Tradução: «terminal cancer»

Estava aqui a pensar

      Se terminal se diz, em medicina, da última fase de uma doença que evolui para a morte sem que se possa impedi-la (mas há milagres), então, não temos de traduzir terminal cancer por cancro em fase terminal, mas somente cancro terminal. Quando o Correio da Manhã noticiou a morte de Jade Goody, ex-concorrente do Big Brother inglês, usou duas vezes no corpo da notícia a locução cancro em fase terminal, ao passo que no antetítulo, decerto que por falta de espaço (e por falta de espaço se escrevem muitas tolices), se lia cancro terminal.



Actualização em 25.08.2009



      «Libertado na semana passada pelas autoridades escocesas por padecer de um cancro terminal, al-Megrahi afirma ter sido vítima de um golpe montado para o incriminar da morte dos 243 passageiros e 16 tripulantes de um voo da Pan Am que se despenhou sobre Lockerbie, em 1988, matando ainda 11 habitantes da localidade» («Terrorista de Lockerbie alega inocência em livro», F. J. G., Correio da Manhã, 23.08.2009, p. 35).

Sobre «factor»

Aquele que faz

      «O Metropolitano de Lisboa já tinha reduzido bastante o número de tripulantes dos comboios, quando decidiu dispensar os denominados factores, elementos que seguiam a bordo, controlavam a entrada e saída de passageiros e a abertura e fecho das portas das composições» («Metro gastou milhões em piloto automático que não funciona», Daniel Lam, Diário de Notícias, 12.08.2009, p. 19). Se se for retirando arcaísmos, acepções, palavras e expressões em desuso dos dicionários, a compreensão de muitos textos vai-se tornando gradualmente mais difícil. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista que factor é «aquele que faz alguma coisa; agente». Já o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, regista que é «aquele que, numa empresa de transportes, está encarregado de transportar e remeter os embrulhos, bagagens, mercadorias, etc.». Para o Dicionário Houaiss, é somente «aquele que faz algo». A acepção mais conhecida do vocábulo é o de qualquer elemento que concorre para um resultado. Assim, a doença periodontal é um factor de risco para os acidentes cerebrovasculares.

«Tempo de prateleira»

Sair da prateleira

      «Durante muitas décadas, os físicos estudaram intensamente a estrutura da água e se, por um lado, é verdade que as moléculas de água formarão estruturas em torno de uma molécula dissolvida nelas à temperatura ambiente, o movimento aleatório quotidiano das moléculas de água significa que estas estruturas são muito efémeras, com tempos de vida medidos em picossegundos, ou menos ainda. Estamos a falar de um tempo de prateleira muito reduzido.» Nunca tinha lido ou ouvido a expressão tempo de prateleira (no original, inglês, lia-se shelf life). O Dicionário Houaiss não regista a locução. Em certo sentido, é sinónimo de «validade». Já quanto a picossegundo, é a unidade de tempo equivalente a um bilião de vezes menor que um segundo, e o Dicionário Houaiss regista o vocábulo.

Melhoras e melhorias


Triagem

      «O Hospital de Santa Maria anunciou melhorias numa das pacientes que cegou após tratamento. Maria das Dores, de 53 anos, já consegue ver vultos. A ministra da Saúde, Ana Jorge, anunciou que os doentes poderão ser encaminhados para o estrangeiro se houver “indicação clínica”.» É o texto de uma notícia publicada na página da Internet da RTP. Ainda que melhoria e melhora (mais usada no plural) signifiquem «diminuição da doença», o uso consagrou a primeira com o significado de «mudança para melhor estado ou condição material» (por exemplo: «O serviço de atendimento do Hospital de Santa Maria apresenta melhorias significativas depois de ter adoptado o método de Manchester.») e a última como sinónima de «diminuição de doença; alívio» («O Hospital de Santa Maria anunciou melhoras numa das pacientes que cegaram após tratamento.»).

Tradução: «scienciness»

Essa é boa

      Scienciness. O sufixo -ness indica estado, qualidade ou condição, neste caso não acrescentado a um adjectivo, como é habitual, mas a um substantivo: scienc(e)+i+ness*. «There are huge», dizia o original, «numbers of different brands, and many of them offer excellent and lenghty documents full of science to prove that they work: they have diagrams and graphs, and the appearence of scienciness; but the key elements are missing.» Tradução? Fácil, sim, mas aquele scienciness? A tradutora verteu assim para a língua portuguesa: «Há um grande número de marcas diferentes no mercado, e muitas delas fazem-se acompanhar de excelentes documentos extensos, cheios de ciência para provar que resultam: contêm diagramas e gráficos e a aparência de ciencialidade; no entanto, os elementos principais estão ausentes.»


