Como se escreve nos jornais

Em bruto, não


      «“Vai ser uma poule complicada, mas, como sempre, temos de acreditar que, dentro das nossas possibilidades, é possível o apuramento”, sublinha o jogador do Friedrichshafen, para quem a Bulgária é a principal favorita.» Alguns jornalistas não encontram o meio-termo entre deixarem um entrevistado exprimir-se de forma inverosímil (o caso mais recente é o de Cristiano Ronaldo, que parecia um professor catedrático de Filosofia) e limitarem-se a transcrever a entrevista. É claro que o que o entrevistado diz, seja futebolista, seja escritor, é para ser editado. Se o jornalista deixar a entrevista pejada de erros de toda a espécie, com trechos simplesmente incompreensíveis, o revisor pode fazer muito, mas não fará milagres. A ajudar, só um facto: a maioria dos jornalistas é mais ciosa dos títulos e antetítulos do que do corpo da peça. Uma questão de orgulho e identidade...


Pontuação

Plantel e gramática


      Ali, quase todos acham natural uma frase como: «O avançado do Sporting, Liedson, já é cidadão português.» Até um desconhecedor militante de coisas sobre o futebol como eu (prefiro tê-lo no currículo a que mo inscrevam no epitáfio) sabe que a frase não é verdadeira — não correcta, mas verdadeira. Mas a situação é mais complexa, reconheço. Ao jornalista desportivo, falta conhecer algumas regras gramaticais elementares. Ao revisor, pode faltar o conhecimento, facilmente adquirível, do plantel dos clubes (não das regras do futebol, pois as posições, com excepção do guarda-redes, não são referidas nas regras). Se o Sporting tem cinco avançados (o Benfica, sete e o FC Porto, oito), nunca será verdadeira a frase acima. Será então: «O avançado do Sporting Liedson já é cidadão português.» Ou talvez melhor: «O avançado sportinguista Liedson já é cidadão português.» Ou: «Liedson, avançado do Sporting, já é cidadão português.» Ou: «O avançado leonino Liedson já é cidadão português.» Além do mais, há outro avançado estrangeiro, o equatoriano Felipe Caicedo. Frases semelhantes, e sempre falsas, são ali publicadas diariamente.

Maldizer ≠ bendizer

In Record, 14.08.2009, p. 2.


Não quis saber

      Não serão todos, mas pelo menos alguns dicionários registam expressamente como antónimo de maldizer o verbo bendizer. É o caso do Grande Dicionário de Sinônimos e Antônimos das Publicações Ediouro (Rio de Janeiro, 2004), na página 352. Nem sempre, mas muitas vezes a antonímia pode ter origem num prefixo de sentido oposto ou negativo: activo e inactivo, bendizer e maldizer; comunista e anti­comunista, concórdia e discórdia, progredir e regredir; simpático e antipático… «Crónica de bem dizer»? «Falo do que gosto e de quem gosto, com destaque para os jogadores, que tantas vezes deixo numa segunda linha de análise mas que são a verdadeira explicação à [sic] loucura que se volta a instalar já neste fim-de-semana». Não se trata aqui da arte de bem dizer, mas de enaltecer, louvar, dizer bem. Eu estava lá e disse ao revisor que estava incorrecto. Sei, porém, que as pessoas só seguem os conselhos que lhes dão quando estes são pagos.

Sobre «clubístico»

