Contracção

Elementar

      «Podia-o chamar?» Esta frase está correcta? Decerto que sim, é apenas invulgar actualmente. Uma boa abonação: no «Sermão das Exéquias do Sereníssimo Infante de Portugal, D. Duarte, de Dolorosa Memória», o padre António Vieira escreveu: «Podia-o dizer com a mesma, e ainda maior razão; e se falasse com Suas Majestades, podia-o dizer com as mesmas, e não com melhores palavras: Quotidie morior per vestram gloriam Fratres.» Estabelecido isto, como seria a transcrição da forma popular de proferir a frase? Assim: «Podiò chamar?» Se há contracção, temos de usar o acento grave. Se, mais do que a forma popular, quisermos registar o solecismo celebrizado por Raul Solnado, escreveremos então: «Podiò chamá-lo?»

Léxico: «meta-análise»


Interessante

      O vocábulo meta-análise, com que alguns médicos estarão familiarizados, não está registado nos dicionários gerais da língua, não exactamente por ser um termo técnico, porque estes abundam nos dicionários, mas por não estar largamente divulgado, como outros. Eis não apenas uma definição, mas a forma de se fazer uma meta-análise: «A meta-analysis is a very simple thing to do, in some respects: you just collect all the results from all the trials on a given subject, bung them into one big spreadsheet, and do the maths on that, instead of relying in your own gestalt intuition about all the results from each of your little trials» (Bad Science, Ben Goldacre. Londres: Fourth Estate, 2008, p. 54). Há mesmo uma organização internacional — sem fins lucrativos! —, The Cochrane Collaboration, constituída por académicos, que elabora súmulas sistemáticas da literatura de investigação sobre a pesquisa em termos de cuidados de saúde, incluindo as meta-análises. À representação diagramática dos ensaios clínicos dá-se o nome de blobbogram (sem correspondência em português) e faz parte do logótipo da Cochrane.

«Ambos» em frase negativa

Por pouco


      «Ambos os jogadores não são vistos como prioritários pelo técnico chileno do Real, Manuel Pellegrini, pelo que existe a possibilidade de ambos serem trocados pelo extremo gaulês, mais o pagamento de 30 milhões de euros», escreveu o jornalista, mas eu não deixei que a frase visse a luz do dia (viu apenas a luz artificial da redacção). Mesmo que se aceitasse como correcta aquela construção negativa com o numeral «ambos», continuava a soar-nos estranha. E como o espaço tem tanta importância, numa formulação diferente até pouparemos caracteres: «Nenhum dos jogadores é visto como prioritário pelo técnico chileno do Real, Manuel Pellegrini, pelo que existe a possibilidade de ambos serem trocados pelo extremo gaulês, mais o pagamento de 30 milhões de euros.» Nem tudo o que não é proibido é aceitável.

Tradução: «terminal cancer»

Estava aqui a pensar

      Se terminal se diz, em medicina, da última fase de uma doença que evolui para a morte sem que se possa impedi-la (mas há milagres), então, não temos de traduzir terminal cancer por cancro em fase terminal, mas somente cancro terminal. Quando o Correio da Manhã noticiou a morte de Jade Goody, ex-concorrente do Big Brother inglês, usou duas vezes no corpo da notícia a locução cancro em fase terminal, ao passo que no antetítulo, decerto que por falta de espaço (e por falta de espaço se escrevem muitas tolices), se lia cancro terminal.



Actualização em 25.08.2009



      «Libertado na semana passada pelas autoridades escocesas por padecer de um cancro terminal, al-Megrahi afirma ter sido vítima de um golpe montado para o incriminar da morte dos 243 passageiros e 16 tripulantes de um voo da Pan Am que se despenhou sobre Lockerbie, em 1988, matando ainda 11 habitantes da localidade» («Terrorista de Lockerbie alega inocência em livro», F. J. G., Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 35).

