Disparates na televisão

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Três metades de nada


O cozinheiro do Panda Cozinha, Tito Coelho (que deveria falar menos e evitar os «prontos»), anda há uma semana a preparar pratos com arepas. No final do episódio de hoje, propôs que metade das arepas fosse para ele, metade para o Panda e… metade para o Lobo Mau. Seria possível, sim, se dispusessem de várias doses e cada um comesse metade.

Léxico: «preceptorado»

De mal a pior

Catarina Guerreiro, jornalista do Diário de Notícias, foi visitar o Colégio Mira Rio, a escola mais bem classificada na tabela das escolas com melhores resultados nos exames deste ano (o chamado «ranking das escolas»). Todas as alunas, afirma, estavam nas aulas. Excepto uma. E onde estava esta? Pois «numa cadeira, no meio da relva, num jardim que existe à entrada da escola». Sozinha? Não. «À sua frente, uma professora conversava calmamente com ela.» Que amena conversa seria esta? «Tratava-se de uma ‘reunião de percepturado’», garante a jornalista, que escreve mais duas vezes «percepturado». Está-se logo a ver: de «preceptor», «percepturado»… Não era preciso, parece-me, saber latim: praeceptor, praecipio+-tor, praecipio, prae+capio… Afinal, até o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista o vocábulo: preceptorado: «influência, orientação. Direcção pedagógica». (Não, não fui seminarii alumnus — é assim que se diz, caro Fernando? —, mas tenho pena.)

Especificador de «milhão»

Vícios de linguagem

      «Partilha [Elinor Ostrom] as 10 milhões de coroas suecas (980 mil euros) com Oliver Williamson» («A primeira mulher Nobel da Economia», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 13.10.2009, p. 51). Acontece que «milhão» é um substantivo masculino (ao passo que «mil», por exemplo, é um numeral), pelo que deve ser antecedido de um especificador (artigo definido, artigo indefinido, pronomes, etc.) do género masculino.
      Fiquei a saber, por um texto de apoio («Um prémio ainda polémico») àquele que cito acima, que, afinal, o prémio não tem a designação que lhe é habitualmente dada: «Incorrectamente referido como Nobel da Economia, o galardão foi, na verdade, instituído em 1968 pelo Sveriges Riksbank, o Banco Central da Suécia, e atribuído pela primeira vez no ano seguinte. A confusão resulta da designação oficial — Prémio Sveriges Riksbank de Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel —, mas o prémio é pago com dinheiro público.»

Notas bibliográficas

Há quem leia

      Sinto que se tem por vezes a ideia de que notas bibliográficas, índices e outras partes eventuais de uma obra não são lidas por ninguém. Mas não é assim, e descurar a sua correcção pode ter custos, porque há sempre quem esteja atento: «Contudo, nem sempre deparamos [na obra D. Maria I — A Rainha Louca, de Luísa Paiva Boléo. Lisboa: Esfera dos Livros, 2009] com uma redacção fluente do texto; e as notas bibliográficas têm erros e repetições, por vezes na mesma página» (António Valdemar, Expresso/Actual, 9.10.2009, p. 31). Que sirva de escarmento.

«Governância» II

Está melhor

      «Foi preciso a crise abater-se sobre a economia mundial para que uma mulher, Elinor Ostrom, 76 anos, da Universidade de Bloomington no Indiana, fosse distinguida com o Nobel da Economia. Quarenta e um anos após o surgimento do galardão, os seus estudos sobre a governação económica das empresas valeram-lhe a maior distinção a que um economista pode aspirar» («Primeira mulher a ser galardoada», Diana Ramos, Correio da Manhã, 13.10.2009, p. 21). Isto foi hoje, porque ontem o Correio da Manhã falava em «governança». A edição de hoje do Diário de Notícias também opta por «governação». Contudo, certa imprensa, talvez receosa de que os leitores não dominem a língua portuguesa, usa o termo inglês, governance. Só faltou ter-se usado «governância», como já li.

Léxico: «Xiistão»

E assim até ao infinito

Acabo de rever um texto em que foi usada a palavra «Xiistão». Foi a segunda vez que a li, a primeira tinha sido há quatro anos. Mesmo da primeira vez, aquilo que pretendia significar saltou logo aos meus olhos ― como terá saltado aos olhos da maioria dos leitores. A produtividade (ou criatividade), que é o nome que na linguística se dá à capacidade de interpretarmos ou produzirmos enunciados que nunca antes ouvimos ou lemos, é uma das mais admiráveis propriedades das línguas naturais. «O pressentimento terá alguma substância, pois receia-se o surgimento de uma espécie de “Xiistão” no Sul do país a ombrear com o Curdistão, no Norte — ambas regiões ricas em petróleo» («Constituição iraquiana põe sunitas em pé de guerra», Cadi Fernandes, Diário de Notícias, 30.08.2005).

Sobre «podar»

Julgue quem puder

Tratava-se de traduzir uma frase latina: «Agricola terras arabat, frumentum seminabat, paruas populos secabat.» Alguém propôs que fosse: «O lavrador lavrava, semeava trigo e podava pequenos choupos.» A questão é se o vocábulo podar não se aplica somente a árvores de fruto. À margem da questão, é interessante verificar como do mesmo termo, putare (putō, āre, āuī, ātum), que inicialmente significava somente podar, se formou, na língua latina, uma outra acepção, a de julgar. E como é que isto aconteceu? Pois porque para podar é preciso avaliar, ponderar — julgar — que ramos devem ser cortados (amputados).

Citações e arroba

Sem queixas

«Parece que o Times», escreve Daniel Okrent, «se porta muito bem na rectificação das citações mal feitas. No início de Dezembro, quando [a] expressão “n’é”, de Sylvester Croom, treinador de râguebi do Estado do Mississipi, foi branqueada como inglês padrão [@], surgiu de imediato uma correcção» (O Provedor. Selecção de crónicas, textos, e até algumas retractações do Provedor dos Leitores do New York Times, de Daniel Okrent. Lisboa: Edições 70, 2008, p. 65. Tradução de Victor Silva). Cá, os entrevistados não se podem queixar muito da imprensa: não raramente, os jornalistas limitam-se a transcrever as declarações, deixando ficar erros gramaticais de toda a espécie. Fora de contexto, como muito bem explica Okrent, ficam quase todas as citações. Só uma perguntinha: que faz ali aquela arroba? No sítio do NYT, lê-se isto: «The Times seems to be pretty good about rectifying misquotations; in early December, when Mississippi State football coach Sylvester Croom’s spoken “ain’t” was prettified into standard English, a correction appeared swiftly.»

Actualização em 12.10.2009

Não se incomodem, eu respondo. A explicação da arroba está aqui: «Quando o contexto não fornece informação suficiente (título, data e lugar da publicação), inseri [@] para que o leitor possa localizar facilmente uma versão da referência na Internet, o que significa que o artigo mencionado pode ser encontrado no site www.publicaffairsbooks.com/publiceditor#1» (p. 43).

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