Sobre «abalroar»

Mas é correcto


      A notícia começa por referir que «o condutor do camião que embateu violentamente contra um carro-patrulha da GNR colhendo dois militares, ontem, às 15h30, na Via do Infante (A22)» se justificou com o rebentamento de um pneu, mas o título é: «Militares abalroados por camionista bêbedo» (João Mira Godinho, Correio da Manhã, 26.08.2009, p. 8). «Os GNR», repare-se, «estavam entre os dois carros quando o camião abalroou o carro-patrulha, que depois os atingiu.» Afinal, o carro-patrulha é que foi abalroado, e não os militares — ou foi as duas coisas? O termo, como se sabe, provém da marinha, mas por extensão significa ir de encontro a, bater, chocar(-se); ir na direcção de (algo), com ímpeto. Foi, então, usado com propriedade no título, mas não é habitual usar-se quando o obstáculo são pessoas. Sobre o mesmo facto, o título do Jornal de Notícias é «Dois militares da GNR colhidos por camião em despiste na A22» (G. P./A. R. J., 26.08.2009, p. 17).


Congénere e homólogo

Falsas convicções

      Dizia, ontem, aquele revisor que está farto de avisar as meninas do andar de cima que não devem confundir «congénere» com «homólogo». Em vão, lamentou-se. Se, exemplificava, o texto fala de ministros, o termo correcto era «homólogo» e não «congénere». Ora, o Dicionário Houaiss regista como exemplo de uso do termo «congénere»: «O ministro encontrou-se com seus congéneres em Paris.» Já o adjectivo «homólogo», para o mesmo dicionário, é o que mantém com outro elemento similar uma relação de correspondência que pode ser de localização, de forma, de função, etc. Pelo que vejo, «homólogo» é mais utilizado para pessoas, ao passo que «congénere» é mais usado com instituições. Não se pode é dizer mais do que isto. «O presidente sul-africano, Jacob Zuma, eleito em Maio, escolheu Angola como o primeiro destino para uma visita oficial e ouviu o seu homólogo angolano afirmar o desejo de “intensificar as relações” entre os dois países» («Angola e África do Sul estreitam relações», A Bola, 20.08.2009). «A Selecção portuguesa de andebol de sub-21 venceu, esta segunda-feira, a sua congénere espanhola por 28-24, conquistando o sétimo lugar entre 24 equipas no Mundial que termina quarta-feira, no Cairo» («Mundial de Juniores: Portugal termina em sétimo com vitória no duelo ibérico», A Bola, 17.08.2009).

Actualização em 15.09.09


      Cá está de novo o uso reprovado pelo revisor antibrasileiro: «O ministro da Agricultura, Jaime Silva, e a sua congénere holandesa, Gerder Verburg, posam para os repórteres fotográficos depois de plantarem uma árvore no decorrer de uma visita a uma exploração florestal nos arredores de Vaxjo, na Suécia» («Jaime Silva planta árvores no ‘bosque da UE», Diário de Notícias/«DN Bolsa», 15.09.2009, p. 37).

Actualização em 10.1.2010

      «O salário dos clínicos cubanos é um mistério. O Ministério da Saúde diz que ganham “sensivelmente” o mesmo que os seus congéneres portugueses. Mas dessa fatia a maior parte vai para o Governo de Havana. Inicialmente, os médicos ficavam com 300 euros. Agora ganharão 500. A embaixada de Cuba diz que nada pode dizer sobre o assunto» («Salários dos clínicos cubanos são um mistério», Público, 10.1.2010, p. 1).

Léxico: «oeste-europeu»

Ponte do Rei Alberto (© NguyenDai)

O caso da Bélgica


      Recentemente, referi aqui a tradução de Mittel-Europeans. Hoje não é de tradução que se trata, mas da abonação de um gentílico que nunca antes vi. «Choveram críticas na imprensa do reino oeste-europeu» («Companhia portuguesa vai dar asas ao rei belga», revista Domingo/Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 23).

Topónimos no novo acordo

O caso de Custóias

Os outros revisores ainda não sabiam (!), e até negaram, que os topónimos também vão sofrer alterações com a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990. Exactamente, não eram os mesmos (somos cinco) do caso de Tróia. Desta vez, era Custóias que estava em causa. Trata-se do mesmo: é eliminado, tanto em nomes comuns como em topónimos, o acento nos ditongos abertos oi, mas apenas quando constituem sílaba tónica de palavras paroxítonas: alcaloide, heroico, joia, etc.

Sentidos figurados e sinonímia

Alto aí!

«Emprestado pelo Manchester United com o prisma de jogar com mais regularidade, Possebon já percebeu que as suas intenções saíram goradas», escreveu o jornalista, mas eu não deixei que a frase (que semelhante disparate), que revela um conhecimento deficiente da língua, passasse para o jornal. Sim, julgo saber o motivo. Em sentido figurado, prisma é o modo particular de ver ou considerar algo ou alguém, o ponto de vista, a perspectiva, digamos. E como um dos sentidos figurados de «perspectiva» é o de ponto de vista, o jornalista usou o vocábulo. Só que tal operação, porque estão em causa acepções secundárias dos vocábulos, redundaria quase sempre, como facilmente se imagina, em frases absurdas.

Ortografia: «bola-de-berlim»

Essa é boa!

O Correio da Manhã tem uma rubrica estival, «O Verão de...», assinada pela jornalista Dora Costa, e nela ora se lê «bola de Berlim» ora «bola-de-berlim». Como eu não acredito que a jornalista nas terças-feiras, quintas e sábados escreva de uma forma, e nos restantes dias de outra, só posso atribuir a incoerência aos revisores. E, como acontece noutros jornais, não comunicam entre eles — nem lêem o jornal. A quem escreve bola de Berlim, matéria já aqui abordada, só pergunto se também escreve couve de Bruxelas.

Ortografia: «guarda-costeira»

Aplaudo a opção

Sim, tem de se ser coerente até ao fim: «Todos os meios operacionais disponíveis foram mobilizados e, no hospital militar de Penteli, na área metropolitana de Atenas, os doentes foram transferidos por precaução, tendo as autoridades anunciado que vários navios da guarda-costeira estavam prontos a participar em operações de evacuação» («Mar de chamas ameaça Atenas», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 28). Se se escreve guarda-costas, porque se continua a escrever e a registar nos dicionários guarda costeira?

«Raios UV»

In Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 16

São dos poucos


      No Diário de Notícias, continuam a escrever raios ultravioletas. E poucas vozes estão de acordo, mas entre elas conta-se a da professora Maria T. Camargo Biderman, docente na UNESP (Universidade Estadual Paulista), do Campus de Araraquara, que escreve no estudo «Unidades Complexas do Léxico»: «raios ultravioletas — ultravioletas — Os ultravioletas podem causar danos à pele.» Se foi por lapso, ela virá certamente aqui um dia dizer-no-lo.

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