«Quartel militar»?

Redundâncias ibéricas

Alguns jornais espanhóis referiram ultimamente que tinham sido detectados casos de gripe A num «cuartel militar» («quartel militar»). Agora, a Fundéu, Fundación del Español Urgente, vem recomendar que se deve evitar a redundância, dizendo: «[…] basta con decir cuartel, pues ante esa palabra cualquier hispanohablante piensa en los militares. Se trata de una redundancia innecesaria, si bien es cierto que hay también cuarteles de bomberos, de policía… Pero cuando se habla de estos últimos siempre se menciona específicamente de qué se trata, precisamente porque si se dice solo cuartel de inmediato se piensa en el militar». E em português? É o mesmo: quartel é, na definição do Dicionário Houaiss, a «construção, edifício destinado a abrigar tropas 2 p.ext. MIL qualquer edifício onde esteja alojado um regimento, batalhão, destacamento etc.». E também por cá se diz e escreve, redundantemente, «quartel militar», como nesta notícia da RTP: «A Universidade Junior [sic], no Porto, contou este ano com a participação de cinco mil jovens, mil dos quais em regime de internato com alojamento num quartel militar» («Jovens no quartel militar», 23.07.2009, aqui).

«Comuna/commie»

Sem preconceitos


      É uma boa surpresa ver que os dicionários, ou pelo menos alguns, como o muito difundido Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não cederam a preconceitos e registam o vocábulo «comuna» na acepção, depreciativa, de «comunista». A língua inglesa também tem o termo correspondente, commie, e também está dicionarizado.

Tradução: «eulogy»


Espera aí!

«In his eulogy at the funeral for the girls…» E o tradutor: «Na sua eulogia feita durante o funeral das quatro raparigas…» Espera aí! O mais próximo que os dicionários da língua portuguesa registam é «eulógias», que são fragmentos de pão que os primeiros cristãos levavam para a consagração, na Missa. O termo inglês terá vindo do grego, mas através do latim medieval eulogium. Não, não é o étimo do nosso «elogio». Este vem do vocábulo latino ēlŏgĭum, ĭī, «inscrição; epitáfio; indicação, notícia breve, relatório, registo». O tradutor deveria ter optado, por exemplo, por elogio fúnebre.

Léxico: «bardo»

Outra poesia

«Neste dia o trabalho é mais duro, já que a Renova, sendo uma quinta velha, tem os bardos — fiadas de videiras — plantados mais juntos, impedindo a mecanização» («Um país nas vinhas», Susana Torrão, Notícias Sábado, 26.09.2009, p. 27). Quando ouvimos a palavra «bardo», normalmente é referida a Camões, e então, por antonomásia, o Bardo. (O étimo é o latim bardus, i, através do francês barde, que se referia ao cantor e poeta entre os Gauleses.) Mas este é outro bardo: vem de barda, na acepção de «tapume, formado por sebe, ramos, espinheiros ou silvas» e significa a fila de videiras ligadas a estacas e arames que formam um suporte vertical.

Regência verbal: «confrontar-se»

A pergunta essencial

«E é claro que, qualquer que seja o media, os seus responsáveis estão permanentemente confrontados à impossibilidade de os tratar e publicar todos» («A pergunta essencial», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 5.09.2009, p. 57). A pergunta essencial, no caso, é: conformamo-nos com a gramática ou inventamo-la? A regência do verbo confrontar na acepção de «ver-se diante», «deparar-se com» é feita com a preposição com, e fácil seria confutar a construção do autor aduzindo citações, mas não o farei. Quanto a media, o Livro de Estilo do Público recomenda, já que ninguém escreveria medium*, que se use, no singular, «órgão de comunicação (social)».

* Actualização em 23.10.2009

Bem, com algumas excepções: «Os blogues surgiram em massa, como um “medium rebelde”, sem regras e ao alcance de qualquer um» («Criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais», Catarina Homem Marques, Público, 11.4.2006, p. 47).

Deep South/Sul Profundo


Assim mesmo

      «[Aiken] É uma cidade enriquecida por as suas centrais nucleares fornecerem a energia para a Carolina do Sul e o plutónio para as bombas de hidrogénio, mas guardando as mansões do Sul profundo, com varandas, balaustradas e colunas gregas» («Bill Clinton pinta Carolina do Sul às cores», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 26.01.2008). Embora seja um conceito mais do que geográfico, Deep South é essencialmente um topónimo — pelo que se terá de grafar em português com iniciais maiúsculas: Sul Profundo.

Sobre «reformatório»

Voltou

«Mas, na sala do primeiro ano, Zachary é conhecido como o rapaz que levou um castigo e está a caminho do reformatório» («Criança arrisca reformatório por levar faca de almoço para escola», H. C., Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 49). Ainda pensei que o facto de nas notícias dos jornais norte-americanos se ler a expressão reform school tinha sido determinante para a opção do jornalista por «reformatório», vocábulo muito menos usado actualmente, pois que agora se fala de institutos de reinserção social. Mas não. Já em Abril, e referindo-se a um adolescente díscolo e valdevinos do Sátão, distrito de Viseu, um jornalista usara o vocábulo: «Saiu do reformatório e aterroriza os pais» (Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 7.04.2009). Antigamente, ao estabelecimento de educação para menores delinquentes ou em perigo de delinquência chamava-se, consoante o escopo legal, casa de correcção ou escola correccional.

Jargão médico III

Imperfeito

«Segundo o médico oncologista [Lourenço Marques, do Serviço de Medicina Paliativa do Hospital do Fundão], 91% dos 126 pacientes daquele serviço de saúde que morreram no ano passado fizeram opiáceos fortes da última vez que foram internados, e, destes, 60% receberam morfina injectável» («Portugueses são dos maiores consumidores de morfina do mundo», Catarina Cristão, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 14). Eu disse que era culpa dos médicos falar-se assim? Enganei-me: é culpa dos jornalistas, que não pensam duas vezes e vão atrás.

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