Léxico: «censório»

Meu amigo


      Na emissão de anteontem do programa Contraditório, da Antena 1, Carlos Magno, provavelmente a pessoa em Portugal que mais vezes usa em vão a palavra «amigo», embalado na facilidade de discurso, de vez em quando inventa palavras: «[…] e acho que todos nós temos direito a ser o que somos sem que máquinas inquisitoriais ou censoriais venham agora aqui […]». Não existem todos os pares de homófonas que nos passam pela cabeça: censual/sensual, censorial/sensorial… Não, não: o adjectivo é censório. Que formará, com «sensório», outro par: censório/sensório.

Citações imperfeitas

Momento alto


      O padre Carreira das Neves tem, viu-se ontem no debate com José Saramago, uma perigosa propensão para resumir o que está a dizer com um «e tal», mas desta vez as coisas correram-lhe manifestamente mal. «Quando José Saramago diz que a Bíblia não sei quê e tal é um… é um…» Atalhou, agastado, prontamente Saramago: «Eu nunca disse: “A Bíblia não sei quê e tal.” Ou reproduz as minhas palavras, ou então...» «Tem toda a razão, meu caro amigo.»

Sobre «ruptura»

Rotura, ruptura, rutura…


      Prefiro «ruptura» a «rotura», e nunca pronuncio o p. E o leitor? Vem esta reflexão a propósito de ontem, no frente-a-frente, na SIC Notícias, entre Saldanha Sanches e Paulo Rangel (logo depois do debate alienante entre Carreira das Neves e José Saramago), o fiscalista ter articulado claramente o p de «ruptura». Fui ver o que dizem as obras relativas ao Acordo Ortográfico de 1990. Pelo que vejo, são consensuais sobre a queda do p neste vocábulo, excepto na variante brasileira do português (o que confirmo na 5.ª edição do VOLP). Quem sabe se não se deve à esperança que alguns falantes acalentam de, se agora articularem sonoramente cada c e cada p, depois da entrada em vigor do acordo não terem de prescindir deles…

Ortografia: «hidropisia»

Um erro lamentável


      «Já li, não sei onde, que as palavras “autopsia”, “necropsia” e “biopsia” não devem levar acento — embora muitos os usem...», escreve-me um leitor. «Há dias surgiu-me, numa leitura, a frase «a chamada hidrópsia fetal (que pode ser fatal)...». Procurei no Dicionário Médico de Manuila et al. e nos dicionários on-line Infopédia e Priberam, assim como no Portal da Língua Portuguesa e não encontro “hidropsia” nem “hidrópsia” — só aparece “hidropisia”. Nos meus dicionários em papel (Houaiss, da Academia, da SLP) é o mesmo. Mesmo o velho Faria (1855-57) só tem “hydropesia ou hydropisia” (aliás, das outras, só tem “autopsia”).» O leitor conclui escrevendo que no Google encontra tanto «hidropsia» como «hidrópsia».
      Ainda bem que não encontrou em nenhum dicionário: essas grafias, apesar de muito usadas, estão erradas. É mais um erro médico — mas deste não podemos pedir indemnização. Hidropisia é o termo médico para o derramamento de líquido seroso em tecidos ou em cavidade do corpo. (Ao que padece de hidropisia chama-se hidrópico.) Ora, o elemento de composição pospositivo -opsia (e a variante -ópsia) é usado em compostos eruditos da terminologia científica e está relacionado com «visão» e «exame»: acianopsia, acromatopsia, anopsia, biopsia, diacromatopsia, dictiopsia, discromatopsia, discromopsia, eritropsia, fonopsia, fotopsia, hemianopsia, irisopsia, macropsia, micropsia, miopsia, necropsia, oxiopsia, paropsia, protanopsia, teopsia, xantopsia, zoopsia… Temos então que os falantes não apenas fazem a língua, também a desfazem.

Derivação imprópria


Uma chiclete portuguesa


      «Top of mind é como a gíria publicitária classifica as marcas que se associam directamente ao produto. À semelhança de fenómenos como a Gillette, muitos referem-se à pastilha elástica como simplesmente chiclet» («Chiclets comemora 75 anos em Portugal», Renato Duarte, Público, 22.10.2009, p. 9). Em gramática damos-lhe o nome de derivação imprópria, assunto já aqui abordado mais do que uma vez. E para ser inteiramente correcto, o jornalista deveria ter escrito «chiclete», pois o termo é usado e já está dicionarizado.

Selecção vocabular

Digo o mesmo

«Pena foi que Edite Estrela, num estilo que não a deslustra, entendesse prosseguir na mesma senda de disparate-puxa-disparate e tratasse de ser mais saramaguista do que Saramago, e passou ao ataque a Mário David, acusando-o de ter tido uma “atitude inquisitorial”. A frase soa bem, apesar de nada ter a ver com a boutade do seu colega no Parlamento Europeu, pelo que se espera que o disparate fique por aqui, já que a cereja até já está colocada no bolo» («De novo o problema da liberdade de expressão», José Manuel Fernandes, Público, 22.10.2009, p. 38). A frase do director do Público também soa bem, e especialmente aquele «boutade», que duvido, todavia, que se aplique com inteira propriedade no contexto. Não escrever português complica sempre um pouco…

Textualidade bíblica

A Bíblia de Saramago

Da polémica (e publicidade) em torno da mais recente obra de Saramago, retive pelo menos duas coisas. Uma foi ter falado ao telefone (mas era engano) com uma senhora idosa que me disse (fui, é uma fraqueza recorrente, demasiado simpático) que Saramago escreveu a Bíblia. Tentei desconvencê-la, mas foi impossível. Outra foi a crónica de Miguel Gaspar no Público, de que cito esta frase: «“Eu leio apenas aquilo que lá está”, escreve Saramago, como se Saramago não soubesse que a Bíblia, como todos os textos, é aberto à pluralidade de leituras» («O Deus de Saramago», Miguel Gaspar, Público, 22.10.2009, p. 40). Não é preciso ter cursado Linguística para se saber que é um disparate, por ser um argumento reducionista, a afirmação do «nosso» Nobel da Literatura.

Sistão-Baluchistão

Imprevisível

      Também é de saudar vivamente esta forma de grafar um topónimo que nos é estranho. Do Público, devo dizê-lo, esperava que grafasse, sei lá, Sistan-Baluchistão, a macaquear o inglês Sistan-Baluchistan. Mas não. «O Paquistão prometeu ontem ajudar o Irão a capturar os responsáveis por um ataque suicida que, no domingo, matou dezenas de pessoas na província do Sistão-Baluchistão» («Os pasdaran pedem licença para entrar no Paquistão», Público, 22.10.2009, p. 14).

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