Dupla grafia

Andar às aranhas

      Ontem, os outros dois revisores estranhavam (e eu estranhei que estranhassem, pois nunca falam de questões ligadas com a língua) que no âmbito do novo acordo ortográfico se deva (deve?) escrever «veredicto» e «perfeccionista». Ou seja, estranhavam que não percam o c. A última nunca ali tinha sido discutida, mas «veredicto» aparece todos os dias e todos os dias jornalistas e editores perguntam, estranhando, se leva mesmo c. São convicções formadas a partir das fontes que se consultam. Tanto num caso como no outro, estamos perante duplas grafias. Sendo o critério da pronúncia o que determina a supressão gráfica das consoantes mudas e também o que leva a que o Acordo Ortográfico de 1990 tenha mantido um certo número de grafias duplas (embora os dicionários que adoptaram as novas regras ortográficas nem sempre as registem), é necessário reflectir mais ponderadamente nas opções por que se está a enveredar. A meu ver, falta concretizar esta precaução constante do texto do acordo: «Os dicionários da língua portuguesa, que passarão a registar as duas formas em todos os casos de dupla grafia, esclarecerão, tanto quanto possível, sobre o alcance geográfico e social desta oscilação de pronúncia.» Creio, contudo, que nunca veremos esta informação nos dicionários.

Sinais gráficos

Sim, mas outros

      A vários títulos, a última crónica de Rui Tavares no Público («Bom! Bonito! Barato!», 17.08.2009, p. 40, disponível também no blogue do autor) interessou-me muito. Eis o último parágrafo do texto: «Eu também sonho às vezes com uma escrita que fosse só palavras, sem convenções gráficas. Mas a escrita é toda ela convenção; e logo vejo que há sinais gráficos a menos e não a mais. Eu por mim inventaria mais quatro ou cinco: para a falsa exclamação, para a pergunta interrompida, para a dúvida afirmativa, para a frase incompleta.» Concordo: também acho que faltam sinais gráficos. Contudo, talvez alguns daqueles que o cronista propõe existam de facto. Que acha o leitor?

«Dever de» e «dever»

Em boa companhia

      Cara Sofia: não é só na obra de António Vieira que encontramos a construção deve de + infinitivo. Encontramo-la na obra de Luís de Camões, Fr. Amador Arrais, Camilo e noutros grandes escritores. Cada época, é sabido, vai rejeitando o que antes era considerado correcto. Vasco Botelho de Amaral não condenou a construção. José Neves Henriques, porventura o mais ponderado consultor que alguma vez passou pelo Ciberdúvidas, afirmou que ambas as locuções verbais são inteiramente correctas. «O que acontece», acrescentou, «é que o emprego da preposição de está um pouco em desuso, o que leva muita gente a duvidar da correcção de dever de + infinito.» E também escreveu: «Como a construção deve de + infinitivo é mais complexa, talvez os não muito sabedores da Língua Portuguesa a julguem mais própria de quem é culto.» Ou mesmo os muito sabedores, digo eu, a considerem errada.

Léxico: «factóide»

Chame-lhe o que quiser

Outro vocábulo que não está registado em todos os dicionários gerais da língua é «factóide». Ainda assim, esta não é razão para a frase que se segue ter sido traduzida como o foi. «Many in the court process seemed to share this view, and the factoid certainly sticks in the mind.» «Muitos no processo judicial pareciam partilhar desta opinião, e o mastóide fica, sem dúvida, na lembrança.» Claro que encontro, como o leitor, uma razão para o tradutor ter escrito «mastóide» em vez de «factóide»: não encontrou o termo no dicionário (ou dicionários) que consultou, foi pesquisar por semelhantes e surgiu «mastóide», que é, como substantivo, a apófise da base do crânio formada no osso temporal. E depois esqueceu-se de levar a tarefa até ao fim: escrever, por analogia, «factóide». Não se fazem omeletas sem ovos. Factóide vem do inglês e designa a informação falsa ou não comprovada que se aceita como verdadeira em consequência da sua repetida divulgação pela imprensa. Na área da ciência, há muito disto na imprensa.

