«Pasdar/pasdaran»

Muito bem

«O general pasdar Mohammad Pakpour, cuja força foi directamente visada no ataque dos “Soldados de Deus”, não especifica, na sua declaração à televisão estatal iraniana, se pretende autorização do Governo de Islamabad ou das autoridades iranianas para perseguir os rebeldes além fronteira» («Os pasdaran pedem licença para entrar no Paquistão», Público, 22.10.2009, p. 14). Não é todos os dias que se vê tal respeito pelos plurais de termos estrangeiros. Em língua persa, pasdar significa «guarda», e pasdaran é a designação informal dos Guardas da Revolução, uma força paramilitar iraniana. (Só é pena o advérbio além-fronteiras estar duplamente mal grafado.)

Ortografia: «macarthismo»

Caça às incoerências

Numa tradução, leio «McCarthysmo». Na Infopédia, no verbete «Cornelius Lanczos», lê-se «maccartismo». No verbete «Frentes da Guerra Fria: 1946−1962», lê-se «macartista». No verbete «Joseph McCarthy», já se lê «McCarthismo». Como diria a minha avó materna, quantos mais são (nos departamentos das editoras), menos fazem. O Dicionário Houaiss regista macarthismo e a variante mccarthismo. O vocábulo refere uma época histórica? Não. Na definição deste dicionário, é a «prática política que se caracteriza pelo sectarismo, notadamente anticomunista, inspirada no movimento dirigido pelo senador Joseph Raymond McCarthy (1909−1957), durante os anos 1950, nos E.U.A.». Logo, deverá grafar-se com minúscula inicial. O th deve-se ao facto de «os termos derivados de palavras estrangeiras com grafias estranhas ao português preservarem, neste dicionário, as características da grafia original, de acordo com praticamente todas as convenções ortográficas do português estabelecidas entre o Brasil e Portugal».

Major/minor II

Será «especialização»?


      Decerto que ainda se recordam da questão relativa à tradução de major/minor. Foi suficientemente controversa, e com comentários de académicos, à primeira vista os que teriam uma opinião mais abalizada, para se poder concluir que não é evidente. Hoje trago mais uma frase e a respectiva tradução. «In his junior year, X elected to become a prelaw sociology major.» As especificidades de cada realidade trazem sempre dificuldades ao tradutor, que desta vez verteu: «No seu primeiro ano, X escolheu especializar-se em Sociologia das Leis.»

Conceitos


Trocas

Rui Zink, escritor e professor universitário, escreveu recentemente: «“Estou cansada, não me chateies, dói-me a cabeça” ou a tirada mais cruel de todas: “Cheiras a álcool”, por isso pus-me a fazer zapping, agora já nem zapping é, perdeu um p, porque se tornou uma palavra aceite pelas gramáticas da língua portuguesa, a malta diz mal do acordo ortográfico como se aqui fôssemos todos lordes da língua, não somos, e agora é zaping que se diz, como pisa, já não é pizza, é piza, nem sei se tem z ou se tem s, só sei é que já nem sabe à mesma coisa, olhe quero uma piza (ou pisa) de cogumelos com fiambre, até parece que tem menos cogumelos e menos fiambre […]» («É muito triste ser homem», Metro, 14.10.2009, p. 9). «Aceite pelas gramáticas»? Troca de conceitos: os dicionários é que acolhem os vocábulos da língua — as gramáticas são obras que contêm os princípios e as normas da organização e funcionamento da língua. Se tivesse sido um cronista social a confundir os conceitos, ainda se aceitava.

Léxico: «pediculose»

Fazem comichão

«É preciso estar atento às cabeças que, vá lá saber-se porquê, dão mais comichão e apertar a vigilância em tempo de aulas: “Logo que se suspeite de pediculose [infestação por piolhos], deve iniciar-se o tratamento e avisar a escola”, sugere Álvaro Birne, pediatra» («Regresso às aulas», Andreia Pereira, Notícias Magazine, 6.09.2009, p. 71). Está explicado o termo: infestação por piolhos. Em latim, «piolho» dizia-se pēdis, is, e o adjectivo relativo era pĕdĭcŭlāris, e. Se tem algo que ver com pés? Semelhança, apenas: em latim, «pé» dizia-se pēs, pĕdis. Ah, sim, e «pezinho» era pĕdĭcŭlus, i.

Pontuação

Gramática inata

Todos os dias aprendo, e não o digo por humildade, algo sobre a língua. Não apenas leio, estudo. Tudo razões para ficar perplexo quando me dizem, e tantos já o fizeram, que pontuam por intuição. Lembrei-me agora disto quando reli a entrevista que o investigador e especialista em sintaxe teórica João Costa deu à revista Notícias Magazine (6.09.2009), em que lembra que os alunos que terminam o 1.º Ciclo «vão ter de aprender a pontuar (ninguém pontua bem por intuição) e como se estrutura um texto (o que também tem de ser aprendido explicitamente). Algumas pessoas dizem: “Eu escrevo muito bem e nunca tive de aprender a pontuar.” Pois, teve sorte. Inferiu a partir das leituras que fez as regras de pontuação». Apesar de, segundo este especialista, haver «uma parte da nossa gramática que é inata, nascemos com ela, tal como nascemos com outras competências cognitivas. Ou seja, nem todo o nosso conhecimento linguístico decorre de uma interacção com o input».

Léxico: «loden»

Imagem: http://www.born-for-loden.co.uk/

Símbolo do grande capital



      Se bem me lembro, o dele era verde-azeitona. Ou não seria? De qualquer modo, quem se lembra, porque fala nisso, é Clara Ferreira Alves: «Freitas do Amaral foi ridicularizado como um símbolo do grande capital porque usava um loden» («Eu, quando há calistos, não posso!», Clara Ferreira Alves, Expresso/Única, 25.09.2009, p. 96). Loden é vocábulo inglês com étimo no alto-alemão e os dicionários ingleses dão-lhe esta definição: «A durable, water-repellent, coarse woolen fabric used chiefly for coats and jackets.»

Ortografia: «Caim»

Ora essa

Um leitor escreveu-me a dizer que é urgente que eu esclareça qual a «forma de escrever o nome do irmão de Abel!... Caim, Caím ou Caín (como está na capa do livro de Saramago)?». Não sabia que havia estas dúvidas tão excruciantes. Comecemos pelo último. Caín existe — mas em espanhol. (Em latim, é Cain, como se lê na Vulgata: «Adam vero cognovit Evam uxo rem suam, quae concepit et peperit Cain dicens: “Acquisivi virum per Dominum”» [Gn 4, 1]). Temos então Caim e Caím. Ora, esta última forma é espúria, pois, como sabemos, as vogais tónicas i e u não levam acento agudo quando, precedidas de vogal que com elas não formarem ditongo, se encontrem em sílaba terminada em l, m, n, r, z, ou forem seguidas do digrama nh: adail, Saul, Caim, ruim, constituir, juiz, moinho.

Arquivo do blogue