«Confundimento»?

Para quê?     



      «They can confuse an apparently causal relationship, and you have to think of ways to exclude or minimize confounding variables to get the right answer, or at least be very wary that they are there.» «Podem confundir uma relação à primeira vista causal, e é necessário encontrarmos formas de excluir ou minimizar as variáveis de confundimento, por forma a obtermos a resposta certa, ou pelo menos termos muito cuidado devido à presença das mesmas.» Nos milhares de vocábulos com o sufixo –mento, formador de substantivos derivados de verbos, não figura «confundimento», excepto no Dicionário Houaiss, em que até o antónimo, desconfundimento, figura. Mas dizem-me que sim, que nos estudos epidemiológicos se usa a locução variáveis de confundimento.

Sob o/a

Não fica melhor?


      «O Zenit prepara, sob a orientação do novo treinador, Anatoly Davydov, a deslocação ao terreno do Amkar (13.º na tabela), no próximo domingo, na 18.ª jornada do campeonato russo.» Esta frase concretamente fica mais elegante omitindo-se o artigo. Noutras frases, pode até ser apenas correcto estando omisso o artigo. Outra vez: «O Zenit prepara, sob orientação do novo treinador, Anatoly Davydov, a deslocação ao terreno do Amkar (13.º na tabela), no próximo domingo, na 18.ª jornada do campeonato russo.»

Pontuação

Pausa menor


      «Já Pires, lesionou-se na boca no jogo com o Lagoa, após ter sido atingido por uma cotovelada, mas ontem já trabalhou sem limitações e está apto para a partida com o Estoril, no próximo domingo.» Na minha experiência, o que vejo é que em cada dez vezes que aparece a construção «já X», relativamente abundante, oito estão mal pontuadas. Separar o sujeito do predicado quando aparecem seguidos? Deve ver-se aqui o que alguns gramáticos de trazer por casa chamam «valor melódico da vírgula». Infelizmente, nem todos os jornalistas lêem o jornal para que escrevem. Assim, é óbvio que todas as convicções que tiverem se manterão fortes.

Como se escreve nos jornais

Em bruto, não


      «“Vai ser uma poule complicada, mas, como sempre, temos de acreditar que, dentro das nossas possibilidades, é possível o apuramento”, sublinha o jogador do Friedrichshafen, para quem a Bulgária é a principal favorita.» Alguns jornalistas não encontram o meio-termo entre deixarem um entrevistado exprimir-se de forma inverosímil (o caso mais recente é o de Cristiano Ronaldo, que parecia um professor catedrático de Filosofia) e limitarem-se a transcrever a entrevista. É claro que o que o entrevistado diz, seja futebolista, seja escritor, é para ser editado. Se o jornalista deixar a entrevista pejada de erros de toda a espécie, com trechos simplesmente incompreensíveis, o revisor pode fazer muito, mas não fará milagres. A ajudar, só um facto: a maioria dos jornalistas é mais ciosa dos títulos e antetítulos do que do corpo da peça. Uma questão de orgulho e identidade...


Pontuação

Plantel e gramática


      Ali, quase todos acham natural uma frase como: «O avançado do Sporting, Liedson, já é cidadão português.» Até um desconhecedor militante de coisas sobre o futebol como eu (prefiro tê-lo no currículo a que mo inscrevam no epitáfio) sabe que a frase não é verdadeira — não correcta, mas verdadeira. Mas a situação é mais complexa, reconheço. Ao jornalista desportivo, falta conhecer algumas regras gramaticais elementares. Ao revisor, pode faltar o conhecimento, facilmente adquirível, do plantel dos clubes (não das regras do futebol, pois as posições, com excepção do guarda-redes, não são referidas nas regras). Se o Sporting tem cinco avançados (o Benfica, sete e o FC Porto, oito), nunca será verdadeira a frase acima. Será então: «O avançado do Sporting Liedson já é cidadão português.» Ou talvez melhor: «O avançado sportinguista Liedson já é cidadão português.» Ou: «Liedson, avançado do Sporting, já é cidadão português.» Ou: «O avançado leonino Liedson já é cidadão português.» Além do mais, há outro avançado estrangeiro, o equatoriano Felipe Caicedo. Frases semelhantes, e sempre falsas, são ali publicadas diariamente.

Maldizer ≠ bendizer

In Record, 14.08.2009, p. 2.


Não quis saber

      Não serão todos, mas pelo menos alguns dicionários registam expressamente como antónimo de maldizer o verbo bendizer. É o caso do Grande Dicionário de Sinônimos e Antônimos das Publicações Ediouro (Rio de Janeiro, 2004), na página 352. Nem sempre, mas muitas vezes a antonímia pode ter origem num prefixo de sentido oposto ou negativo: activo e inactivo, bendizer e maldizer; comunista e anti­comunista, concórdia e discórdia, progredir e regredir; simpático e antipático… «Crónica de bem dizer»? «Falo do que gosto e de quem gosto, com destaque para os jogadores, que tantas vezes deixo numa segunda linha de análise mas que são a verdadeira explicação à [sic] loucura que se volta a instalar já neste fim-de-semana». Não se trata aqui da arte de bem dizer, mas de enaltecer, louvar, dizer bem. Eu estava lá e disse ao revisor que estava incorrecto. Sei, porém, que as pessoas só seguem os conselhos que lhes dão quando estes são pagos.

Sobre «clubístico»

Os suspeitos do costume

      O tal revisor também fica transtornado quando vê — e vê, pelo menos, uma vez por semana — a palavra «clubístico». «Paixão clubística»? Embora atribua todos os males da língua portuguesa à influência, que considera deletéria, dos Brasileiros («as telenovelas vieram acabar com a pureza da língua»), neste caso tem uma explicação mais esotérica: suspeita que o vocábulo «mística», também usado no jornalismo desportivo, anda envolvido na corrupção. «“Clubístico” não existe. Veja.» Mostra-me a 4.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, praticamente a única obra de consulta de que dispõem ali. «Existe é “clubista”.»
      O que se pode ver é que a criação de adjectivos relacionais mediante o sufixo –ístico é relativamente comum no âmbito de actividades desportivas e profissionais: futebolístico, pianístico, tenístico, turfístico, etc. Uma pesquisa no Dicionário Houaiss revela a existência de 169 verbetes terminados em –ístico. E se não acolhe clubístico, regista cineclubístico. Até no Livro de Estilo do Público é usado o termo: «Uma das normas de conduta dos jornalistas do PÚBLICO é o não envolvimento público em tomadas de posição de carácter político, comercial, religioso, militar, clubístico ou outras que, de algum modo, comprometam a imagem de independência do jornal e dos seus jornalistas.» E a MorDebe regista o vocábulo.

«Mano a mano» I

A diestro y siniestro


      Dizia-me aquele revisor que já esclareceu vezes sem conta jornalistas e editores que não é mano-a-mano, mas mano a mano. Faltou foi dizer que é uma locução adverbial espanhola. Nascida no meio tauromáquico e significando a corrida de touros em que actuam apenas dois matadores, passou depois a significar também qualquer acção realizada por duas pessoas em competição, bem como em companhia, com familiaridade e confiança.

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