Persuadir e convencer

Muito filosófico


      «But in addition, a new generation of home buyers, property investors and builders had persuaded itself that prices only ever go up, and that property was a guaranteed way to accumulate wealth.» «Mas, além disso, uma nova geração de compradores de casas, de investidores imobiliários e de construtores persuadira-se de que os preços não parariam de crescer, e de que a propriedade era uma maneira segura de acumular riqueza.» Embora convencer se situe mais no campo das ideias e persuadir no campo das emoções, o que leva algumas pessoas a defender que devemos usar este último apenas quando nos referimos ao acto de levar alguém a acreditar, a aceitar ou a decidir, os dicionários não distinguem.

Ortografia: «play-off»

Sem evolução

«Encarnados iniciam hoje o ‘play-off’ de acesso à fase de grupos» («Magnata dá milhões para Vorskla eliminar o Benfica», Gonçalo Lopes, Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 34). No tal jornal, escreve-se sempre, por determinação da chefia, playoff. Os jornalistas e editores bem perguntam se é assim, duvidando alguns, certamente, de que seja. Ali, duvidar nem sempre é, infelizmente, aprender. No Dicionário Merriam-Webster, lê-se que «a final contest or series of contests to determine the winner between contestants or teams that have tied» se designa por play-off.

Actualização em 11.10.2009

Quando calha, porém, mesmo no Diário de Notícias escreve-se de outra forma qualquer, pois já ninguém se lembra como se escreveu antes: «Uma excelente segunda parte carimbou ontem quase matematicamente a entrada de Portugal no play off de acesso ao Mundial da África do Sul, deixando as contas muito esclarecidas no Grupo 1» («Segunda parte carimbou sonho de ‘play off’», João Rosado, Diário de Notícias, 11.10.2009, p. 42).

Jornalismo desportivo

A cada momento, disparates

«Apesar de considerar o Benfica “momentaneamente” a melhor equipa portuguesa, “porque foi aquela que apresentou o melhor futebol na 1.ª jornada”, o central Gustavo Lazzaretti, de 25 anos, não se deixa intimidar pela valia do adversário.» Lá que o futebolista fale assim, não é razão para o jornalista o escrever, ou é algum estudo linguístico? Mais grave será se o jornalista pensar que o advérbio «momentaneamente» equivale à locução «de momento». Entre isto e referirem-se à bola como «esférico», já se vê o que é pior.

«Proceder a uma zaragatoa»?

Imagem: http://www.vidrolab.pt/

Mais macaqueadores


      «A lei prevê que, na falta de um perito, qualquer médico indicado possa proceder a uma zaragatoa (amostra) oral ou vaginal» («INML fez 109 perícias por mês a vítimas de crimes sexuais», Sónia Simões, Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 17). «Proceder a uma zaragatoa»? Vê-se logo que a jornalista imitou a «fonte médica»: «“Qualquer médico pode fazer zaragatoas vaginais ou orais permitindo à vítima comer e tomar banho e[m] seguida”.» Se se tivesse dado ao trabalho de consultar um dicionário, pela definição de zaragatoa — pequena esponja, na extremidade de uma haste de madeira ou de plástico, para aplicar medicamentos na garganta ou fossas nasais e para colheita de produtos biológicos; por metonímia, também se designa assim o medicamento aplicado com a zaragatoa —, concluía logo que não é a forma mais correcta de o dizer.

Linguística tipológica

Não deixo que digas

«“Importa salientar que este foi, até ao momento, o único projecto que a fundação [Volkswagen] financiou na Europa — apresentou-o no relatório anual de 2008 como uma excepção —, o que para mim dá a este projecto um valor ainda mais especial”, sublinha a especialista [Vera Ferreira] em linguística geral e tipológica, área que considera ser desconhecida em Portugal» («Minderico renasce com o apoio da Volkswagen a línguas ameaçadas», Manuel Fernandes Vicente, Público, 17.08.2009, p. 22). A entrevistada estava como que a pedir que lhe perguntassem o que estuda a linguística tipológica, mas o jornalista não quis saber nem quis que nós soubéssemos. A linguística tipológica é um subcampo da linguística que estuda e classifica as línguas de acordo com o seu tipo estrutural. A classificação tipológica das línguas foi proposta pelo linguista alemão August Wilhelm von Schlegel (1767―1845) no início do século XIX.

Serviços de urgência


Básico

«A ministra da Saúde, Ana Jorge, inaugurou ontem o Serviço de Urgência Básica (SUB) de Sintra, localizado em Mem Martins, um investimento de 700 mil euros» («Sintra já dispõe de novo Serviço de Urgência Básica», C. S., Correio da Manhã, 19.08.2009, p. 16). O que é que é básico: o serviço ou a urgência? No Portal da Saúde, que pertence ao Ministério da Saúde, lê-se Serviço de urgência básica. Na imprensa, contudo, vê-se com abundância Serviço de Urgência Básico e mesmo, mais explicitamente, Serviço Básico de Urgência. Aqui, já exageram, pois não deixam de acrescentar a sigla SUB, e não SBU.

Títulos na imprensa

Sem título


      No Manual de Redação e Estilo de O Globo, lê-se que o título «é o anúncio da notícia e, como tal, é proibido prometer mais do que a matéria realmente contém». Ora, como sabemos, é pecha comum a muitos jornais o título não ser confirmado no corpo da notícia. Muitas vezes, antes pelo contrário, estão mesmo em contradição. Na página 15 da edição de ontem do Correio da Manhã, lia-se este título: «Supremo decide que planear morte é crime». Tendo em conta que planear pode ser um facto meramente mental, e, logo, insindicável, poucos leitores se terão assustado ao ler o título. Pelo excerto de um acórdão (n.º 11/2009 de 18.06.2009) para fixação de jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça que é citado na notícia, conclui-se que, afinal, planear morte não é crime: «Na decisão agora proferida, o Supremo considera então que é “autor de crime de homicídio na forma tentada quem decide e planeia a morte de uma pessoa, contratando outrem para a sua concretização (…), mediante pagamento de determinada quantia”» (Tânia Laranjo e Manuela Teixeira, 19.08.2009, p. 15). Se já é estranho que planear contratando seja crime (e o juiz-conselheiro Souto Moura, ex-PGR, é citado no artigo: «Não é essa a lei que temos. […] Há uma lacuna grave de punibilidade.») quanto mais planear a morte de alguém.

Tradução: «momentum»

Tira-teimas


      «In 2001 the scare began to gain momentum», lia-se no original. O tradutor verteu assim: «Em 2001, o alarmismo começou a ganhar força.» Só no Público é que a jornalista Rita Siza continua a usar o termo inglês «momentum» como se não houvesse equivalente em português: «Num esforço para manter o momentum no debate, o Presidente Barack Obama esteve ontem em Raleigh, na Carolina do Norte, para uma sessão de esclarecimento sobre a reforma [do sistema de saúde]» («Democratas chegam a acordo na reforma da saúde», Rita Siza, Público, 30.07.2009, p. 194). Experimentem ir ali ao Café Limiano e peçam aos clientes que decifrem a frase. Se o conseguirem, calo-me para sempre.

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