«Primus super pares»

Argumento jurídico ou linguístico?

      «Os advogados de Berlusconi, por seu lado, centraram a defesa em dois pontos. Primeiro, a lei Alfano não dá imunidade vitalícia, mas apenas a suspensão temporária enquanto a pessoa estiver no cargo. Segundo, Berlusconi distingue-se dos restantes cidadãos pela importância das suas funções, que não pode exercer serenamente se estiver a preparar a sua defesa em tribunal. "O primeiro-ministro não pode ser tratado como um parlamentar comum, deve ser tratado como o primus super pares, o primeiro acima dos pares”, alegou Gaetano Pecorella» («Berlusconi de novo na mira da justiça», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 7.10.2009, p. 25). O primus inter pares da tradição liberal passou, congeminado pelos advogados de Berlusconi, a primus super pares. Aqui, contudo, o latim não sai maltratado, pois apenas se substituiu uma preposição por outra, e ambas são regidas por acusativo.

[Post 2793]

Latim macarrónico

E mal agradecidos

      «Populares durante anos, os carros tornaram-se viaturas non gratas entre os condutores a favor do tom prateado, a cor que ainda domina as estradas, a par do preto. Até ganharam a alcunha de “frigoríficos”» («Carros brancos já não são frigoríficos pirosos», L. S., Diário de Notícias, 7.10.2009, p. 51). Não sei como é que os jornalistas se atrevem a escrever numa língua que não dominam. O latim é uma língua declinável — o plural não se obtém da forma como se obtém em português. Gratas, em latim, é acusativo plural. O nominativo plural é gratae, logo, o jornalista deveria ter escrito non gratae.

[Post 2792]

Bíblia. Uso do itálico

Só em inglês

      «Uma Bíblia “sem aditivos”. Foi assim que Timóteo Cavaco, da Sociedade Bíblica Portuguesa, se referiu à nova tradução da Bíblia ontem apresentada em Lisboa» («Apresentada edição da Bíblia “sem aditivos” com Samuel Úria a cantar “Saramago é bom”», António Marujo, Público, 21.10.2009, p. 10). É preciso consultarmos obras de referência anglo-saxónicas para saber que, com o nome de livros religiosos ou sacros, não se usa itálico: Bíblia, Alcorão. É uma excepção, pois, como sabemos, o itálico usa-se para realçar os títulos de obras literárias jornais, revistas e outras publicações de natureza semelhante. Tal como os livros da Bíblia também não são grafados entre aspas.

[Post 2791]

Judeu/judaico, de novo

É pena

      «Um ou dois deputados judaicos do Knesset tentaram ajudar — na sua maioria, os deputados mais liberais» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 108). Numa legenda de um mapa do Plano de partilha de ONU (1947), na página 11, por seu lado, podia ler-se: «Estado judeu». Ninguém viu que estava incorrecto. (Ou, para ser prudente e justo, talvez até alguém tenha visto, mas quem manda achou que não — como sucede também comigo…)

[Post 2790]

Tradução: «volatile»

Ainda explode

      De uma maneira geral, volátil é vocábulo que só vejo em traduções. E tenho sérias dúvidas sobre a propriedade com que é usado. Valha este exemplo: «O Médio Oriente talvez seja a mais volátil região do mundo e aquela cuja instabilidade é a ameaça mais persistente à paz global» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 23). O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de volatile «volátil», sim, mas, no âmbito da química, referido a um líquido. Referido à economia, ao mercado, a uma situação traduz por — instável. Referido, por fim, a uma pessoa, «volúvel», «inconstante». Volátil deve então ser por causa de a região ser rica em petróleo…

[Post 2789]

Uso das preposições

Pára, pára, pára!

      «Depois de nos juntarmos aos dirigentes da nossa delegação, para concluir a nossa apreciação das eleições, que era globalmente positiva, fui para Ramallah, para me reunir com Abbas e com os seus principais conselheiros» (Palestina: Paz sim. Apartheid, não, Jimmy Carter. Tradução de Pedro Garcia Rosado e revisão de Luís Milheiro. Lisboa: Quidnovi, 2007, p. 156). Três vezes a preposição «para» na mesma frase? Quando leio uma frase destas, lembro-me sempre do revisor antibrasileiro. Nunca ele deixaria passar uma frase assim tão desasada. E a pontuação está incorrecta. Proponho: «Depois de nos juntarmos aos dirigentes da nossa delegação para concluir a nossa apreciação das eleições, que era globalmente positiva, fui a uma reunião com Abbas e com os seus principais conselheiros.» O leitor perspicaz já reparou: não se trata, no caso, de uma questão meramente (e já era muito) estilística, mas também gramatical. O segundo para está usado incorrectamente pela preposição a. Sim, convém fazer uma revisão do uso de preposições com os verbos ir e vir, e especificamente do uso de ir para vs. ir a. Esta indica menos permanência; aquela indica mais permanência. Por exemplo: daqui a uns minutos vou ao Mercado de Benfica. Não vou para o Mercado de Benfica, pois não tenho lá banca. Não estou a ver Jimmy Carter, que me parece um homem tão pusilânime, a ir para Ramallah…

[Post 2788]

Tradução: «marine»

Fora com os marines!

      Concordo consigo, caro M. L.: nada há de tão específico na palavra inglesa marine que nos obrigue a não traduzi-la. Como eu, pensam outros revisores e tradutores. Só um exemplo: Pedro Garcia Rosado, tradutor da obra Palestina: Paz sim. Apartheid, não, de Jimmy Carter (Lisboa: Quidnovi, 2007), nunca usou, tanto quanto vi, o anglicismo marine. E assim deveríamos fazer todos. «Em Abril de 1983, um mês depois de eu ter visitado Beirute, foram mortas 63 pessoas pela explosão de uma bomba colocada na embaixada americana e, mais tarde, uma outra, e mais mortífera, explosão tirou a vida a 241 fuzileiros americanos, que se encontravam nos seus aquartelamentos» (p. 90). O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora dá como tradução de marine «fuzileiro naval» e não meramente «fuzileiro».

[Post 2787]

«Aqui» e «ali»: dissílabos

Aprendizes

      Uma professora pergunta-me se os vocábulos «aqui» e «ali» são dissílabos ou monossílabos. Para ela, afirma, são dissílabos, mas, numa aula, três alunos do 2.º Ciclo «corrigiram-na». Sempre os considerei dissílabos, e fui confirmá-lo no Míni Aurélio e na MorDebe. Carlos Marinheiro, do Ciberdúvidas, afirma que a «confusão pode resultar do facto de, na translineação, uma vogal não dever ficar isolada numa linha, enquanto o resto da palavra vai para a linha seguinte». Admitiria tal argumento — se não soubesse que muitos professores ignoram essa regra, quanto mais os falantes comuns. Para mim, a confusão deve-se ao facto de, ao contrário da generalidade dos dissílabos, estes (e outros) serem constituídos por uma sílaba com apenas uma vogal, e não por duas letras (como em «casa», por exemplo). São, e é isso que interessa à minha leitora, dissílabos, pois a prolação desses vocábulos dá-se em duas emissões de voz: a.qui, a.li.

[Post 2786]

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