Uso indevido das aspas

Só o inútil
      «Marco António Brás Madeira vivia com os pais no Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes, e acordou ao nascer do sol para acompanhar o pai, António, numa jornada de caça às rolas. Um tio também os acompanhava e seguiram para Montalvo, a vinte quilómetros de casa. Pai e filho ocuparam a mesma ‘porta’, junto a um campo com girassóis, onde esperaram as primeiras rolas» («Dispara às rolas mas mata o filho», Isabel Jordão, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 10). Já aqui o escrevi uma vez: quão penoso seria escrever e sobretudo ler se tivéssemos de grafar entre aspas acepções secundárias. Por outro lado, o que seria útil não foi feito pela jornalista: acrescentar a definição desta «porta».

Estetoscópio e estereoscópio


Também imperdoável

      Os Correios de San Marino, mundialmente conhecidos pela qualidade dos selos que emitem, lançam amanhã uma série de selos em três dimensões para assinalar o Ano Europeu da Criatividade e Inovação. Vejamos como no Correio da Manhã vêem o acontecimento: «A série é composta de três blocos de dois selos cada com valor facial de 1 euro cada, com motivo igual em cada bloco. Os blocos são vendidos em conjunto e são acompanhados por um estetoscópio para ver os selos em três dimensões» («San Marino lança selos a três dimensões», J. P. S., Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 43). Estetoscópio se o comprador for médico; se for polícia, serão algemas; se for taberneiro, um ramo de louro, e por aí fora. Ninguém, mais uma infausta vez, estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. Só o elemento pospositivo de composição é que é o mesmo: -scópio. Mas são instrumentos diferentes: o estetoscópio serve para auscultar a respiração, as batidas do coração e outros sons produzidos pelo corpo; o estereoscópio serve para observar simultaneamente, através de uma objectiva binocular, duas imagens de um objecto, obtidas com ângulos ligeiramente diferentes, produzindo a sensação de relevo, de terceira dimensão.

Hertziano por artesiano


Imperdoável

«“Foi uma tarde infernal, pois o fogo esteve próximo do bairro junto ao campo de futebol”, adiantou o presidente da Junta de Freguesia de Abrunhosa a Velha, Júlio Mendes, que receava a interrupção do abastecimento de água, por ter sido afectada a rede eléctrica que serve os furos hertzianos» («Zona Centro sob inferno de chamas», Isabel Jordão, Correio da Manhã, 20.08.2009, p. 4). Ninguém estranhou nada: nem jornalista, nem editor, nem revisor. Parece-me que é mais do que falta de atenção o que aqui vemos. E é Abrunhosa-a-Velha.

Neologismo: «eutanasiado»

Sempre a evoluir

      «Onze cães e cinco cachorros “de raças e tamanhos variados, entre os 12 e os 25 quilos, foram apanhados pela polícia do condado de Oglethorpe e eutanasiados sob ordem do juiz local”, declarou um porta-voz do gabinete da polícia, Shalom Huff» («Idosos devorados por cães vadios», Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 27). Na verdade é o capitão Shalon Huff e não Shalom, mas isso agora não interessa. Algumas imprecisões fazem lembrar a notícia sobre o médico-legista no caso da morte de Michael Jackson. Também há, tinha de haver, um coroner: é o médico-legista do condado de Madison, James Mathews. Imagino que aquele «eutanasiados» provenha da tradução de um título, sobre o mesmo assunto, publicado no sítio da CNN: «Dogs in fatal attack rounded up, euthanized». O que pode pressupor o verbo eutanasiar, que nunca li nem ouvi. Em menos de dez anos, porém, vai estar registado nos dicionários.

Ajuste e ajustamento

Cada maluco

«Ajustamento» é uma palavra que já nos vem de meados do século XVII — e aquele revisor sabe ou suspeita disso (suspeito que apenas suspeita…). Não deixa passar um «ajuste» ou «reajuste» (e no desporto, e em especial no futebol, há muitos arranjos). Dá mesmo um grito de guerra quando depara com uma. Justificação? «É influência dos Brasileiros. Sempre se disse e escreveu “ajustamento” e “reajustamento”.» Só espero que não designe a liquidação de contas pendentes por *ajustamento de contas nem ao facto de alguém não estar disposto a fazer acordos chame *não estar pelos ajustamentos.

Tradução: «extremity»

À beira

«The extremity of the Britain’s housing bubble stems ultimately from a national obsession with property and property values.» «A extremidade da bolha imobiliária britânica decorre, em última análise, da obsessão nacional com a propriedade e os seus valores.» Nesta acepção, estamos perante um falso cognato. O tradutor não pensou mais: extremity é «extremidade». Aqui, não é. Segundo o Dicionário Houaiss, «extremidade» significa a parte extrema de um objecto, considerado longitudinalmente; ponta (dos dedos, de uma faca); parte final, fim, limite (a extremidade da estrada); orla, beira, fímbria (a extremidade de um vestido); em sentido figurado, miséria ou aflição extrema (chegar à maior extremidade).

Tradução: «homeless»

Ena, tantos!

«[…] the new homeless are competing with the 80,000 already in temporary accomodation and the 1.7 million homeless (in England alone) on council lists waiting for social housing, usually because of overcrowding or unsatisfactory conditions in the private rented sector.» «[…] os novos sem-abrigo competirão com os 80 000 que já se encontram temporariamente alojados e com os 1,7 milhões de sem-abrigo (só em Inglaterra) constantes das listas municipais para habitação social, normalmente devido às condições sobrecarregadas e insatisfatórias do sector privado de arrendamento.» Não podemos, creio, traduzir, neste contexto, homeless por «sem-abrigo». Temos de recorrer à definição legal britânica de homeless para o compreendermos cabalmente. O 1996 Housing Act estabelece que homeless são as pessoas que «there is no accommodation that they are entitled to occupy» ou «they have accommodation but it is not reasonable for them to continue to occupy this accommodation». Se sem-abrigo (sem-lar ou sem-teto, no Brasil), única tradução que os dicionários nos dão de homeless, é a pessoa que vive na rua em condições de extrema pobreza, então falta pelo menos uma acepção. Quanto à tradução, temos de encontrar uma formulação alternativa.

Tradução: «Mittel-European»

No meio

      «[…] or ancient black and white photographs of Mittel-Europeans desperately trying to force the doors of imposing but barricaded buildings in te 1920s.» «[…] velhas fotografias a preto-e-branco de Europeus do Centro, tentando desesperadamente forçar as portas de edifícios imponentes mas barricados, na década de 1920.» Até já tenho lido, sobretudo na imprensa, mitteleuropeu, mas há-de ser para nos rirmos. Correcto é centro-europeu, à semelhança de centro-africano e centro-americano.

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