Os suspeitos do costume

      O tal revisor também fica transtornado quando vê — e vê, pelo menos, uma vez por semana — a palavra «clubístico». «Paixão clubística»? Embora atribua todos os males da língua portuguesa à influência, que considera deletéria, dos Brasileiros («as telenovelas vieram acabar com a pureza da língua»), neste caso tem uma explicação mais esotérica: suspeita que o vocábulo «mística», também usado no jornalismo desportivo, anda envolvido na corrupção. «“Clubístico” não existe. Veja.» Mostra-me a 4.ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, praticamente a única obra de consulta de que dispõem ali. «Existe é “clubista”.»
      O que se pode ver é que a criação de adjectivos relacionais mediante o sufixo –ístico é relativamente comum no âmbito de actividades desportivas e profissionais: futebolístico, pianístico, tenístico, turfístico, etc. Uma pesquisa no Dicionário Houaiss revela a existência de 169 verbetes terminados em –ístico. E se não acolhe clubístico, regista cineclubístico. Até no Livro de Estilo do Público é usado o termo: «Uma das normas de conduta dos jornalistas do PÚBLICO é o não envolvimento público em tomadas de posição de carácter político, comercial, religioso, militar, clubístico ou outras que, de algum modo, comprometam a imagem de independência do jornal e dos seus jornalistas.» E a MorDebe regista o vocábulo.

«Mano a mano» I

A diestro y siniestro


      Dizia-me aquele revisor que já esclareceu vezes sem conta jornalistas e editores que não é mano-a-mano, mas mano a mano. Faltou foi dizer que é uma locução adverbial espanhola. Nascida no meio tauromáquico e significando a corrida de touros em que actuam apenas dois matadores, passou depois a significar também qualquer acção realizada por duas pessoas em competição, bem como em companhia, com familiaridade e confiança.

Contracção

Elementar

      «Podia-o chamar?» Esta frase está correcta? Decerto que sim, é apenas invulgar actualmente. Uma boa abonação: no «Sermão das Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal, D. Duarte, de Dolorosa Memória», o padre António Vieira escreveu: «Podia-o dizer com a mesma, e ainda maior razão; e se falasse com Suas Majestades, podia-o dizer com as mesmas, e não com melhores palavras: Quotidie morior per vestram gloriam Fratres.» Estabelecido isto, como seria a transcrição da forma popular de proferir a frase? Assim: «Podiò chamar?» Se há contracção, temos de usar o acento grave. Se, mais do que a forma popular, quisermos registar o solecismo celebrizado por Raul Solnado, escreveremos então: «Podiò chamá-lo?»

Léxico: «meta-análise»


Interessante

      O vocábulo meta-análise, com que alguns médicos estarão familiarizados, não está registado nos dicionários gerais da língua, não exactamente por ser um termo técnico, porque estes abundam nos dicionários, mas por não estar largamente divulgado, como outros. Eis não apenas uma definição, mas a forma de se fazer uma meta-análise: «A meta-analysis is a very simple thing to do, in some respects: you just collect all the results from all the trials on a given subject, bung them into one big spreadsheet, and do the maths on that, instead of relying in your own gestalt intuition about all the results from each of your little trials» (Bad Science, Ben Goldacre. Londres: Fourth Estate, 2008, p. 54). Há mesmo uma organização internacional — sem fins lucrativos! —, The Cochrane Collaboration, constituída por académicos, que elabora súmulas sistemáticas da literatura de investigação sobre a pesquisa em termos de cuidados de saúde, incluindo as meta-análises. À representação diagramática dos ensaios clínicos dá-se o nome de blobbogram (sem correspondência em português) e faz parte do logótipo da Cochrane.

«Ambos» em frase negativa

Por pouco


      «Ambos os jogadores não são vistos como prioritários pelo técnico chileno do Real, Manuel Pellegrini, pelo que existe a possibilidade de ambos serem trocados pelo extremo gaulês, mais o pagamento de 30 milhões de euros», escreveu o jornalista, mas eu não deixei que a frase visse a luz do dia (viu apenas a luz artificial da redacção). Mesmo que se aceitasse como correcta aquela construção negativa com o numeral «ambos», continuava a soar-nos estranha. E como o espaço tem tanta importância, numa formulação diferente até pouparemos caracteres: «Nenhum dos jogadores é visto como prioritário pelo técnico chileno do Real, Manuel Pellegrini, pelo que existe a possibilidade de ambos serem trocados pelo extremo gaulês, mais o pagamento de 30 milhões de euros.» Nem tudo o que não é proibido é aceitável.

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