* O i é uma vogal de ligação, que é um morfema que se acrescenta por motivos eufónicos. Tome-se a palavra «escolaridade», por exemplo. Temos: escolar+i+dade. Até podemos pesquisar num dicionário mórfico (como o que vem com a nova edição do Dicionário Houaiss, com 13 mil elementos mórficos, formantes da língua) o sufixo –idade, e vamos encontrá-lo, mas o respectivo verbete remete para –dade. E no caso de ciencialidade, o que temos? Ciência-li-dade? Sim, também há consoantes de ligação, como o z de «amorzinho», mas aqui temos uma sílaba. Nunca vi sílabas de ligação. Bastaria aqui uma vogal de ligação: ciencidade.

Tradução: «coroner» (III)

Está quase

      Alguns jornais, com o Diário de Notícias à frente, têm explorado bem o filão Michael Jackson. De tentativa em tentativa, procuram a melhor tradução da instituição em que exerce funções o coroner, matéria que já aqui nos ocupou. A coisa ainda não está afinada: «A informação foi revelada na noite de segunda-feira pelo Departamento de Medicina Legal do Estado [sic] de Los Angeles. […] A pedido da polícia, as conclusões não serão divulgadas enquanto durarem as investigações sobre a morte de Michael Jackson, afirmou o médico-legista Ed Winter, que tem estado a tratar do caso» («Autópsia de Jackson em segredo», Diário de Notícias, 12.08.2009, p. 48).

Plural das letras

Título de uma rubrica do Correio da Manhã

Pôr os pontos nos…


      Ontem, a discussão entre dois revisores era sobre a forma de pluralizar o nome da letra i: ii ou is? Um afirmava ter lido «não sei onde» (isto é que é um argumento de autoridade!) que correcto é ii. Podia ter sido em muitos sítios. O Dicionário Houaiss regista como plural da nona letra do nosso alfabeto ii. E no Ciberdúvidas, a propósito da mesma questão, é citado o Dicionário de Questões Vernáculas, de Napoleão Mendes de Almeida (Livraria Ciência e Tecnologia Editora, São Paulo), em que se pode ler: «Quando quisermos declarar que numa palavra existe certa letra dobrada, escrevamos dois aa, dois ee, dois ii (e não “dois ás”, “dois és”, “dois is”), pingo nos ii (e não “pingo nos is”). De igual forma: Tal palavra tem dois ss (e não: Tal palavra “tem ss” — nem:... “tem dois s”). Sem o cardinal, deveremos ler, simplesmente, /ésses/, como nas orações: fazer ss, andar aos ss (andar tortuosamente).» Já Hélio Consolaro, no Por Trás das Letras, tem outra certeza: «O plural das letras se faz de duas maneiras, indiferentemente: os 5 ss/os 5 esses, os aa/os ás, pingo nos ii/pingo nos is.» O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, também regista na página 2014: «Pl. ii ou is.» Mas o plural do nome desta vogal não é excepção, pois este dicionário regista uu ou us como plural de u; oo ou ós como plural de o; ee ou és como plural de e; e aa ou ás como plural de a. Para o Dicionário Houaiss, pelo contrário, o plural das vogais apenas se faz por duplicação: aa, ee, ii, oo, uu. Nas consoantes, por seu lado, tanto se faz por duplicação — bb, cc, dd… — como pela marca do plural no nome da letra — bês, cês, dês, efes… Por uma vez, estou de acordo com a opção do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea.

Actualização em 8.2.2010

      Vejam este erro num livro: «Nesta carta vou pôr os pontos nos iis» (Inocente, Not Guilty, Patrícia Lucas e Nicolas Bento. Revisão de Manuel Henrique Figueira. Alfragide: Academia do Livro, 2010, p. 171).



Pontuação

Os líberos e as vírgulas

      Três revisores, três opiniões. Que é indiferente, que é o oposto do que diz. «Ontem, Carlos Teixeira já assumiu o lugar de libero, e Flávio Cruz foi o melhor atacante, com 25 pontos.» Com vírgula, entende-se que o jogador foi o melhor atacante, com 25 pontos, isto é, foi o único que obteve 25 pontos. Sem vírgula, entende-se que dos vários atacantes com 25 pontos, Flávio Cruz foi o melhor. «Ontem, Carlos Teixeira já assumiu o lugar de libero, e Flávio Cruz foi o melhor atacante com 25 pontos.» E já agora: libero é palavra italiana, mais valia aportuguesar: líbero.

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