Sobre «crisma»

Não vejo porquê


      Alguns jornalistas já vão sentindo, o que me parece um manifesto exagero, que devem explicar o que é o crisma: «Curiosamente, noutros marcos importantes da vida religiosa dos crentes, como o baptismo, a primeira comunhão ou o crisma (confirmação do baptismo), a descida não é tão acentuada» («Casamentos católicos caem 62% em apenas uma década», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 13). Curiosamente também, vemos que no Dicionário Houaiss o vocábulo «crisma» é dado como pertencendo aos dois géneros, sem distinguir entre o óleo que serve para administrar (masculino) este sacramento e o próprio sacramento (feminino), como fazem alguns dicionários. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, óleo, sacramento e mudança de nome é tudo do género masculino.

Léxico: «business angels»

Uma no cravo…

      «O enquadramento fiscal dos investidores informais em capital de risco, ou business angels, poderá ser incluído já no Orçamento do Estado para 2010, anunciou António Castro Guerra, secretário de Estado-adjunto da Indústria» («‘Business angels’ vão ter regime fiscal específico», Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 33). Mais uma locução inglesa bem lançada na imprensa e com a qual vamos ter de viver nos próximos tempos. Desta vez, o jornalista teve o bom senso, que nem sempre nem todos têm, de explicar o que significa em português.
      Por outro lado, vejam: «secretário de Estado-adjunto». No sítio do Governo, lê-se «Secretário de Estado Adjunto». Mesmo no jornal Público, de uma maneira geral pouco propenso a apuros formais, é desta forma que é grafado, em consonância com o recomendado no seu Livro de Estilo, em que se pode ler que director adjunto e ministro adjunto não levam hífen (p. 90), e na página 101, na entrada relativa a cargos, lê-se secretário de Estado adjunto.

Léxico da chapelaria

E por falar nisso…


      Na recensão da obra Indignação, de Philip Roth (Lisboa: Dom Quixote, 2009, tradução de Francisco Agarez), escreveu Paulo Nogueira: «Como sempre, Roth é exímio ao facultar o contexto. Na “Pastoral Americana”, ficamos a saber tudo sobre fabricação de luvas (talvez mais do que o necessário). Aqui, quando acabamos o livro, podemos abrir um talho» (Actual, 3.10.2009, p. 34). Isto porque o pai do protagonista, Markus Messner, é talhante kosher. Sou grande apreciador deste tipo de literatura, e, se bem que o contexto não seja dado apenas pelo recurso a um léxico próprio, quero contribuir para que futuras obras forneçam contextos informativos. Hoje divulgo alguns termos ligados à chapelaria. Poucos, mas outros léxicos, como o relativo ao cavalo, começaram assim e actualmente têm mais de mil entradas.
Cardiço m. Espécie de carda pequena, usada pelos sombreireiros para levantar o pêlo aos chapéus.
Castrorrosa f. Máquina da indústria de chapelaria.
Copa f. A parte do chapéu, boné, etc., que cobre directamente a cabeça.
Formilhão m. Instrumento com que os chapeleiros enformam as abas dos chapéus.
Formilho m. Instrumento de chapeleiro, para enformar a boca da copa dos chapéus.
Fulista m. Oficial de chapelaria encarregado de preparar os feltros.
Potança f. Prov. dur. Peça de madeira ou cepo sobre a qual os chapeleiros amaciam e lustram os chapéus de seda.
Propriagem f. Trabalho que os chapeleiros executam nos chapéus depois de tintos.│Oficina onde se preparam os chapéus.
Secretagem f. Operação que consiste na aplicação de químicos, à base de compostos de mercúrio, destinados a realizar transformações específicas no pêlo.
Sombreireiro m. Fabricante ou vendedor de sombreiros ou chapéus.
Suflagem f. Operação em que o pêlo é afastado e soprado dentro de uma máquina, de tal forma que o mais leve passa à operação seguinte e o mais pesado, com impurezas, é retido e rejeitado.

Léxico: «desinscrever»

Sim e sopas


      Um leitor consultou-me para saber o que acho do uso do verbo «desinscrever». Usou-o numa «newsletter», diz (e melhor diria se tivesse dito «boletim informativo»), e um leitor «insurgiu-se», escrevendo que o vocábulo não existia, mesmo com o Acordo Ortográfico de 1990, afirmação que revela bem a dimensão da ignorância do leitor. Será melhor, pergunta, usar «cancelar» em vez daquele verbo? Respondi ao consulente que, embora não esteja dicionarizado, nada impede que se forme o verbo desinscrever, mas que seguisse, ainda assim, o conselho do seu leitor. No final da mensagem do consulente, vinha o desabafo de que, tendo consultado o «Ciberdúvidas, também se fica na mesma, nem sim nem sopas». Só depois de ter respondido ao leitor é que fui consultar o Ciberdúvidas. O consultor F. V. P. da Fonseca escreveu em 2006: «De facto, anular a inscrição é que está bem, embora teoricamente pudesse admitir-se o termo desinscrever-se, que não encontrei em lado nenhum, por ninguém se ter lembrado de inventá-lo.» Eu não encontrei dicionarizado o verbo «desinscrever», mas não afirmei que «anular a inscrição» é que está bem. Na Internet, há milhares de ocorrências da palavra, pelo que já alguém se lembrou de inventá-la. (Afinal, o prefixo des- é o mais produtivo da língua portuguesa.) No sítio da Universidade de Coimbra, por exemplo, leio: «Assim, se um outro utilizador se desinscrever numa das turmas, ou se novas vagas/turmas forem criadas para a disciplina, o utilizador receberá essa informação por email.» Fico a pensar se em 2006 o termo não aparecia de facto «em lado nenhum». A intenção de traduzir numa só palavra o verbo inglês unsubscribe poderá estar na origem do uso relativamente frequente do verbo desinscrever.