Livro de Estilo

Era bom

Sem terem um Livro de Estilo, que eu acho essencial em qualquer publicação, e mais ainda naquelas em que há mais do que um revisor, «costumam» grafar alguns vocábulos de uma maneira peculiar. «Aqui escrevemos “alvi-negro” e “auri-negro”.» Ontem, contudo, estavam a discutir a correcção daquelas grafias. «Não tinhas já mandado um e-mail ao José Mário Costa sobre isto?» Um ainda fez menção de consultar o Dicionário da Língua Portuguesa (edição de 2003) da Porto Editora. «Não está aí nada.» Adiaram a solução — a solução do erro. É claro que é aurinegro, como é auriazul, auriverde, etc., como também é claro que é alvinegro, como é alvirrubro, alviverde, etc. Sem Livro de Estilo, de que tanto precisam um jornal recente como um com mais de sessenta anos, bem concebido e pensado, hoje escreve-se assim e amanhã escrever-se-á assado. Há quem revele o que faria se chegasse a presidente do governo mundial. Eu, mais modestamente, digo que, se fosse chefe da secção de revisão de uma qualquer publicação (ou director desta), a primeira tarefa dos revisores era lerem em conjunto e discutirem as opções da véspera. A primeira medida, porém, seria transferir para tarefas mais consentâneas com as suas competências quem é revisor sem ter qualificações mínimas para tal.

Tradução: «publication bias»

De esguelha

      Como tem sido traduzida a expressão inglesa publication bias? E, primeiro, o que é? Embora esteja mais desenvolvida aqui a definição, mais resumidamente é «a tendency on average to produce results that appear significant, because negative or near neutral results are almost never published», conforme se pode ler aqui. É o problema que resulta do facto de se publicarem estudos científicos que não apresentam resultados negativos, o que faz que o efeito das intervenções possa ser sobrestimado. A tradução já consagrada entre nós é viés de publicação, e não deve haver estudante de Medicina que a não conheça. Se uma das traduções de bias é «viés, esguelha, direcção oblíqua», também é, e adequa-se melhor ao conceito, «parcialidade». Estas traduções enviesadas abundam no mundo da ciência, e não podemos fazer muito para as contrariar.

Léxico: «comentariado»

Essa classe


      «Having created this parody, the commentariat then attack it, as if they were genuinely critiquing what science is all about.» «Tendo criado esta paródia, o comentariado passará depois a atacá-la, como se estivesse a criticar genuinamente o que é, de facto, a ciência.» Termo colectivo usado para designar professores, peritos, analistas e outros comentadores. Michael Quinion, contudo, afirma que «this is a jokey journalists’ term for that group of people whose job is to comment on the news». Cunhado à semelhança de precariado, aqui analisado.

«Medicina baseada na evidência»

Será evidente?


      Se o confundimento confunde, as evidências anglo-saxónicas deixam-nos sempre de pé atrás. Na tal obra, usa-se vinte vezes a expressão medicina baseada na evidência e 158 (!) o vocábulo evidência. Encontrei aqui um texto, «Acerca da “medicina baseada na evidência», datado de 2005, da autoria do médico A. J. Barros Veloso, que esclarece quando começou a ser usada em Portugal a expressão: «Foi há mais ou menos dez anos que a expressão “medicina baseada na evidência” surgiu no vocabulário médico português pela mão de um pequeno grupo de médicos com fortes ligações à cultura anglo-saxónica. Pretendia-se com isso valorizar um tipo de prática clínica caracterizada pela “utilização conscienciosa, explícita e criteriosa da evidência clínica actualizada” [Carneiro, A. V. A medicina baseada na evidência. Medicina Interna, 1998; 5: 133] e anunciava-se sem qualquer hesitação o nascimento de “um novo paradigma”. […] Evidence-based medicine foi a expressão anglo-saxónica que se travestiu para português em “medicina baseada na evidência”. Os mentores deste “novo paradigma” (que para facilitar chamarei “evidencistas”) consideram que “evidência” é sinónimo de “prova científica” obtida através de ensaios clínicos controlados aleatórios ou das chamadas meta-análises. Com isto pretendem dizer-nos duas coisas: que a “medicina baseada na evidência” estabelece uma clara fronteira entre o que é e não é “medicina científica” e que a ciência possui um método próprio que permite obter “evidências”. Contudo, a palavra “evidência” tem, neste contexto, um significado ambíguo que se presta às maiores confusões. Por outro lado[,] não é líquido que a “medicina baseada na evidência” seja o único fundamento científico da medicina clínica.» Os dicionários da língua portuguesa, entretanto, continuam a registar que a evidência é a «qualidade de evidente; noção clara; certeza manifesta», e não «something that furnishes proof». Mesmo evidência como sinónimo de indício e este a significar prova só em determinadas áreas.

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