«Proceder a uma zaragatoa»?

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Mais macaqueadores


      «A lei prevê que, na falta de um perito, qualquer médico indicado possa proceder a uma zaragatoa (amostra) oral ou vaginal» («INML fez 109 perícias por mês a vítimas de crimes sexuais», Sónia Simões, Diário de Notícias, 20.08.2009, p. 17). «Proceder a uma zaragatoa»? Vê-se logo que a jornalista imitou a «fonte médica»: «“Qualquer médico pode fazer zaragatoas vaginais ou orais permitindo à vítima comer e tomar banho e[m] seguida”.» Se se tivesse dado ao trabalho de consultar um dicionário, pela definição de zaragatoa — pequena esponja, na extremidade de uma haste de madeira ou de plástico, para aplicar medicamentos na garganta ou fossas nasais e para colheita de produtos biológicos; por metonímia, também se designa assim o medicamento aplicado com a zaragatoa —, concluía logo que não é a forma mais correcta de o dizer.

Linguística tipológica

Não deixo que digas

«“Importa salientar que este foi, até ao momento, o único projecto que a fundação [Volkswagen] financiou na Europa — apresentou-o no relatório anual de 2008 como uma excepção —, o que para mim dá a este projecto um valor ainda mais especial”, sublinha a especialista [Vera Ferreira] em linguística geral e tipológica, área que considera ser desconhecida em Portugal» («Minderico renasce com o apoio da Volkswagen a línguas ameaçadas», Manuel Fernandes Vicente, Público, 17.08.2009, p. 22). A entrevistada estava como que a pedir que lhe perguntassem o que estuda a linguística tipológica, mas o jornalista não quis saber nem quis que nós soubéssemos. A linguística tipológica é um subcampo da linguística que estuda e classifica as línguas de acordo com o seu tipo estrutural. A classificação tipológica das línguas foi proposta pelo linguista alemão August Wilhelm von Schlegel (1767―1845) no início do século XIX.

Serviços de urgência


Básico

«A ministra da Saúde, Ana Jorge, inaugurou ontem o Serviço de Urgência Básica (SUB) de Sintra, localizado em Mem Martins, um investimento de 700 mil euros» («Sintra já dispõe de novo Serviço de Urgência Básica», C. S., Correio da Manhã, 19.08.2009, p. 16). O que é que é básico: o serviço ou a urgência? No Portal da Saúde, que pertence ao Ministério da Saúde, lê-se Serviço de urgência básica. Na imprensa, contudo, vê-se com abundância Serviço de Urgência Básico e mesmo, mais explicitamente, Serviço Básico de Urgência. Aqui, já exageram, pois não deixam de acrescentar a sigla SUB, e não SBU.

Títulos na imprensa

Sem título


      No Manual de Redação e Estilo de O Globo, lê-se que o título «é o anúncio da notícia e, como tal, é proibido prometer mais do que a matéria realmente contém». Ora, como sabemos, é pecha comum a muitos jornais o título não ser confirmado no corpo da notícia. Muitas vezes, antes pelo contrário, estão mesmo em contradição. Na página 15 da edição de ontem do Correio da Manhã, lia-se este título: «Supremo decide que planear morte é crime». Tendo em conta que planear pode ser um facto meramente mental, e, logo, insindicável, poucos leitores se terão assustado ao ler o título. Pelo excerto de um acórdão (n.º 11/2009 de 18.06.2009) para fixação de jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça que é citado na notícia, conclui-se que, afinal, planear morte não é crime: «Na decisão agora proferida, o Supremo considera então que é “autor de crime de homicídio na forma tentada quem decide e planeia a morte de uma pessoa, contratando outrem para a sua concretização (…), mediante pagamento de determinada quantia”» (Tânia Laranjo e Manuela Teixeira, 19.08.2009, p. 15). Se já é estranho que planear contratando seja crime (e o juiz-conselheiro Souto Moura, ex-PGR, é citado no artigo: «Não é essa a lei que temos. […] Há uma lacuna grave de punibilidade.») quanto mais planear a morte de alguém.

Tradução: «momentum»

Tira-teimas


      «In 2001 the scare began to gain momentum», lia-se no original. O tradutor verteu assim: «Em 2001, o alarmismo começou a ganhar força.» Só no Público é que a jornalista Rita Siza continua a usar o termo inglês «momentum» como se não houvesse equivalente em português: «Num esforço para manter o momentum no debate, o Presidente Barack Obama esteve ontem em Raleigh, na Carolina do Norte, para uma sessão de esclarecimento sobre a reforma [do sistema de saúde]» («Democratas chegam a acordo na reforma da saúde», Rita Siza, Público, 30.07.2009, p. 194). Experimentem ir ali ao Café Limiano e peçam aos clientes que decifrem a frase. Se o conseguirem, calo-me para sempre.

Dupla grafia

Andar às aranhas

      Ontem, os outros dois revisores estranhavam (e eu estranhei que estranhassem, pois nunca falam de questões ligadas com a língua) que no âmbito do novo acordo ortográfico se deva (deve?) escrever «veredicto» e «perfeccionista». Ou seja, estranhavam que não percam o c. A última nunca ali tinha sido discutida, mas «veredicto» aparece todos os dias e todos os dias jornalistas e editores perguntam, estranhando, se leva mesmo c. São convicções formadas a partir das fontes que se consultam. Tanto num caso como no outro, estamos perante duplas grafias. Sendo o critério da pronúncia o que determina a supressão gráfica das consoantes mudas e também o que leva a que o Acordo Ortográfico de 1990 tenha mantido um certo número de grafias duplas (embora os dicionários que adoptaram as novas regras ortográficas nem sempre as registem), é necessário reflectir mais ponderadamente nas opções por que se está a enveredar. A meu ver, falta concretizar esta precaução constante do texto do acordo: «Os dicionários da língua portuguesa, que passarão a registar as duas formas em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de pronúncia.» Creio, contudo, que nunca veremos esta informação nos dicionários.

Sinais gráficos

Sim, mas outros

      A vários títulos, a última crónica de Rui Tavares no Público («Bom! Bonito! Barato!», 17.08.2009, p. 40, disponível também no blogue do autor) interessou-me muito. Eis o último parágrafo do texto: «Eu também sonho às vezes com uma escrita que fosse só palavras, sem convenções gráficas. Mas a escrita é toda ela convenção; e logo vejo que há sinais gráficos a menos e não a mais. Eu por mim inventaria mais quatro ou cinco: para a falsa exclamação, para a pergunta interrompida, para a dúvida afirmativa, para a frase incompleta.» Concordo: também acho que faltam sinais gráficos. Contudo, talvez alguns daqueles que o cronista propõe existam de facto. Que acha o leitor?

«Dever de» e «dever»

Em boa companhia

      Cara Sofia: não é só na obra de António Vieira que encontramos a construção deve de + infinitivo. Encontramo-la na obra de Luís de Camões, Fr. Amador Arrais, Camilo e noutros grandes escritores. Cada época, é sabido, vai rejeitando o que antes era considerado correcto. Vasco Botelho de Amaral não condenou a construção. José Neves Henriques, porventura o mais ponderado consultor que alguma vez passou pelo Ciberdúvidas, afirmou que ambas as locuções verbais são inteiramente correctas. «O que acontece», acrescentou, «é que o emprego da preposição de está um pouco em desuso, o que leva muita gente a duvidar da correcção de dever de + infinito.» E também escreveu: «Como a construção deve de + infinitivo é mais complexa, talvez os não muito sabedores da Língua Portuguesa a julguem mais própria de quem é culto.» Ou mesmo os muito sabedores, digo eu, a considerem errada.

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