Ortografia: «ribossoma»


Dois esses


      «Toda a gente já tomou antibióticos pelo menos uma vez na vida, mas a maioria desconhece o que são os ribosomas» («Chave para antibióticos premiada», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 30). Se a jornalista escreve 13 vezes «ribosoma», convicção não lhe faltará. Com um s apenas, só se for em inglês — ribosome. Ainda que uma cabeleireira mande fazer um toldo, cartões-de-visita e publicidade em que se lê «unisexo», vá que não vá, mas uma jornalista tem de dominar as basezinhas da ortografia.

«Cônsul-geral/consulesa-geral»


Trapalhadas

      «O Consulado Geral de Portugal em Caracas vai premiar trabalhos de investigação sobre o associativismo português na Venezuela, realizados por alunos luso-venezuelanos de Comunicação Social, revelou ontem a cônsul-geral Isabel Brilhante Pedrosa» («Consulado de Caracas apoia associativismo», Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 12). Compreendo que a titular do cargo se auto-intitule, em documentos legais, cônsul-geral, mas porque não escreveu o jornalista «consulesa-geral»? Até o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, em verbete autónomo, consulesa: «funcionária do ministério dos Negócios Estrangeiros de um país que exerce a sua actividade em país estrangeiro e tem a seu cargo a defesa dos interesses dos seus compatriotas e das boas relações comerciais entre os dois países». (O Dicionário Houaiss, por seu lado, regista «consulesa», mas somente no verbete de «cônsul».) Mais estranho ainda é o jornalista ter grafado, numa discrepância inexplicável, «Consulado Geral» e «cônsul-geral». Apesar de não se colher uma opinião consensual nos dicionários, ou se usa o hífen em ambos os vocábulos ou em nenhum. Prefiro, seguindo o que estabelece o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, cônsul-geral e consulado-geral.

Prefixo re- no novo acordo

Mal pensado


      «Pode também re-endereçar mensagens entre duas contas» («Cem pessoas presas no caso das ‘passwords’», Pedro Fonseca, Diário de Notícias, 8.10.2009, p. 50). Temos de tudo: jornais que adoptaram (mais ou menos, como vimos) as regras do Acordo Ortográfico de 1990, jornais que respeitam estas regras apenas numa (!) coluna e jornais que, de vez em quando, escrevem certos vocábulos em conformidade com o acordo.
      É verdade que a alínea b), n.º 1, da Base XVI do Acordo Ortográfico de 1990 não exemplifica com o prefixo re- (e parece que os redactores do texto se esqueceram dele), mas, por analogia com os que ali são referidos, se o segundo elemento começar por e, deverá ser seguido de hífen. É o caso de re-endereçar. O que sucede é que o VOLP não seguiu a regra. Só verbos, vejam quantos sofreriam esta alteração: reedificar, reeditar, reeducar, reeleger, reembolsar, reencarnar, reencontrar, reentrar, reenviar, reerguer, reescalonar, reescrever, reestruturar, reestudar, reexaminar... Mas como regras são regras, o programa FLIP 7, que os computadores da redacção do Record têm instalado, mandam separar por hífen o prefixo re- quando o segundo elemento se inicia com a vogal e.

Ortografia: «açafrão-da-índia»

Isso era dantes


      «São precisas 100 mil flores da espécie Crocus sativus para obter 500 gramas de açafrão. Não admira que esta seja a especiaria mais cara do mundo e que muitos optem por usar um substituto: o açafrão das índias, extraído da raiz de uma planta da família do gengibre» («Especiaria de luxo», Teresa Resende, Expresso/Única, 18.07.2009, p. 92). Em termos de ortografia, o Expresso e as publicações que o acompanham estão actualmente muito longe dos cuidados de outrora. Ignorando a Crocus sativus, que dizer deste açafrão das índias? Que percebia, neste caso, que grafassem com maiúscula inicial o topónimo. Correcto, contudo, é açafrão-da-índia, tal como açafrão-agreste, açafrão-bastardo, açafrão-bastardo, açafrão-bravo, açafrão-primavera, açafrão da terra, açafrão-de-outono, açafrão-do-campo, açafrão-do-mato, açafrão-palhinha, açafrão-vermelho.

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