Ortografia: «neonatologia»


Eles sabem lá

      «Acha possível que um dia», pergunta-me um leitor, «nas maternidades, os Serviços de Neonatalogia corrijam as tabuletas?» Não vejo que esse dia chegue. Na Universidade de Coimbra, a única portuguesa a figurar em tabelas internacionais dos melhores estabelecimentos de ensino superior, em Pediatria também há aulas de «Neonatalogia». Tantas sumidades por ali passam e nenhuma vê o disparate? Donde vem aquele a, se a formação da palavra é neonato+-logia. (No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora lê-se que os elementos são neo-+nato+-logia. Mas como pode ser assim, se existe o vocábulo, adjectivo e substantivo, «neonato»?) Ultimamente tenho visto erros sem conta em manuais disponibilizados pelos docentes de certas disciplinas numa universidade cujo nome agora não me ocorre.



[Post 2817]

«Eficaz»/«eficiente»

Eficácia versus eficiência     


      No metro, dois estudantes universitários, um branco e um negro, discutiam acaloradamente a resposta a uma questão de um teste, talvez de Economia ou de Gestão. A empresa referida seria eficaz ou eficiente? Um, o branco, dizia que tinha respondido, e era, eficaz, porque a empresa geria bem os recursos. O outro dizia o contrário: eficiente é que diz respeito aos recursos. Estive para intervir, como tantas vezes faço, mas não o fiz. Embora tenha estudado os conceitos em disciplinas económicas, nem é preciso tanto: os conceitos tal como os registam os dicionários gerais chegam. Assim, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, eficiência é o «poder de realizar (algo) convenientemente, despendendo de um mínimo de esforço, tempo e outros recursos». Para o mesmo dicionário, eficácia é a «força para produzir determinados efeitos». Verba mollia et efficacia, diziam os Romanos. Ou seja, palavras suaves e eficazes, que produzem o seu efeito. Os conceitos andam, é verdade, muito confundidos.

[Post 2816]

«Meios de progressão»

É o progresso
     

      «Foram sete dias a percorrer quase ininterruptamente 900km [sic], quase sempre fora da estrada e recorrendo à orientação. A pé, de BTT e de canoa (sem desdenhar de outros meios de progressão, como os patins e a natação, por exemplo), 59 equipas (de quatro elementos) lançaram-se a caminho para conquistar o Campeonato Mundial de Corridas de Aventura 2009, que este ano decorreu em Portugal» («Helly Hansen, uma equipa de resistentes de nível mundial», A. M. P., Público, 15.11.2009, p. 35). Não sei, mas a expressão «meios de progressão» parece ter origem militar. O Dicionário Houaiss apenas regista as locuções «progressão aritmética», «progressão geométrica» e «progressão harmónica».

[Post 2815]

«Anóxia» e «anoxia»

Diga lá, João

      «O bebé que morreu no útero da mãe em Portalegre terá sido vitimado por alterações na circulação sanguínea que apontam para mais um caso de morte fetal súbita. O relatório da autópsia é inconclusivo quanto às causas que provocaram aquelas alterações (anoxia aguda)» («Autópsia revela que feto de Portalegre foi vítima de morte súbita», Natália Faria, Público, 17.11.2009, p. 9). O vocábulo tanto se pode escrever anoxia como anóxia — não podemos é lê-lo da mesma maneira. Gostava de saber que palavra estava escrita no guião que João Adelino Faria, o pivô da RTPN, leu ontem no À Noite, as Notícias. A forma que mais se encontra é anoxia, mera variação prosódica de anóxia, que nada tem que ver, em termos de etimologia, com vocábulos terminados em -ia, como anorexia.

[Post 2814]

Género de «tesão» II

Rijezas gramaticais     


      Na sua crónica de hoje, Miguel Esteves Cardoso também fala da campanha da Junta da Extremadura, e remata assim o seu texto: «A puberdade leva à loucura hormonal e, mesmo que não ensinasse nada de novo aos loucos e às loucas adolescentes, pelo menos o carácter oficial da campanha contribuirá para remover qualquer culpabilidade — e mesmo um pouco daquela constante tesão» («Mãos à obra», Público, 17.11.2009, p. 40). Pode dar jeito imaginar que o vocábulo «tesão» é do género feminino — mas não é. Vimo-lo aqui.


[Post 2813]

Léxico: «tabaco picado»

Mar picado? E tabaco?

      «Se a receita fiscal tende, este ano, a ser inferior, assim como os cigarros introduzidos no consumo, por que razão acredita a Tabaqueira que o mercado está a estabilizar? Porque, e também como diz o presidente da Associação de Grossistas de Tabaco do Sul, João Passos, “2009 foi um ano atípico”: “Os Governos não puderam pôr em prática a gula fiscal relativa ao tabaco, até porque havia uma grande diferença entre Portugal e Espanha no que toca ao preço do tabaco”, afirma. Acrescenta que o impacte da crise se nota “numa maior flutuação semanal”: “No fim do mês, as nossas vendas são 10 por cento inferiores ao início, mas há deslocalização para os picados [tabaco de enrolar], que duplicaram as vendas. “O comércio de tabaco picado aumentou 100 por cento”, diz, explicando que, em vez de deixarem de fumar, os consumidores optam, por exemplo, pelo tabaco de enrolar, por ser mais barato» («Crise económica leva fumadores a optar pelos cigarros de enrolar», Maria João Lopes, Público, 16.11.2009, p. 8). Alguns dicionários, como Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, registam que picar é «cortar em pequenos bocados (alimentos)», mas é claro que não se aplica apenas a alimentos.


[Post 2812]

Formatação de texto

«Eu ainda sou do tempo...»

      Clara Pinto Correia, que tem 56 livros publicados, comparou, no programa Os Dias do Futuro, como era escrever antes e como é agora: «Hoje em dia espera-se de nós que a gente entregue o romance à editora num instantinho, já todo formatado, com as imagens lá inseridas, com as legendas postas, com as notas de rodapé já todas muito bonitinhas... […] nós temos de trabalhar que nem uns cães.» Com 56 livros publicados, já devia saber que quase toda — repito: quase toda — a formatação é trabalho inútil. Pior: vai dar mais trabalho ao paginador. A meio da conversa, ia jurar que ouvi um «prontos», mas pronto.

[Post 2811]

Tradução: «massive offensive»

Somos todos padeiros

      Admito: nem sempre é possível deixar de incluir alguma «massa» na tradução do omnipresente «massive» inglês. Mas poucas vezes. Vejamos este exemplo de um dos melhores tradutores portugueses: «A guerra tinha então entrado num segundo ano horrível, com três quartos de milhão de soldados da China comunista e da Coreia do Norte a desencadear constantes ofensivas em massa e as forças das Nações Unidas, encabeçadas pelos Estados Unidos, a responder desencadeando contra-ofensivas em massa depois de sofrerem pesadas baixas» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 35). No original há-de estar massive offensives e massive counteroffensives.

[Post 2810]

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