Sobre «factor»

Aquele que faz

      «O Metropolitano de Lisboa já tinha reduzido bastante o número de tripulantes dos comboios, quando decidiu dispensar os denominados factores, elementos que seguiam a bordo, controlavam a entrada e saída de passageiros e a abertura e fecho das portas das composições» («Metro gastou milhões em piloto automático que não funciona», Daniel Lam, Diário de Notícias, 12.08.2009, p. 19). Se se for retirando arcaísmos, acepções, palavras e expressões em desuso dos dicionários, a compreensão de muitos textos vai-se tornando gradualmente mais difícil. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista que factor é «aquele que faz alguma coisa; agente». Já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista que é «aquele que, numa empresa de transportes, está encarregado de transportar e remeter os embrulhos, bagagens, mercadorias, etc.». Para o Dicionário Houaiss, é somente «aquele que faz algo». A acepção mais conhecida do vocábulo é o de qualquer elemento que concorre para um resultado. Assim, a doença periodontal é um factor de risco para os acidentes cerebrovasculares.

«Tempo de prateleira»

Sair da prateleira

      «Durante muitas décadas, os físicos estudaram intensamente a estrutura da água e se, por um lado, é verdade que as moléculas de água formarão estruturas em torno de uma molécula dissolvida nelas à temperatura ambiente, o movimento aleatório quotidiano das moléculas de água significa que estas estruturas são muito efémeras, com tempos de vida medidos em picossegundos, ou menos ainda. Estamos a falar de um tempo de prateleira muito reduzido.» Nunca tinha lido ou ouvido a expressão tempo de prateleira (no original, inglês, lia-se shelf life). O Dicionário Houaiss não regista a locução. Em certo sentido, é sinónimo de «validade». Já quanto a picossegundo, é a unidade de tempo equivalente a um bilião de vezes menor que um segundo, e o Dicionário Houaiss regista o vocábulo.

Melhoras e melhorias


Triagem

      «O Hospital de Santa Maria anunciou melhorias numa das pacientes que cegou após tratamento. Maria das Dores, de 53 anos, já consegue ver vultos. A ministra da Saúde, Ana Jorge, anunciou que os doentes poderão ser encaminhados para o estrangeiro se houver “indicação clínica”.» É o texto de uma notícia publicada na página da Internet da RTP. Ainda que melhoria e melhora (mais usada no plural) signifiquem «diminuição da doença», o uso consagrou a primeira com o significado de «mudança para melhor estado ou condição material» (por exemplo: «O serviço de atendimento do Hospital de Santa Maria apresenta melhorias significativas depois de ter adoptado o método de Manchester.») e a última como sinónima de «diminuição de doença; alívio» («O Hospital de Santa Maria anunciou melhoras numa das pacientes que cegaram após tratamento.»).

Tradução: «scienciness»

Essa é boa

      Scienciness. O sufixo -ness indica estado, qualidade ou condição, neste caso não acrescentado a um adjectivo, como é habitual, mas a um substantivo: scienc(e)+i+ness*. «There are huge», dizia o original, «numbers of different brands, and many of them offer excellent and lenghty documents full of science to prove that they work: they have diagrams and graphs, and the appearence of scienciness; but the key elements are missing.» Tradução? Fácil, sim, mas aquele scienciness? A tradutora verteu assim para a língua portuguesa: «Há um grande número de marcas diferentes no mercado, e muitas delas fazem-se acompanhar de excelentes documentos extensos, cheios de ciência para provar que resultam: contêm diagramas e gráficos e a aparência de ciencialidade; no entanto, os elementos principais estão ausentes.»


* O i é uma vogal de ligação, que é um morfema que se acrescenta por motivos eufónicos. Tome-se a palavra «escolaridade», por exemplo. Temos: escolar+i+dade. Até podemos pesquisar num dicionário mórfico (como o que vem com a nova edição do Dicionário Houaiss, com 13 mil elementos mórficos, formantes da língua) o sufixo –idade, e vamos encontrá-lo, mas o respectivo verbete remete para –dade. E no caso de ciencialidade, o que temos? Ciência-li-dade? Sim, também há consoantes de ligação, como o z de «amorzinho», mas aqui temos uma sílaba. Nunca vi sílabas de ligação. Bastaria aqui uma vogal de ligação: ciencidade.

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