidas se não deveria traduzir a expressão inglesa «double blind trial» por «ensaio clínico com dupla ocultação», em vez de traduzir como é habitual: «duplo cego» «duplamente cego», «de duplo-cego», «com duplo cego», etc. O consultor, Carlos Marinheiro, responde que o «Dicionário Eletrônico Houaiss regista o termo duplo-cego (da medicina), considerando-o redução de “método duplo-cego”; a comunidade científica desta área também o usa generalizadamente, de modo que não me parece que haja vantagem em chamar-lhe “ensaio clínico com dupla ocultação”. O termo está praticamente consagrado pelo uso.» Bem, o que vejo é que a comunidade científica também usa generalizadamente «dupla ocultação» — que o consulente afirma, e bem, que está menos colado ao original inglês. Assim, à locução ensaio clínico aleatorizado com dupla ocultação (que é utilizada aqui, por exemplo), aposto que o consultor prefere ensaio clínico randomizado de duplo-cego. O que posso afirmar é que é muito frequente ver nas traduções «dupla ocultação» para «double-blind». Apesar de tanta certeza, o consultor ignorou o último pedido do consulente: «Agradeço o vosso esclarecimento e também que me possam indicar alguma publicação ou site de referência em português para o léxico próprio dos ensaios clínicos e publicações científicas da área da saúde.» Talvez não tenhamos tal, mas temos textos de consultores científicos em que se usa a locução «dupla ocultação».

[Post 2831]

Mácron e braquia

Duração das vogais

      Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva lembram, e é útil comprová-lo, que em português «o tom e a duração não permitem distinguir significados», ao contrário de outras línguas, como o mandarim e o latim. Nesta língua, «a duração da vogal numa mesma sequência pode indicar a função sintáctica da palavra — rosă, com vogal final breve, é nominativo (tem função de sujeito) e com vogal final longa, rosā, é ablativo (tem uma função complementar)» (O Essencial sobre Linguística. Lisboa: Editorial Caminho, 2006, p. 60). Na verdade, com vogal final breve tanto pode ser nominativo como vocativo, o que não altera em quase nada a verdade da afirmação. O mandarim tem quatro tons, mas o cantonês e o vietnamita, por exemplo, com seis tons, ainda são mais ricos. Já agora, para os leitores que desconhecem tudo do latim, convém dizer que apenas em obras didácticas se costuma apor um acento sobre as vogais para indicar a sua duração. As vogais longas são representadas com o acento conhecido como mácron — ā, ē, ī, ō, ū —, e as breves são marcadas com um sinal chamado braquia: ă, ĕ, ĭ, ŏ, ŭ.

[Post 2830]

Selecção vocabular

Esboços e rascunhos

      «A maioria democrata, responsável pelo rascunho da proposta, fez valer a sua força para fazer avançar o processo» («Senado ultrapassa primeiro obstáculo da reforma do sistema de saúde norte-americano», Rita Siza, Público, 23.11.2009, p. 16). Rascunho parece-me a primeira palavra que nos ocorre quando queremos traduzir a palavra inglesa draft. Em português, ocorre com muito mais frequência «esboço de proposta». Draft também se pode traduzir por «anteprojecto», como na expressão draft bill.

[Post 2829]

Abatjoureiros e revisores

Quebra-luzeiros

      Qual é a primeira profissão da Classificação Nacional de Profissões (CNP), sabem? Abatjoureiro. Muito pior, acho eu, do que dizer que se trabalha num centro de apoio ao cliente (mas o provedor do ouvinte da RDP prefere todos os estrangeirismos à língua nacional e, neste caso, prefere call center). Mas isso agora não interessa. Os revisores de provas fazem parte desta lista? Sim, senhor. Figuram assim: Codificadores, Revisores de Provas e Similares. Portanto, o nosso sindicato exclue outros revisores: os revisores oficiais de contas e os revisores de bilhetes dos caminhos-de-ferro. Damo-nos melhor com os codificadores e com os nossos similares. Na obra O Essencial sobre Linguística (Lisboa: Editorial Caminho, 2006), Maria Helena Mira Mateus e Alina Villalva afirmam que a «profissão de linguista é tão recente que, em Portugal, ainda não aparece registada» na CNP.

[Post 2828]

Corpo tipográfico

Com um tipómetro

      «O Aviso n.º 4/2009 obriga as instituições a prestar diversas informações numa ficha de informação normalizada num momento anterior ao do depósito e, para evitar as tão mal-afamadas “letras pequenas”, a entidade presidida por Vítor Constâncio vai ao ponto de definir que o tamanho da letra não poderá ser inferior a corpo 9» («Maior rigor nos depósitos bancários», Diogo Lopes Pereira, Diário de Notícias/DN Bolsa, 20.11.2009, p. 11). Doravante, os advogados têm de munir-se de um tipómetro — uma régua para verificação das medidas tipográficas — para verificarem o corpo do texto dos contratos bancários. O que irá decerto servir de pretexto para o aumento dos honorários...

[Post 2827]

Nomes chineses

Chineses, coreanos...  


      «Uma semana depois de ser demitido, MacArthur depôs perante uma sessão conjunta do Congresso; defendeu o bombardeamento das bases aéreas da China na Manchúria e o uso das tropas nacionalistas chinesas de Chiang Kai-Shek na Coreia, antes de concluir o discurso com a sua famosa despedida, comprometendo-se a “pura e simplesmente desaparecer, um velho soldado que tentou cumprir o seu dever de acordo com a luz que Deus lhe deu para entender esse dever”» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 37).
      No Manual de Redação e Estilo do jornal Estado de S. Paulo, pode ler-se: «O Estado adota a grafia atualizada (e convencional) dos nomes chineses: Deng Xiaoping, Zhao Ziang, Hua Kuofeng. 2 — Exceções: Mao Tsé-tung, Chiang Kai-chek e Chu En-lai. 3 — Nos nomes em que haja um elemento composto, o segundo termo tem inicial minúscula: Tsé-tung, Kai-chek, En-lai, Yang-tse (rio), Kai-fong (cidade), Ki-lin (província). 4 — Como o sobrenome, nos nomes chineses, vem antes do nome, nos títulos ou na segunda referência dos textos use Mao (e não Tsé-tung), Deng (e não Xiaoping), Chu (e não En-lai), etc.»
      Com nomes coreanos, também é habitual proceder-se da mesma forma: «A última paragem, ontem em Seul, velho aliado dos EUA, foi uma pequena amostra do que havia sido toda a semana. Depois de uma reunião com o Presidente sul-coreano Lee Myung-bak, Obama visitou os militares americanos estacionados na sombra da ameaça nuclear da Coreia do Norte» («Obama deixa a Ásia com uma mão-cheia de quase nada», Hugo Coelho, Diário de Notícias, 20.11.2009, p. 29). Já agora, aproveito para dizer que, segundo as normas de catalogação, em relação aos autores chineses não se inverte o nome.

[Post 2826]

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