Tradução: «coroner» (III)

Está quase

      Alguns jornais, com o Diário de Notícias à frente, têm explorado bem o filão Michael Jackson. De tentativa em tentativa, procuram a melhor tradução da instituição em que exerce funções o coroner, matéria que já aqui nos ocupou. A coisa ainda não está afinada: «A informação foi revelada na noite de segunda-feira pelo Departamento de Medicina Legal do Estado [sic] de Los Angeles. […] A pedido da polícia, as conclusões não serão divulgadas enquanto durarem as investigações sobre a morte de Michael Jackson, afirmou o médico-legista Ed Winter, que tem estado a tratar do caso» («Autópsia de Jackson em segredo», Diário de Notícias, 12.08.2009, p. 48).

Plural das letras

Título de uma rubrica do Correio da Manhã

Pôr os pontos nos…


      Ontem, a discussão entre dois revisores era sobre a forma de pluralizar o nome da letra i: ii ou is? Um afirmava ter lido «não sei onde» (isto é que é um argumento de autoridade!) que correcto é ii. Podia ter sido em muitos sítios. O Dicionário Houaiss regista como plural da nona letra do nosso alfabeto ii. E no Ciberdúvidas, a propósito da mesma questão, é citado o Dicionário de Questões Vernáculas, de Napoleão Mendes de Almeida (Livraria Ciência e Tecnologia Editora, São Paulo), em que se pode ler: «Quando quisermos declarar que numa palavra existe certa letra dobrada, escrevamos dois aa, dois ee, dois ii (e não “dois ás”, “dois és”, “dois is”), pingo nos ii (e não “pingo nos is”). De igual forma: Tal palavra tem dois ss (e não: Tal palavra “tem ss” — nem:... “tem dois s”). Sem o cardinal, deveremos ler, simplesmente, /ésses/, como nas orações: fazer ss, andar aos ss (andar tortuosamente).» Já Hélio Consolaro, no Por Trás das Letras, tem outra certeza: «O plural das letras se faz de duas maneiras, indiferentemente: os 5 ss/os 5 esses, os aa/os ás, pingo nos ii/pingo nos is.» O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, também regista na página 2014: «Pl. ii ou is.» Mas o plural do nome desta vogal não é excepção, pois este dicionário regista uu ou us como plural de u; oo ou ós como plural de o; ee ou és como plural de e; e aa ou ás como plural de a. Para o Dicionário Houaiss, pelo contrário, o plural das vogais apenas se faz por duplicação: aa, ee, ii, oo, uu. Nas consoantes, por seu lado, tanto se faz por duplicação — bb, cc, dd… — como pela marca do plural no nome da letra — bês, cês, dês, efes… Por uma vez, estou de acordo com a opção do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea.

Actualização em 8.2.2010

      Vejam este erro num livro: «Nesta carta vou pôr os pontos nos iis» (Inocente, Not Guilty, Patrícia Lucas e Nicolas Bento. Revisão de Manuel Henrique Figueira. Alfragide: Academia do Livro, 2010, p. 171).



Pontuação

Os líberos e as vírgulas

      Três revisores, três opiniões. Que é indiferente, que é o oposto do que diz. «Ontem, Carlos Teixeira já assumiu o lugar de libero, e Flávio Cruz foi o melhor atacante, com 25 pontos.» Com vírgula, entende-se que o jogador foi o melhor atacante, com 25 pontos, isto é, foi o único que obteve 25 pontos. Sem vírgula, entende-se que dos vários atacantes com 25 pontos, Flávio Cruz foi o melhor. «Ontem, Carlos Teixeira já assumiu o lugar de libero, e Flávio Cruz foi o melhor atacante com 25 pontos.» E já agora: libero é palavra italiana, mais valia aportuguesar: líbero.

Propriedade vocabular

Os herdeiros percebem

      «Hoje, Martha e os quatro filhos — Edmund [Klein, médico especialista no tratamento do cancro da pele, galardoado com o Prémio Lasker] morreu há dez anos e a filha mais velha Judith faleceu há três — têm um espólio de valor incalculado, que, em finais de Junho, e pela primeira vez, saiu dos cofres de um banco direitinho para Anderson Gallery, em Buffalo» («O anjo de Dalí», Ricardo Lourenço, Expresso, 25.07.2009, p. 18). Mais valia, aos herdeiros de Edmund Klein, que os desenhos oferecidos por Dalí fossem de valor incalculável. E é a dúvida que nos fica: se o jornalista escreveu incalculado, que só significa que ainda não foi calculado, e pode revelar-se sem grande valor, porque pensa que é o mesmo que incalculável, muito grande, enorme.

Alemanha guilhermiana

Os vv, os ww e os gg


      O original, inglês, falava em «Wilhelminian Germany». O tradutor achou que correcto seria «Alemanha Vilhelminiana». Friedrich Wilhelm Viktor Albrecht Hohenzollern — era o nome em alemão. Entre nós, ficou conhecido como Guilherme II (1859―1941). Logo, a era designar-se-á como guilhermiana.

Acentuações das reduções


A pólio serve

      Só ontem me lembrei deste exemplo, que teria sido útil para explicar porque se deve grafar hétero e não *hetero. A acentuação desta e de outras reduções, escrevi então, segue a regra oficial. E o exemplo que deveria ter aduzido é o da redução do vocábulo «poliomielite», pólio, pois que já aparece registada nos dicionários mais comuns. A imagem é da capa de um opúsculo sobre a vacina contra a poliomielite (antipólio).

Gentílicos de topónimos compostos

Nada mudou

      Cara Luísa Pinto, tudo continua na mesma, pois as regras não mudaram. Consultando o Vocabulário da Língua Portuguesa, vemos que Rebelo Gonçalves regista Ponta-Delgadenses, Porto-Riquenhos, Porto-Santenses, Ponta-Solenses, Vila-Bispenses, Vila-Condenses, Vila-Florenses, Vila-Franquenses, Vila-Novenses, Vila-Realenses, Vila-Riquenses, Vila-Verdenses. Assim, o que vemos é que, se o topónimo é composto de dois vocábulos, o hífen é obrigatório no gentílico. O desconhecimento das excepções é que leva ao erro de se escrever *neo-zelandês em vez de neozelandês. Em relação a Nova Iorque, há dois gentílicos: noviorquino e nova-iorquino.

Ortografia: «alto-funcionário»

De remissão em remissão


      «Na lista encontram-se ainda vários funcionários do Ministério da Saúde, em cargos de chefia de serviços, professores catedráticos, controladores de tráfego aéreo, altos-funcionários diplomáticos e uma assessora do conselho de administração da Euronext Lisbon, a Bolsa de Valores de Lisboa» («Função Pública tem menos milionários», Diana Ramos, Correio da Manhã, 7.08.2009, p. 22).
       Comecei por abordar a grafia de alto-comissário, ainda vacilante na nossa imprensa, mais tarde recomendei que se grafasse alto-responsável. Hoje é a vez de reconhecer que também se deve grafar alto-funcionário e de responder aos dois comentários ao texto em que abordei a ortografia de «alto-responsável». Não creio que seja de distinguir entre alto-responsável e alto responsável, pois não me parece que a primeira alguma vez designe um posto específico. É tão inespecífico, pelo menos, como o termo «oficial» para designar as graduações na hierarquia militar.

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